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Margarida Louro Felgueiras: “Mestrado é hoje a continuação da licenciatura”

Margarida Louro Felgueiras é professora de História Contemporânea da Educação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.
22 de Agosto de 2010 às 00:00
Margarida Louro Felgueiras: “Mestrado é hoje a continuação da licenciatura”
Margarida Louro Felgueiras: “Mestrado é hoje a continuação da licenciatura” FOTO: Diogo Pinto

Margarida Louro Felgueiras é professora de História Contemporânea da Educação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

- Os mestrados cresceram cerca de 600% em Portugal nos últimos 15 anos revelou um levantamento estatístico. Que razões podem ter contribuído para tamanho aumento? E, por outro lado, a dificuldade em arranjar emprego será uma das razões?

- Os cursos de mestrado em Portugal iniciaram-se na década de 80. Esse grau não existia nos diplomas concedidos pelas Universidades portuguesas  no século XX. Lembro que na formação de professores foi necessário, ainda na década de 70, enviar ao estrangeiro um conjunto de pessoas para obterem especialização através de Mestrado, que era corrente nas universidades anglo-saxónicas. As licenciaturas em geral  eram longas (5 anos com apresentação de uma tese final) e havia cursos mais longos como Medicina ou Engenharia.

No início da década de 70, para dar resposta às necessidades do sistema educativo foram criados os bacharelatos nas Universidades (3 anos) a que se seguia a licenciatura (mais 2 anos). A formação avançada - doutoramento - era quase exclusiva do corpo docente universitário. O doutoramento era um processo lento de 6, 8 ou 10 anos. Mas poderia ser feito em menos. Temos casos, por exemplo na 1.ª República, de figuras eminentes da cultura portuguesa, como o Prof. Joaquim de Carvalho, que defendeu o doutoramento muito novo, em muito pouco tempo. Existiam as duas situações mas durante a Ditadura a norma parece ter sido um tempo longo de preparação da tese e demais provas.

Tudo isto estava de acordo com a filosofia política de restrição de acesso das camadas populares à educação. Só uma camada ínfima da população ascendia à Universidade, o analfabetismo rondava os 35% e a esmagadora maioria dos que aprendiam a ler não passava da 3.ª classe até 1957, para os rapazes, 1960 para as meninas. Neste quadro, ser licenciado era um grau elevadíssimo e raro. Qualquer outra formação era feita de forma autodidáctica, no contexto de trabalho ou por entusiasmo ou paixão por determinado tema. O nosso tecido produtivo não exigia, e atrevo-me a dizer que ainda hoje não exige, mau grado os discursos, grande formação de quadros.. Mas não é por acaso que o Estado vai investir na formação de quadros ao nível do ensino, enviando bolseiros a fazer Mestrados e no discurso político tenha aparecido a expressão “a batalha da Educação”!...

Ora é no contexto da Democratização da sociedade portuguesa que a questão da democracia da educação e da formação se coloca de forma premente. E foi nesse contexto que se deram também fortes transformações das estruturas produtivas. É do senso comum afirmar que no sector da saúde foi onde se deram as transformações de mais sucesso. Não nego que foram enormes, mas na educação também o foram. E o acesso massivo da população á educação trouxe problemas novos e exigiu o alargamento da formação de nível superior. Foi nesse contexto que surgiram os cursos de Mestrado, inicialmente ainda de 3 anos, mais tarde de dois anos, conforme o modelo actual. Bolonha não alterou a duração dos Cursos de Mestrados: deu-lhe apenas novos contornos.

No momento presente, com a exigência de se alargar cada vez mais a formação, os cursos de Mestrado só podem aumentar. Repare que a escolaridade obrigatória, para as novas gerações passou para o 12º ano de escolaridade. Ou seja: a licenciatura aparece como o 1.º degrau da pós obrigatoriedade escolar. Quem procurava a licenciatura vai querer o mestrado ou o doutoramento. E esse número, nos próximos tempos tenderá a aumentar, se não lhe criarem entraves. Se concepções conservadoras e elitistas não o vierem a impedir, levando o Estado a desinvestir na Universidade Pública e tornando a sua frequência insustentável para as famílias de poucos recurso, que são cada vez mais a maioria.

