Maria Filomena Mónica: “Espero que se indignem”

‘Os Pobres’ é uma espécie de raio-x à pobreza em Portugal. A que passou – a dos analfabetos e descalços – e a atual.
Por Fernanda Cachão|11.12.16
Maria Filomena Mónica: “Espero que se indignem”
Maria Filomena Mónica levou um ano a escrever o livro Foto Mariline Alves

No início do prefácio, confessa-se a quem se atrever neste livro que se intitula simplesmente ‘Os Pobres’ ( Esfera dos Livros). Não é um livro de ficção. Escreveu Maria Filomena Mónica: "Nunca passei fome. Os meus filhos nunca passaram fome. Os meus netos nunca passaram fome. Mas, em Portugal, ainda há pessoas que sofrem por não terem o que comer. São elas que me levaram a escrever este livro."

Conta também que a vontade de escrever este livro parte do reencontro com o seu diário de adolescente, em que escreveu "quando vou aos pobres, tenho vergonha de ser rica". Ainda sente isso?
A palavra não é vergonha, é indignação. Está muito perto. Aquele mundo que existia a 10 minutos de minha casa era desconhecido e eu pensava como é possível ser tão privilegiada e viver em paz com este apartheid, não branco-preto mas rico-pobre. Ficou-me para toda a vida.

Porque é que hoje em dia não se chama pobre ao pobre e prefere-se palavras como ‘excluído’?
A sociedade está cheia do politicamente correto. A palavra pobre é uma palavra antiga, a palavra excluído não acrescenta nada. Os pobres têm privação material, privação de voz e privação política, portanto acho que o termo pobre tem propriedade.

O que é um pobre hoje em dia?
É muito difícil definir, porque a sociedade mudou muito. Há bens de consumo que há 50 anos nem a classe média teria. Hoje em dia, pode-se ser pobre e ter televisão e frigorífico.

Já não estamos em 1932, quando no ‘DN’ se escrevia – como cita no livro – "os cemitérios em Portugal devoram crianças com uma avidez pantagruélica".
A mortalidade quando eu nasci (1943) era altíssima – uma em cada cinco crianças morria. Mas a forma como as estatísticas europeias definem agora o pobre está errada – é pobre quem não tem automóvel ou férias pagas. As estatísticas dizem que há dois milhões de pobres em Portugal. Eu não acredito nisso. Neste número, estão pessoas que não vivem bem mas não são pobres. Ao alargarmos demasiado o leque, prejudicamos os mais pobres.

E os mais pobres quem são? Os sem-abrigo?
Não. São as pessoas que não sabem se têm comida para a semana, que não sabem se têm dinheiro para o filho ir à escola, que não têm dinheiro para roupa, para os bens mais essenciais. Que não são capazes de planear o dia de amanhã. E, evidentemente, os sem-abrigo.

A pobreza deixou de ser uma herança?
Melhorámos. Em 1943, a mobilidade social em Portugal era nenhuma: quem nascia pobre, ficava pobre; filho de sapateiro ia para sapateiro; o filho do médico ia para médico. Em 1940, 80 por cento da população estava no campo e não ia à escola. Isso mudou. Estamos infinitamente melhor. Tendemos a esquecer porque queremos melhor. Mas com a crise depois de 2008, houve gente que viu a sua vida piorar. Gostava de viver numa sociedade mais justa.

E é a escola o fator fundamental para uma sociedade mais justa?
Sim, porque contribui para a mobilidade social.

São ainda as mulheres os pobres entre os pobres, como escreve no livro?
Ainda são as discriminadas. Todos os avanços que tivemos custaram-nos o dobro, mas, apesar de tudo, não quero quotas. Não quero ser escolhida por ter maminhas.

