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“Matei para vingar morte de camarada”

Coragem. Sempre gostei da guerra. Fiz todas as missões da minha companhia e fui noutras como voluntário. Vi muitos homens morrerem.
13 de Setembro de 2009 às 00:00
Depois de uma missão de protecção, à espera de receberem comida
Depois de uma missão de protecção, à espera de receberem comida FOTO: Direitos reservados

Quando era novo e estava na recruta, em Tancos, o que mais queria era ir para a guerra, gostava daquilo. Fiz os cursos de combate e de pára-quedista, que me deu o lema de vida: 'Que nunca por vencidos se conheçam'. Em 1967 parti para Angola. A minha primeira operação foi em Santa Eulália, oito dias após chegarmos. Fomos para o mato, com pára-quedistas experientes e andámos aos tiros com guerrilheiros. Na altura, era aquilo que queria, mas jamais poderei esquecer os amigos que perdi, como o tenente Assoreira, o sargento Caria Ramos, o furriel Barata, o Barbeiro, o Magalhães, o Casaca e tantos outros. Não esqueço também o dia em que perdemos o sargento Mansos, que morreu com problemas cardíacos ao saltar de pára-quedas.

Nunca faltei a uma operação da minha companhia e participei noutras como voluntário. Pertencia ao Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21, era da 1ª companhia, da 1ª secção e da 1ª equipa de quatro pára-quedistas. O meu pelotão era o melhor, mas também o mais insubordinado e o que dava mais problemas ao comandante, Catroga Inês. Um dos momentos que me marcou foi quando, numa operação, tivemos um acidente com veículos Unimog e eu fiquei com uma mão partida, que ainda hoje não está recuperada.

Nesse momento apareceu um rapaz, o Saúl, a dar-me a notícia de que o Charro tinha sido morto. Era um camarada da minha terra, que tinha andado comigo na escola. Desde logo decidi que ia para a missão seguinte vingar a morte do meu amigo. Como estava ferido, fui transportado para Úcua, para a enfermaria onde um médico me disse que eu não podia sair dali. Pedi-lhe um pouco de álcool e depois passei no bar e comprei uma garrafa de ponche. Eu e alguns colegas tomávamos esse remédio. No fim, não havia dores, nem obstáculos que nos resistissem!

Participei na operação desde início e fui sempre à frente. Ainda caí numa armadilha de apanhar animais selvagens, mas os meus companheiros resgataram-me. Ao meio da tarde, estava com o Almeirim a fazer segurança, enquanto os restantes pára-quedistas comiam – fazíamos planos para o futuro, para quando deixássemos a tropa – e ele dizia: 'Vamos ser duplos de cinema, que é capaz de dar dinheiro!', quando se aproximou um grupo de inimigos. Apontei a arma à cara de um deles e comecei a disparar. Aproximei-me uns 50 metros e vi que estava feito em dois. Estava vingada a morte do meu amigo Charro!

Passei momentos de perigo, mas nunca tive medo. Numa missão no Leste, onde havia um quartel de comando do MPLA, levei com uma rajada de balas e só tive tempo de me atirar para um buraco cheio de água. Aguentámo-nos assim uma hora e quando nos enchemos de coragem e fomos para o assalto, já não havia ninguém. Recebi ordens para queimar tudo o que tivesse restado. Qual não foi o meu espanto quando vi uma pessoa, um doente ou uma mulher, dentro de uma tenda, que devia funcionar como hospital. O comandante ainda pôs um cartão junto à barraca a dizer que não fora de propósito.

No regresso, fomos esperar uma coluna militar, mas estávamos tão cansados que adormecemos. Não fomos apanhados e mortos por sorte. Assim que fomos recolhidos e começámos a andar, deu-se um tiroteio infernal, perdemos muitos homens. Dos pára-quedistas combatentes, o meu camarada Mirandela foi sempre o mais arrojado. Certa vez, eu, ele e o Sérgio Vieira fomos a um acampamento abandonado onde havia galinhas. O Mirandela, com a sua audácia, trouxe um saco cheio delas. Depois, foi convidar os oficiais, dizendo que o almoço do dia seguinte seria frango à cafreal. Foi-se deitar e pôs as galinhas à cabeceira, num caixote, com a arma, carregador e granadas em cima.

Ora, eu e outros camaradas começámos a arranjar maneira de tirar dali as aves. Encontrámos um alicate e arrancámos os pregos do caixote. Eram umas 04h00, estávamos na fogueira a assar as galinhas, quando apareceu o tenente Vilas Boas e me perguntou o que fazíamos. Respondi que, como não tínhamos sono, estávamos a assar uns passaritos. 'Mas isso são frangos. Não me digam que são os do Mirandela?!', perguntou. É claro que negámos sempre. Quando o Mirandela acordou e se viu sem as galinhas, pegou nas armas e nas granadas e queria-nos matar a todos!

CONDUZIR E MANTER A FORMA

Carlos Neto só regressou a Portugal em 1975 e depressa rumou a Espanha, onde viveu 17 anos. Chegou a ter um bar junto à Universidade de Madrid e conheceu personalidades como Salvador Dalí. Hoje vive em Covões, Cantanhede, de onde é natural. É motorista de autocarros há 15 anos e nas suas viagens encontrou um camarada de guerra, em Carrazeda de Ansiães. Praticou atletismo, boxe e foi forcado. Ainda hoje procura manter-se em forma, indo ao ginásio com frequência. É casado em segundas núpcias e tem três filhos – dois rapazes e uma rapariga. 

PERFIL

Nome: Carlos Neto

Comissão: Angola (1967-1969)

Força: Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21

Actualidade: Hoje, aos 63 anos, em Covões, Cantanhede

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