Matador português fez 100 anos

Augusto Gomes Júnior nasceu durante a I república e foi, no tempo da ditadura, o primeiro a tourear lá fora.
20.12.13
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Matador português fez 100 anos
Augusto Gomes Júnior e o neto, Manuel Foto Joreg Paula

A bengala ajuda a recriar o movimento mais famoso do toureio, e a Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa, como pano de fundo facilita a reconstituição de um dos gestos que Augusto Gomes Júnior - o segundo matador de touros português - mais fez no passado. Quando se concentra, o movimento sai fluido e não é difícil imaginar que o centenário (faz cem anos nesta quinta-feira) está em plena arena.

A ditadura castrava o País há dez anos e a II Guerra Mundial opunha as grandes potências, quando Augusto, nado e criado no Montijo, se apresentava como amador na praça de Sobral de Monte Agraço. Na temporada seguinte, em julho de 1937, recebia no Campo Pequeno a alternativa de bandarilheiro. À distância do tempo que passou, Augusto sorri a desfiar memórias. Mesmo "que a cabeça já não esteja grande coisa" e o ouvido esquerdo fraqueje. "Estava eu empregado numa casa na rua da Palma que vendia trigo quando o padre Tobias, que era nosso fornecedor, convidou a rapaziada para um almoço em Samora Correia." Depois do almoço na Herdade da Baracha "lançaram-se umas vacas para a miudagem". E ele, afoito, "dezassete ou dezoito anos" a pulsar nas veias, cresceu em frente a elas como se tal aparato fosse habitual. Recolheu elogios à ‘plateia', que logo o convenceu de que tinha jeito.

Em pouco tempo conseguiu o ingresso na Escola de Toureio Luciano Moreira, onde recebeu ensinamentos de Júlio Procópio, Niza da Silva e Mário Santos. Este último "era um antigo toureiro que tinha tanto de habilidade como tinha de medo", ri-se Augusto. "Eu? Eu não tinha medo. De tal forma que eu não estava contente de tourear aqui, queria tourear em Espanha, a pátria do toureio, queria ser matador". Ambicionava mais do que ser bandarilheiro e, incentivado pelos matadores espanhóis e mexicanos que vinham tourear a Portugal, decide arriscar. "Queria tanto, que escrevi para várias revistas taurinas espanholas a pedir para me receberem, até que um senhor [um antigo toureiro espanhol] escreveu-me. Acabei por vir a ser seu apoderado."

A ESTREIA EM PAMPLONA 

A estreia no país vizinho foi em Pamplona, a 21 de junho de 1942 - em ‘traje de luzes' apresenta-se como novilheiro, em corrida picada. "Quando acabei a corrida tinha logo seis corridas contratadas para aquela região. Mas, logo por azar, na primeira [na praça espanhola de Tafalla] levei uma cornada tal [na perna] que as outras corridas foram todas ao ar", lembra o ‘matador' Augusto. Ainda hoje usa "uns elásticos" para camuflar a dor.

A grave colhida - "fui de maca para Lisboa para ser operado" - não o demoveu de continuar a carreira, ainda que tenha demorado quatro anos a regressar a Espanha. Volta ao país vizinho a 23 de junho de 1946, na Monumental de Madrid, tornando-se no primeiro português a pisar a arena e a matar na praça mais importante do Mundo. Em 1947 recebia a alternativa em Constantina (Sevilha). Enquanto isso, a esposa, "sofria... coitada", à distância dos feitos do marido, e o pai, aficionado, aplaudia. Augusto nunca deixou o emprego nos escritórios da loja de trigo. "Naquela altura pagavam muito poucochinho nisto dos touros, não dava para viver. Veja lá que fui uma vez tourear às Caldas e só me deram 600 escudos. A pessoa que me pagou melhor foi um empresário da Figueira da Foz, que gostava tanto de me ver tourear que me deu vinte contos." Augusto Gomes Júnior também pisou arenas no Peru, Venezuela, Colômbia, Angola e Macau, sítios que a memória ainda lembra, apesar dos anos que passaram. Mas não era fácil conciliar os touros com o trabalho certo na casa comercial. "Tinha de ser nas férias. Uma vez fui tourear à Figueira mas só havia comboio para Lisboa à hora da corrida, às 18h00. Quando cheguei ao trabalho já estava suspenso." Valeu-lhe "um delegado do governo, que como era aficionado" o protegia do diretor. Houve um ano em que, apesar dos constrangimentos de agenda, toureou 56 corridas, conta orgulhoso. Também fez uma perninha no cinema.

Em 1943 participou no filme ‘Um Homem do Ribatejo', que marcou a estreia de Eunice Muñoz no grande ecrã - uma obra centrada na vida ribatejana. Enquanto isso, ia deixando de herança o gosto pelas lides tauromáquicas. "O meu filho foi muito bom forcado, mas felizmente que tenho um neto toureiro, já toureou em Espanha e o maroto é muito bom, não é por ser meu neto." Manuel tem 22 anos e as publicações da especialidade não deixam o avô mentir. Destacam o "bom ano taurino" de Dias Gomes em Espanha, a sua capacidade toureira e a sua passagem de êxito por França, onde recordam o rabo que este cortou a um exemplar de Cebada Gago. "O meu avô queria ter descendentes no toureio a pé, mas o meu pai [o antigo cabo dos Forcados Amadores de Lisboa, José Luís Gomes] foi forcado, os meus irmãos também e só mais tarde vim eu para poder seguir-lhe as pisadas. Já me foi ver várias vezes a tourear, quando é perto de casa, e é muito crítico com as minhas atuações", revela Manuel Dias Gomes, sem esconder o orgulho de carregar o apelido de Augusto, o avô toureiro.

É ele que ampara os passos do avô nesta saída de casa para a entrevista - apesar da independência do ‘matador', que aos 100 anos mora sozinho desde a viuvez. Augusto já não pega touros há muitos anos. "Já não me lembro há quantos, mas acho que me reformei primeiro do meu trabalho no escritório do que da arena", brinca. Retirou-se em 1972 na praça de Almeirim e exerceu durante algumas temporadas o cargo de delegado da Direção-Geral dos Espetáculos. "Mas tenho saudades. É uma coisa que ou se sente ou não se sente, e eu sentia. É um prazer difícil de explicar, uma sensação muito própria estar na arena com o touro à frente."

Curiosamente, o centenário Augusto não manteve muito tempo a atividade de matador: com surpresa dos aficionados, renuncia em 1951 à alternativa e opta definitivamente pela carreira de bandarilheiro (toureiro a pé que faz parte da quadrilha de um matador ou cavaleiro). Ainda assim, "foi uma vida cheia. Nunca pensei chegar aos 100 anos, com tanta doença que tive e tanta cornada que levei... parece impossível", diz, enquanto puxa do cartão do cidadão para comprovar o feito. Mas não é. Estes já estão garantidos. D

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3 Comentários
  • De Francisco (Alentejano)22.12.13
    MESTRE????? DO QUÊ? TRISTEZA , SEM MAIS COMENTÁRIOS.
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  • De Carlos Branquinho20.12.13
    Este é um homem que honrou Portugal temos orgulho do seu legado e desejamos que passe um dia de anos cheio de alegria.Por tudo o que fez OBRIGADO MESTRE jamais será esquecido. Permita que o abrace com todo o respeito
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  • De Antonio Sousa 20.12.13
    Parabens Mestre. Um grande Abraço para toda familia Gomes. Feliz Natal Antonio Sousa
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