Circunscrevendo um pouco mais a questão, podemos dizer que um sucesso no campo educativo nos últimos 30 anos foi sem dúvida o alargamento da percentagem de jovens que acedem à Universidade. Não que estejamos auto-satisfeitos com isso, pois há ainda um largo percurso a fazer para nos equipararmos com os países mais avançados nesse campo e é necessário alargar ainda muito essa percentagem. Poderia dizer em linguagem simples que há muito mais a fazer do que o que já foi feito. Quer a população estudantil quer quadros no activo sentem necessidade de continuar a sua formação, para não estagnarem, não se sentirem ultrapassados. E fazem-no através do Curso de Mestrado.

Acresce que os mais jovens não têm emprego e as famílias apoiam uma formação mais longa enquanto não surge trabalho. Entre ter os filhos em casa, deprimidos, isolados, a Universidade permite contactos, abre perspectivas, permite troca de informações, auxilia na própria procura de trabalho. Há ainda a considerar que as instituições de Ensino Superior, elas próprias necessitam, para sobreviver, de aumentar a oferta de cursos especializados. A tendência será para a diminuição de alunos de licenciatura, se não se inverter a desistência e abandono ao nível da escolaridade obrigatória. Há aqui uma conjugação de vários factores que se potenciam. Daí esse aumento enorme a que se refere.

- Parece-lhe que, hoje, um mestrado é encarado de forma diferente pelos alunos em relação à forma como era encarado há 10, 15 anos? O que mudou?

- Na verdade muita coisa mudou. Se não observe. A criação de cursos de mestrado constituiu, do meu ponto de vista, um passo decisivo na democratização de uma cultura de nível superior. Anteriormente, quem se atrevia a enveredar por um doutoramento, por exemplo, tinha de pedir a alguém o favor de o orientar. A relação era esta – de favor! Se o professor não se interessasse não aceitava orientar.

Por sua vez, mesmo aceitando, não se sentia muito obrigado a despender o seu tempo com o orientando. Isso ficava sujeito à disponibilidade e ao critério do que cada um entendesse ser o trabalho de orientação. Entenda-se que não estou a criticar as pessoas ou a dizer que a orientação não fosse boa. Não é isso. O que pretendo dizer é que não havia regra e a situação, como disse, era dependência, de favor. Ora, com os cursos de mestrado, os estudantes têm direito a um orientador. Há regras que têm de ser observadas (o que não significa que sejam sempre cumpridas… mas há regras) e são os próprios orientados que nos exigem uma resposta a tempo.

Apesar da orientação ser sempre uma relação muito pessoal ela é, antes de tudo, institucional e profissional. Esta é uma condição básica para o alargamento e a democracia científica e cultural nas nossas sociedades. O mesmo vai acontecer com os doutoramentos. Daqui a alguns anos talvez me pergunte: Porque aumentaram tanto os doutoramentos? Uma das razões será porque existem institucionalizados cursos de doutoramento.  Mas há razões mais imediatas também.

O mestrado hoje é a continuação da licenciatura. A licenciatura, na realidade é o que foi para a minha geração o bacharelato. E as pessoas tiravam na sua maioria a licenciatura, pois sabia-se que a um prazo muito curto ficariam subalternizadas e a sua formação muito limitada. Agora o sentimento também é esse. Repare que houve cursos e ordens profissionais que se bateram pelo “mestrado integrado”. É o caso das Engenharias, por exemplo, da Psicologia, dos que tem por finalidade o ensino. Ou seja, há um conjunto de actividades que só reconhecem o diploma válido para exercerem a actividade antes praticada por licenciados, só após a realização do mestrado. Veja-se a polémica instalada na Ordem dos Advogados. Não acontece com os engenheiros ou os psicólogos, pois esses grupos profissionais actuaram a nível europeu para imporem a formação de 5 anos como indispensável para o exercício da profissão. Que era a situação anterior das licenciaturas.

