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'Matámos 50 homens por vingança'

A minha unidade, a Companhia de Auto-macas 197, constituída por um sargento-ajudante de Artilharia com funções de comandante, 15 sargentos-enfermeiros, 45 cabos-enfermeiros e 45 soldados-condutores, começou por ficar instalada em barracões perto do Hospital Militar de Luanda – sem condições mínimas de habitabilidade.
1 de Junho de 2008 às 00:00
'Matámos 50 homens por vingança'
'Matámos 50 homens por vingança' FOTO: d.r.

Estivemos aqui cerca de três semanas. A companhia foi então dividida em 15 secções – cada uma tinha um sargento, três cabos e três soldados condutores. Cada secção foi enviada para vários batalhões operacionais. À minha calhou o Batalhão de Infantaria 109, que se destinava a Ambrizete, no Norte de Angola. A viagem demorou vários dias. Entre Ambriz e Ambrizete, encontrámos um rio de grande caudal. Não havia pontes. Atravessámos o rio em jangadas.

Chegados a Ambrizete, a minha secção foi mandada com a Companhia 110 para a zona de Bessa Monteiro – que era então uma das mais perigosas do Norte de Angola. Estivemos aqui durante seis meses. Sofríamos ataques todas as noites. Nós tínhamos bons abrigos, estávamos muito atentos – e não tivemos baixas. Nas patrulhas o cenário era bem diferente: houve mortos e feridos.

Um certo dia, seriam umas 11 da manhã, vinham ter connosco alguns militares. Já se encontravam a cerca de 50 metros dos nossos abrigos quando foram traiçoeiramente atacados. Nós respondemos ao fogo e os guerrilheiros fugiram para a mata. Mas os nossos camaradas morreram. Recolhemos os cinco corpos. Foi um dia negro. Nunca mais ninguém passou por ali desarmado.

Recordo, ainda, uma patrulha que partiu de Ambrizete com mantimentos. Era comandada por um sargento imprevidente. Ele conhecia os caminhos e os perigos. Ainda assim, colocou o carro mais pesado e com soldados inexperientes no último lugar da coluna. Numa subida íngreme, a viatura mais pesada e mais lenta perdeu o contacto com as da frente – e nessa altura foi atacada com rajadas de metralhadora. O cabo que ia ao lado do condutor morreu às primeiras rajadas. O condutor puxou o corpo para junto de si – não o deixando cair na estrada – e conseguiu sair dali: embalou com a viatura e salvou os outros militares da morte mais do que certa. Isto deu alarido. Estávamos todos contra o sargento – que fez uma grande asneira. O comandante do batalhão, depois de informado pelo nosso capitão Paula, mandou formar as tropas. Cumprimentou-nos com o máximo respeito e mandou avançar o sargento. Em voz alta, para que todos ouvissem, disse-lhe que o mandava embora do batalhão – pois o que lhe apetecia fazer era arrancar-lhe as divisas.

O Batalhão 109 regresou a Ambrizete e foi mandado para o Sul – onde praticamente ainda não havia guerra. Mas a minha secção, em vez de seguir com o batalhão, foi ainda mais para norte – para São Salvador do Congo. Nesta zona, onde os combates eram mais violentos, andava o Batalhão de Cavalaria 345, comandado pelo então tenente-coronel Spínola.

Em São Salvador, tive a infelicidade de conhecer um major que, vim a saber mais tarde, era filho de um antigo Presidente da República, o marechal Craveiro Lopes. O major Craveiro Lopes fazia ameaças a torto e a direito. Em contrapartida, conheci o major Cruz e Azevedo. Um homem bom. Convivia com militares de qualquer patente sem preconceitos.

Certo dia, o major Craveiro Lopes entrou de rompante na tenda do posto de socorros, onde me encontrava de serviço. Queria que eu lhe desse uma injecção com determinado medicamento – e o tratamento ficava entre nós, mais ninguém precisava de saber. Reagi com o devido respeito e disse-lhe que não podia fazer o que me estava a pedir: eu, segundo as ordens que tinha, teria de levar o caso ao médico. O major saiu disparado pela porta fora. Conhecendo-o eu como o conhecia, fiquei apreensivo – e apressei-me a contar o episódio ao médico, o dr. João Cura Soares, um grande homem, que me disse que ficasse descansado porque tinha cumprido exemplarmente o meu dever.

Passada uma semana, chegou-me uma participação com origem, obviamente, do major Craveiro Lopes. Dei conhecimento ao médico e a participação foi anulada. Mas, duas ou três semanas depois, outra participação – que também foi anulada. A terceira participação teve exactamente o mesmo destino. O major Craveiro Lopes fez-me passar um mau bocado. Eu já andava revoltado. Ele sempre conseguiu que me aplicassem um castigo – que foi transferirem-me, já com 22 meses de serviço, para o Batalhão 156, em Santo António do Zaire.

Vivi em patrulha um episódio que muito me transtornou. Rebentou uma mina e os quatro militares que seguiam no jipe (dois soldados, um cabo e um alferes) morreram. Fizemos o funeral com toda a dignidade. Foi em Julho de 1963. Tinha 24 meses de comissão e só pensava no regresso a casa.

O rebentamento da mina deixou-nos a todos furiosos e revoltados. Fomos à sanzala próxima do rebentamento e levámos a população para o nosso quartel. Mulheres e crianças foram levadas para local seguro. Os homens ficaram no meio da parada sentados no chão – e foram espancados: cada militar malhava conforme o instinto e estado de nervos. Eu não participei. Fui para a enfermaria, tratar de alguns negros. Ainda tratei de três ou quatro. Mas entendi que não devia tratar de mais nenhum. Dirigi-me ao gabinete do segundo-comandante. Tive que desviar o ordenança que estava à porta e que tinha ordens para não deixar entrar ninguém. Disse: 'Meu comandante, o destino deles está traçado. O que faço eu na enfermaria?' Ele respondeu-me: 'Tens alguma razão mas eu não te dou. Faz meia-volta, volver, em frente, marche!' Antes de sair, disse em voz alta: 'Não trato nem mais um!' E não tratei. No outro dia, de manhã, havia quatro ou cinco ainda vivos mas muito maltratados. O oficial de dia mandou abrir a porta de armas e alguém gritou: 'Os que quiserem sair podem sair!' Saíram. Uns a rastejar, os outros aos trambolhões. Acabaram por ser abatidos a tiro, a uns 30 metros de distância. Não escapou nenhum homem da sanzala. Eram uns 50. Foram enterrados numa vala comum dentro do quartel.

'TENHO SAUDADES DOS MEUS VELHOS COMPANHEIROS'

Quando regressou de Angola, António Gregório esteve um ano em Lisboa à procura de emprego. A sorte bateu-lhe à porta: entrou para os CTT. Foi trabalhar para a estação do Terreiro do Paço – onde conheceu a mulher com quem veio a casar-se, em 1972. O casal ainda viveu um ano no Barreiro, até que pediu transferência para o distrito de Aveiro, de onde a mulher é natural. António nunca mais viu os camaradas

da tropa. “Tenho saudades dos meus velhos companheiros. Gostava de um dia encontrar-me com eles”, diz. A família assentou em Adães, nos arredores de Oliveira de Azeméis, onde ainda hoje vive. António Gregório está reformado dos Correios desde 1993. O casal tem dois filhos e dois netos.

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