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Marguerite Duras: amante sem tabus nem preconceitos

Iniciação sexual marcada pela luta contra o racismo e pela transgressão.
João Pedro Ferreira 14 de Abril de 2019 às 12:00
Marguerite Duras
Marguerite Duras FOTO: Getty Images
Marguerite Duras é o pseudónimo de Marguerite Donnadieu (1914-1996), escritora e realizadora francesa nascida nos arredores de Saigão, hoje Ho Chi Minh), na Indochina Francesa (atual Vietname).

O seu maior êxito – vendeu mais de 250 mil exemplares e recebeu o prestigiado Prémio Goncourt - foi o romance autobiográfico ‘O Amante’, no qual conta a sua iniciação sexual aos 15 anos com um chinês rico doze anos mais velho.

As suas experiências eróticas são um percurso de libertação. A transgressão dos interditos de uma sociedade colonial que não admitia o relacionamento entre uma jovem europeia e um asiático fez de Duras uma referência do feminismo.

O pai era diretor de uma escola e morreu tinha Marguerite sete anos. A mãe, professora, investiu as poupanças numa propriedade que seria destruída por uma inundação do rio Mekong, episódio relatado no livro ‘Uma Barragem Contra o Pacífico’, adaptado ao cinema com o título ‘Terra Cruel’, com Anthony Perkins. Concluídos os estudos secundários foi para Paris estudar Direito, mas dedicou-se antes à escrita e ao cinema.

Entre os seus livros mais importantes incluem-se ‘Moderato Cantabile’, ‘O Vice-cônsul’, ‘A Dor’ou ‘Dez Horas e Meia numa Noite de Verão’. Realizou, entre outros filmes, ‘India Song’, com Delphine Seyrig, e ‘O Camião’, com Gérard Depardieu.

Não gostou da adaptação de ‘O Amante’ ao cinema e, para por os pontos nos ii, escreveu outro livro: ‘O Amante do Norte da China’.

Do livro ‘O Amante’, trad. da edição francesa de Éditions de Minuit
"Ele diz que está só, atrozmente só com esse amor que tem por ela. Ela diz-lhe que também está só. Não diz com quê. Ele diz você seguiu-me até aqui como teria seguido outro qualquer. Ela responde que não pode saber, que ainda nunca tinha seguido ninguém para um quarto. Ela diz-lhe que não quer que ele fale com ela, que o que ela quer é que ele faça como costuma fazer com as mulheres que leva para o seu apartamento de solteiro. Ela suplica-lhe que faça dessa maneira.

Ele tirou-lhe o vestido, atira-o para o chão, arrancou-lhe o pequeno slip de algodão branco e leva-a assim nua até à cama. E então vira-se para o outro lado da cama e chora. E ela, lenta, paciente, puxa-o para si e começa a despi-lo. Fá-lo de olhos fechados. Lentamente. Ele faz um gesto de querer ajudá-la. Ela pede-lhe para não se mexer. Deixa-me. Ela diz que quer ser ela a fazer. Faz. Despe-o. Quando ela lhe pede, ele muda a posição do corpo na cama, mas com dificuldade, com cuidado, como que para não a acordar.

A pele é de uma suavidade sumptuosa. O corpo. O corpo é magro, sem força, sem músculos, ele podia ter estado doente, estar em convalescença, ele é imberbe, sem outra virilidade a não ser o sexo, ele está muito fraco, parece estar à mercê de um insulto, em sofrimento. Ela não lhe olha para a cara. Ela não olha para ele. Ela toca-
-lhe. Ela toca a suavidade do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a novidade desconhecida. Ele geme, chora. Ele está num amor abominável.

E, a chorar, fá-lo. Ao princípio há a dor. E, depois de esta dor ser por sua vez conquistada, é mudada, arrancada lentamente, levada até ao prazer, abraçada a ela.

(…) Volto para junto de Hélène Lagonelle. Ela está deitada num banco e chora porque acha que vou deixar o pensionato. Sento-me no banco. Estou extenuada pela beleza do corpo de Hélène Lagonelle deitado junto a mim. Esse corpo é sublime, livre por baixo do vestido, ao alcance da mão. Os seios, nunca vi nada igual. Nunca toquei neles. Ela, Hélène Lagonelle, é impudica, ela não se dá conta, passeia nua pelos dormitórios. O que há de mais belo entre todas as coisas criadas por Deus é esse corpo de Hélène Lagonelle, incomparável, esse equilíbrio entre a estatura e o modo como o corpo sustenta os seios, à frente dele, como coisas separadas. Não existe nada mais extraordinário do que esse arredondamento visível dos seios salientes, essa exterioridade ao alcance das mãos.

(…) Eu queria comer os seios de Hélène Lagonelle como ele come os meus no quarto do bairro chinês aonde vou todas as noites aprofundar o conhecimento de Deus. Ser devorada com esses seios de finíssima farinha que são os dela.

Estou extenuada de desejo por Hélène Lagonelle.

Estou extenuada de desejo.

Quero levar-te comigo, Hélène Lagonelle, lá onde todas as noites, de olhos fechados, faço que me deem o gozo que faz gritar. Queria dar Hélène Lagonelle a esse homem (...) para que ele o faça nela na minha presença, (...) que ela se dê onde eu me dou."

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‘O Amante’ no cinema
Jane March tinha 19 anos quando protagonizou ‘O Amante’, realizado por Jean-Jacques Annaud. O filme foi nomeado para um Óscar e ganhou um César.

Filme de culto
Duras escreveu o argumento de ‘Hiroshima Meu Amor’, um manifesto pacifista realizado por Alain Resnais em 1959, com Emmanuelle Riva.

Mitterrand e a Resistência
Resistente contra os alemães, Duras caiu numa emboscada em 1944. Escapou ajudada por um tal ‘Morland’ – nome de código do futuro presidente francês.

‘Burguesa decadente’
Foi expulsa do Partido Comunista, acusada de confraternizar com trotskistas e de frequentar boîtes. No cartão de militante tinha o apelido do primeiro marido.

O drama do alcoolismo
A dependência do álcool levou a escritora a ser internada em diferentes ocasiões para tratamentos de desintoxicação. Abordou o tema no livro ‘A Vida Material’.

Receitas polémicas
Em 1999 o filho de Duras, Jean Mascolo, publicou um livro de receitas da mãe. O último companheiro da escritora queixou-se ao tribunal e a obra foi proibida.
Marguerite Duras Marguerite Donnadieu Francesa Prémio Goncourt
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