"O subsídio sem o trabalho compensador desmoraliza indivíduos, torna-os indolentes e comodistas, completamente inúteis à vida em sociedade. O subsídio a troco do trabalho, pelo contrário, não desabitua os homens da sua função dentro da vida e enriquece o país com o acabamento e a iniciação de obras públicas que são de utilidade para todos." Não acha que há quem se reveja nesta frase de António Oliveira Salazar, em entrevista de 1933 a António Ferro, que cita no livro?
Hoje em dia já não há ninguém, mesmo na direita mais extrema, que considere que um pobre seja pobre inteiramente por culpa dele, mas digamos que o pêndulo vai para esse lado, ou seja, que o Rendimento Social de Inserção [RSI] só fomenta a pobreza, a indolência e a falta de vontade de trabalhar. Haverá casos de pessoas que aldrabam o Estado porque em Portugal é uma tradição nobre. Os ricos aldrabam, a classe média aldraba, porque não os pobres? Na Europa, em geral, muitas das pessoas que perderam o emprego perderam-no por causa da globalização, por causa de fábricas que foram para a Índia ou para a China, e estão desempregadas porque houve uma evolução económica mundial, que é inevitável e que vai ser útil, e é já útil, aos indianos e chineses que já não têm a fome atroz de há 40 anos. Na Europa, ficamos desmunidos. Imagine se a Autoeuropa fecha?

Existe uma espécie de raiva crescente entre os que têm e os que nada têm?
Está a aumentar na Europa em geral e em Portugal em particular. Temos um ex-primeiro-ministro sob julgamento, um banqueiro acusado de corrupção. A CGD em águas turbulentas. Aos cidadãos, dá a ideia de que há uma elite política ou económica que, faça o que fizer, nunca é punida e vive sempre bem, e que quem não tem poder, voz ou dinheiro ficará sempre prejudicado. Esse sentimento tem aumentado nos últimos dez anos.

De quem são os pobres?
O ideal seria serem da comunidade, e não excluo o apoio da Igreja Católica, mas não gosto, porque apela à resignação, à ideia de que ‘pobre sempre os terei entre vós’, ou à chantagem como a que assisti em criança: ‘eu dou-te um prato de sopa mas vais à missa ao domingo’. Por isso, prefiro o Estado Social como existe em países governados por sociais-democracias. Em Portugal, o caso mais exemplar é o Serviço Nacional de Saúde [SNS], de que muita gente diz mal mas não é verdade. Tive uma mãe durante 11 anos com Alzheimer e fui muitas vezes a hospitais públicos, e agora eu própria tenho também o apoio do SNS.

Discute-se o problema da sustentabilidade do Estado...
Não sei se as gerações dos 30 ou 40 anos vão ter reformas por inteiro, mas certamente vão ter de se reformar mais tarde. A sustentabilidade implica ainda que os que ganham mais paguem mais.

No espectro político, a direita e a esquerda ainda disputam os pobres?
Não falam em pobres, falam em excluídos. A esquerda nem fala dos pobres, fala da pobreza, que é um conceito abstrato, mas tradicionalmente demonstra compaixão, ao passo que a direita, muitas vezes, diz aquilo que estávamos a falar, que eles são preguiçosos e, por isso, são pobres. Ou então olha para os pobres como uma espécie de matéria-prima para chegar ao Céu mais depressa. Os pobres são necessários aos ricos, pois permitem o exercício da caridade.

Hoje em dia, a mobilidade social no sentido ascendente – a de os filhos serem melhores do que os pais – já não é exatamente assim.
É verdade. Tenho filhos e netos e as perspetivas destes são mais negras do que as dos meus filhos, que estão na casa dos cinquenta.

Estamos a criar pobres instruídos e com horizontes?
Prefiro pobres instruídos do que pobres analfabetos. Em última análise, se eles lutarem e trabalharem, acabam por conseguir. Se calhar, estou a ser otimista. O sentimento moderno é hedonista, o prazer acima de tudo, a gratificação imediata. Certo é que nunca irão ganhar muito. Um professor universitário que comece agora já não vai ganhar o mesmo que eu, e eu não ganho muito. Um catedrático em Portugal ganha menos que um canalizador alemão. O ser instruído e culto permite maleabilidade no emprego. Hoje em dia, a vida não é um comboio com um carril. O dinheiro não é tudo na vida.

