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Mariana Mortágua: Cobradora dos que usam fraque

Filha de pais que se conheceram na ocupação da herdade torre bela, a deputada bloquista a que chamam ministra das Finanças gosta de andar de motorizada, de comer favas e de boas doses de cafeína. vinda ao mundo dois minutos antes da irmã joana, chegou ao parlamento num processo que ainda hoje lhe vale a acusação de ser uma criação de francisco louçã. já ela prefere criar (e anunciar) impostos.
Miriam Assor 2 de Outubro de 2016 às 11:56

Desafina bem na guitarra.   Faz kickboxing. Sofre com prazos.   Cumpre- -os, muito embora o apetite   de   fazer   mil   coisas   em simultâneo possa trair datas-limite.   Metódica,   focada e com fraca capacidade de resistência ao erro. É segura   se   o   assunto   pertence ao seu domínio. Possui   forte   capacidade   de trabalho e de investigação. Sabe   alegar   e   justificar cada posição e é capaz, literalmente, de fazer malabarismo com três bolas. É elegante e diz frases pesadas, opina um ex-ministro socialista. Afinal, ela disse: "A primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro".

Em relação à criação de um novo imposto que incida   sobre   o   património imobiliário acima de determinado valor – 500 mil ou um milhão de euros –, um   deputado   socialista não   economiza   escárnio: "Parece   que   teve   treino para irritar determinadas pessoas".   A   exclamação travestida   em   pergunta vem a seguir: "Onde é que já se viu?!?". O visto habita noutra sentença pronunciada pela deputada mais nova de Portugal: "Só a esquerda radical pode salvar o capitalismo". No Facebook, o infindável céptico da   aliança   de   esquerda, Sérgio Sousa Pinto, diria que   Mariana   Rodrigues Mortágua é um paradigma dos   "jovens   burgueses criptocomunistas e habilidosos   pantomineiros   da velha escola".

Gente da sua vila alentejana   desconhece   o   fio   da ciência política: "A Mariana é uma pessoa simples, comunicativa,   não   deixa nada por dizer. Poucos políticos são como ela; estão vivos e não são peças museológicas!". O sonho antigo estava no stand e não no museu. Uma motorizada. E não é a velocidade que a faz correr, é a liberdade que o veículo proporciona.

Deita-se tarde e o seu dia começa   ainda   o   dia   não veio. Numa madrugada de novembro de 2015 estava ao lado de Filomena Cautela no momento em que a 1ª divisão da PSP mandou parar   a   viatura   onde   seguiam. A condutora, a actriz, que fora mandada parar, às 05h27 de uma quinta-feira, na avenida Ribeira   das   Naus,   em   Lisboa, numa operação stop, acusava uma taxa-crime: valores de álcool no sangue superiores ao permitido.

O champanhe da deputada é a cafeína em chávena. Gosta de números e de matemática. E de favas. Prefere cerveja a vinho. Não gosta do escuro, de sentir-se   presa  a   rotinas   e   de chegar atrasada. Menos simpatiza   com   as   multas da EMEL, que deixaram de estar   acumuladas   desde que optou pela mota. Alérgica a burocracias e um ás a esculpir relatórios.

Filha de Camilo

O   apelido   associa-se   de imediato   ao   fundador   da LUAR,   organização anti- -salazarista que protagonizou dois assaltos: o do paquete ‘Santa Maria’ e o da dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz. Ainda não acabámos. Falta dizer que o pai da deputada bloquista, que ultimamente tem sido afamada pela oposição de ministra das Finanças, desviou um avião da TAP e dirigiu a ocupação da Herdade Torre Bela, no Ribatejo, entre Alcoentre   e   Rio   Maior. Nessa que foi a maior herdade murada de Portugal, Camilo Mortágua apaixonou-se pela actual directora do Núcleo de Respostas Sociais do Centro Distrital de Beja, Maria Inês Fernandes   Maldonado Rodrigues, uma jovem do MRPP, 20 anos mais nova, que em 1986 lhe haveria de dar duas filhas da mesma gestação. Nascida de cesariana a 24 de julho, Mariana soube do mundo dois minutos   antes   de   Joana. Parecidas, muito. Até na voz. Houve tempo em que só o piercing espetado na sobrancelha   de   Mariana as diferenciava.