É evidente que a segmentação da formação superior em 3 níveis ou ciclos : 3 anos de licenciatura +2 anos para o mestrado +4 anos para o doutoramento, exigiu a definição de um suplemento aos diplomas em que se enunciam as competências profissionais de cada ciclo de estudos. O que significa que se alguém não puder continuar, por qualquer motivo, tem um grau certificado por diploma, que lhe atribui determinadas competências profissionais. Ou seja, alguém com 3 anos de uma Faculdade não é um indiferenciado que não acabou um curso. Essa pessoa tem uma formação que lhe permite desempenhar um conjunto de tarefas. Penso que o pensamento subjacente é que toda a formação seja contabilizada e valorizada. 

Há ainda um facto novo: o mestrado profissionalizante. O estudante pode optar por defender uma dissertação -usual trabalho académico- ou fazer um estágio, desenvolver um projecto e fazer e defender um relatório. Ora os jovens, sem experiência profissional, vêem nesta opção uma forma de terem contacto com o mundo do trabalho, ainda que temporariamente e assim aumentar a sua empregabilidade. E isto atrai muitos à realização do mestrado.

Já os profissionais que vêm fazer mestrado optam mais pela dissertação, pois pretendem aprofundar a reflexão teórica sobre determinado tema. Estas parecem ser as tendências dos estudantes, não quer dizer que seja sempre assim, como é evidente. Mas estas possibilidades vieram alterar um pouco a relação dos estudantes face à frequência do mestrado.

- Na sua opinião, Bolonha descaracterizou a essência dos mestrados?

Não penso que haja aqui uma essência a defender. Bolonha impôs sobretudo regras estritas quanto à duração do mestrado. O que exige mais eficiência da parte das instituições, no que diz respeito ao funcionamento da parte curricular e de orientação. Exige também muito mais disciplina da parte dos estudantes: não podem arrastar os trabalhos. Claro que limita a qualidade da investigação, no sentido em que os trabalhos têm de ser sobre temáticas muito limitadas.

Na História da Educação, por exemplo, em que há necessidade de pesquisar em arquivos, muitos deles completamente desorganizados, em bibliotecas, etc, isso exige tempo. Por vezes muito tempo. Os novos trabalhos não podem ter o fôlego dos anteriores, que tinham mais tempo. Nesse aspecto, e em alguns campos, a investigação com alguma profundidade passou necessariamente para o doutoramento. Mas o que se perdeu em extensão pode ser ganho em rigor, em treino de escrita, etc. Não é necessariamente mau, desde que não se baixe o nível de exigência.

Penso que esse é o grande desafio que se coloca ao Ensino Superior: Como manter o nível de exigência com prazos curtos, pendor escolarizante da formação e apelos de eficiência quantitativista?

Parece-lhe que o mercado de trabalho sabe valorizar os mestres pós-Bolonha?

Não há de certo a possibilidade de uma resposta única a esta questão. Há ainda poucos mestres da via profissionalizante. Quando existirem mais talvez se possa proferir afirmações mais seguras sobre isso. A minha questão vai um pouco além disso. Há indícios suficientes para pensarmos que o nosso mecado de trabalho não  dá valor aos indivíduos com formação superior. Veja só os anúncios nos jornais. Eles são poucos mas aparecem deste teor, mais ou menos: “ Precisa-se Engenheiro primeiro emprego. Oferece-se ordenado de 500€”. Estes são os que já têm mestrado integrado! A valorização é de salário mínimo!...  Outros cursos em que a fiscalização do trabalho não é tão estabelecida não chegam a oferecer contrato: é o recibo verde, etc. São conhecidas as situações e as práticas!... 

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