O seu livro acaba por ser uma espécie de biografia sua e do seu trabalho. Foi propositadamente ou isto que estou a dizer está errado?
É tudo certo. Ao fim de um ano, tinha feito um livro. Eu tenho de me manter ocupada.

Sempre foi assim ou é especialmente agora, com a doença?
Eu sou bastante obsessiva, mas agora particularmente. Não concebo acordar de manhã e não ter nada para fazer, porque então fico na cama e deprimo-me. De maneira que é bom ter uma coisa que me dê prazer. A definição que deu é muito justa. Mesmo que não tivessem estado sempre nos meus binóculos, os pobres sempre me acompanharam de alguma maneira. Foi também importante encontrar as frases de Salazar. Já não me lembrava delas. Já não me lembrava o quanto ele era tacanho e inteligente, mas com uma prosa fradesca. Visitar outra vez a casa espiritual de Salazar foi um murro no estômago. Mas este não foi um livro muito planeado, como faria noutras circunstâncias.

A pobreza estava mais presente na sua vida quando era jovem do que agora?
A partir do momento em fui ao bairro de lata [experiência que descreve no diário dos seus 16 anos], deram-me uns óculos. Quando ia para a quinta da avó, via. Se ia ao Chiado com a minha mãe, que gostava muito de ir lá às compras, eles estavam lá. A igreja dos Mártires tinha três portas e quatro pobres. Nessa fase, aos 16 anos, a solução foi roubar coisas lá de casa. Começaram a desaparecer cobertores, farinha, até que a minha mãe fechou a despensa, embora primeiramente tenha, se calhar, atribuído os roubos às criadas. Mas parece-me que há menos pobreza exposta do que em 1940.

E, no entanto, estaremos mais egoístas?
Como somos um país com pouco emprego, com pouco mais para oferecer do que um bom clima, não somos atrativo para refugiados ou imigrantes. Não sei se teríamos solidariedade para com os refugiados. Não sei se somos mais ou menos racistas do que ingleses, alemães ou franceses.

Conta que deu esmola, a primeira em muito tempo, em 2014. O que a levou a não ter dado até então?
Saio muito pouco e agora saio nada. Os que encontrava, poucos, cheiravam a mentira. Por outro lado, a ideia de esmola estava enraizada na minha mente como a caridadezinha; e eu pago impostos. Em 2014, foi uma espécie de empatia irracional. Achei que um euro não daria para muito mas foi o que ele me pediu. Segundo os meus amigos de direita, deve ter ido comprar um Mercedes-Benz e uns Nike para os filhos. Depois pensei: ‘Caramba, não se come uma sopa por um euro’.

Escrever este livro, nesta fase da sua vida, ajudou-a?
Muito. Este ou outro. Esqueço-me. Quando cheguei à conclusão de ‘A Minha Europa’ (2015), soube que estava doente. Este foi o livro que escrevi do princípio ao fim sabendo que tinha cancro.

O que espera que o leitor retire de um livro que se intitula ‘Os Pobres’?
Que se indigne. Que se indigne com os casos de banqueiros que não são solucionados. A sociedade é pobre e há uma casta privilegiada que, faça o que fizer, fica impune. A ideia da impunidade dos ricos horroriza-me.

UM BILHETE DE IDENTIDADE  

Nasceu em Lisboa em 1943. Licenciada em Filosofia pela Universidade de Lisboa (1969) e doutorada em Sociologia pela Universidade de Oxford (1978), é investigadora emérita do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Fez séries para TV e assinou artigos na imprensa. É cronista no CM. Entre outros livros, publicou ‘Educação e Sociedade no Portugal de Salazar’, ‘Eça de Queirós’, ‘Dicionário Biográfico Parlamentar, 1834/1910’ (org.), ‘Bilhete de Identidade’, ‘Os Dabney: Uma Família Americana nos Açores’ (org.), ‘A Sala de Aula’ e ‘A Minha Europa’, este em 2015.

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