A professora Marília Pelica deu aulas às gémeas do 3º e 4º ano. Além da óbvia traquinice, destaca-lhe "o sentido   de   responsabilidade e de justiça". Participativa   e   interventiva   nas aulas e inserida numa turma unida , que certa vez fez um levantamento sobre o que Alvito necessitava. E o que fazia falta não era animar a malta, mas a resolução da passadeira da Escola Primária. Dirigiram-se ao presidente da Câmara Municipal da altura, José António Lopes Guerreiro, e   a   iniciativa   deu   fruto: "Não me lembro se a Mariana veio sozinha, se veio acompanhada, mas o assunto ficou resolvido".

Maria-rapaz na infância, crescida no campo, no ar descontraído, teve a sorte de ter uma boîte em casa e um pai que disse às filhas para   pensarem   pela   própria   moleira.   À   mesa   do jantar, televisão acesa "jamais, jamais", como diria Mário Lino. Todos juntos à hora da refeição da noite. Aos 15 anos estava inscrita na ONG ‘Acção para a Justiça   e   Paz’,   presidida   por Teresa   Cunha:   "Conheci Mariana   Mortágua,   em Alvito. Foi-se integrando nas actividades da nossa associação   [feminista   e pacifista], assumindo variadas responsabilidades no planeamento e execução de actividades de intervenção comunitária e política".   A   dirigente   da associação com processo de encerramento definitivo   distribui-lhe   elogios: "Inteligente,   perspicaz, perseverante,   tem   bom humor e, sobretudo, é leal e solidária".

O   secundário   no   Alvito não existia, e vai para o liceu   Santiago   Maior,   em Beja. Notas boas, aliás excelentes. Agarra-se aos livros. Na faculdade, a viver em   Lisboa,   com   a   irmã, num   apartamento   no Bairro do Rego, é a melhor média em Economia, no ISCTE,   a   entrar   nesse 2004, será a melhor do seu curso e a do mestrado.

Começa o doutoramento na School of Oriental and African   Studies,   sob   a orientação do economista inglês   Jan   Toporowski, para a sua tese sobre Desequilíbrios   Macroeconómicos da União Europeia.

Chamada por Louçã

Fica só um ano em Londres. O Bloco de Esquerda, o partido a que aderira em 2009, chama-a para deputada quatro anos mais tarde. O lugar deixado vago por Ana Drago, que batera com   a   porta,   parirá   um processo pouco discreto. Um   grupo de   militantes franziu a testa à escolha "nada transparente". Num abaixo-assinado, 100 nomes sublinham que para Mariana Mortágua ocupar a cadeira no Parlamento, nove candidatos na lista de Lisboa tiveram de desistir.

A crítica alargava-se ao "critério tecnocrata" que o Bloco de Esquerda aplaudira - Mariana Mortágua é considerada   como   o   elemento que "melhor serviria os interesses do partido na Assembleia da República, em virtude dos seus conhecimentos   na   área   da Economia". Na Comissão de Inquérito do BES, assegura quem não quer aparecer: "Deu a ideia de que é uma   inquisidora.   Estava ali com cara de má. Só faltou bater".

O ex-bloquista Gil Garcia garante, via telefone: "Mariana   Mortágua   é   uma criação de Francisco Louçã. Quando obrigaram deputados a desistirem para que ela passasse para cima, está tudo dito; se não estivesse   ao   lado   de   Louçã, isso não tinha acontecido."

Louçã, o próprio, diz de sua justiça: "Creio que é uma das mais destacadas deputadas, pela sua imensa capacidade de trabalho e de diálogo, e pela fidelidade aos compromissos pelos quais foi eleita". Descrê "que   tenha   havido   outro economista com menos de 30 anos que tenha participado numa obra colectiva com   um   Prémio   Nobel", junta, referindo-se ao livro também assinado por Joseph Stiglitz.

Louçã disse recentemente que Mortágua é a figura mais popular da esquerda. Dá vontade de rir a Gil Garcia,   que   em   2011   saiu   do Bloco depois de um mar de críticas à direcção: "Passa à frente de Mário Soares e de outros!". Prossegue: "O brilharete na comissão de inquérito   é   tudo   feito   em conjunto   com   Louçã   –   o Rebelo de Sousa da esquerda". Que fique escrito: "Reconheço   qualidades   na Mariana   Mortágua".   Que fique claro: "Entre ela e Vítor Gaspar para ministro das   Finanças,   prefiro   a Mariana".   Aos   olhos   do professor   de   Filosofia   a euforia   é   injustificável: "Até Passos Coelho pensou   no   imposto   [sobre   o património   imobiliário elevado]. Não propõe nada Mariana Mortágua, a Che Guevara de saias".

Curiosamente, a deputada só é vista de calças. E de ténis, já agora.

X-Files Mariana Mortágua
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