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Materna doçura

Viveram a maternidade de forma única, mas com um ponto em comum: deram corda ao relógio biológico depois dos 40 anos.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Materna doçura
Materna doçura FOTO: Sérgio Lemos
Sofia não deu grande luta, mas fez questão de vir ao mundo no 1.º de Maio, manifesto vivo da união dos pais. Qualquer semelhança com a prol da realeza vizinha, atém-se pelo nome que vai morar no B.I. da dona do babete rosa que se avista no berço da cama 12. “Devia nascer entre 8 e 10 de Maio, mas antecipou-se. Queria nascer num dia especial. Quase nascia no dia da princesa!”, diz a mãe, Antónia Gaiato, estreante nestas andanças, aos 41 anos. Sofia ficou-se pelo início do mês e pelo preciosismo das 23 horas e 21 minutos, a hora incerta que viu nascer uma certeza absoluta na maternidade do Hospital Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira.
“Casámos há dois anos. O ano passado começámos a planear a gravidez. A idade preocupava. Antes de ficar grávida diziam que seria uma gravidez de risco, mas depois correu tudo bem, dentro da normalidade. Tivemos em conta a diferença de idades e comecei logo a ser acompanhada. Foi um momento único, que não tem explicação. É um desafio, uma experiência nova”, explica uma das mais recentes mamãs, fazendo jus à tendência crescente de esticar a corda na idade de procriar. “Foi programada, pelos métodos tradicionais, tudo normal”, gaba o pai, José Santos, de 39 anos, que não arredou pé das imediações desde as quatro da tarde. Tarde e noite molhadas, nascimento abençoado, já dizem os entendidos em bodas e afins. “Chovia bastante, ouvi água toda a noite. Era só eu aqui, tive as atenções todas. Dizem que a chuva é bom sinal!”, recorda Antónia, crente no augúrio.
Sofia nasceu com 3215 gramas, de parto natural, depois de nove meses sem sobressaltos. “Durante a gravidez até desapareceram as dores de cabeça. Agora aparecem outras dores de cabeça”, brinca o pai. Na hora ‘h’, a mãe dispensou atenuantes para as dores da praxe. “Pesei os prós e os contras da epidural e a anestesista ia embora às oito”. O pior já passou, ficou o melhor. “É uma bebé calminha. É só dormir. Já andamos a imaginar os pormenores todos. A nossa família está toda longe, em Portalegre e Torres Vedras. Ainda não puderam vir cá ver”. A falha será colmatada hoje, no primeiro dia da mãe vivido em pleno e já em casa, onde se começam a fazer contas aos próximos tempos com indispensável optimismo, para amenizar a actual situação de desemprego da progenitora. “Desde que haja saúde, vai-se conseguindo”, garantem. E quanto ao dia da mãe, é afinal mais um no calendário. “A partir deste momento, todos os dias são especiais”, concordam os pais.
A INFANTA
É assunto na ordem do dia. Mesmo sem título de Infanta, Letícia é desde há cinco meses a jóia da coroa da família Caetano. “Ela é a minha princesa. Não são só os outros que têm uma, ainda por cima feita à pressa! Esta não, foi mesmo planeada.”
Lurdes estreou-se como mãe aos 19 anos. Voltou a sê-lo, pela terceira vez, aos 45 anos – “Faço 46 este mês, mas não é para se dizer!” Com muito gosto e bom humor à mistura para desfazer confusões tão fatais como a língua afiada dos populares. “Agora que todos se resolveram ir embora, veio um bebé. Todos me perguntavam se era do mesmo marido!”
O casarão de Samora Correia do casal Caetano fazia eco. Faltou-lhe guarnição quando os filhos mais velhos, Marco, de 26, e Maria Inês, de 21, levantaram voo e saíram do ninho. Lurdes e o marido José mapearam-no com as fraldas, roupinhas e brinquedos que há muito não viam espalhados pelas assoalhadas. O regresso aos primeiros tempos ajudou a seguir em frente quando a marcha foi travada.
“Antes, tive uma gravidez sem querer, estava a descansar da pílula. Pelos exames, o bebé tinha trissomia 21, problemas cardíacos... foi interrompida e apanhei um grande desgosto. Tinha 43 anos, mas estava mentalizada. Depois fui a uma consulta de genética e o meu único contra era mesmo a idade. Diziam que era difícil repetir-se e que se tinha muito gosto, devia avançar. Eu andava com traumas e só sonhava com bebés, bem diziam que a melhor forma de superar era fazer outro!”
Assim foi. Mesmo com o cepticismo e os olhares de esguelha de quem lhe estranhou a barriga a transbordar para lá dos limites da cintura das calças. “A médica nunca fez fé que a minha gravidez fosse para a frente. Na segunda consulta, levei a ecografia e perguntou-me se tínhamos mesmo gravidez. O único risco era a minha idade. A partir daí fiz todos os exames normais. Só no fim das 38 semanas é que comecei a stressar, tiveram que provocar o parto. Ouvia tantas coisas... quando somos novos não ligamos tanto aos perigos”
Lurdes cerrou os ouvidos mas apurou os restantes sentidos para a nova aventura. Agora, à velocidade de cruzeiro. “Foi a melhor coisa que fiz na vida. Deixei de trabalhar e acho que já estava velha para mandá-la para um infantário. Parece-me que nem dei pelo crescimento dos outros, com esta tenho mais tempo”.
Não fosse ele preciso para condensar as novidades e refrescar o treino. “Para os outros também não estava preparada. Quando tive os meus outros filhos também foi um choque. Nunca estamos preparados para a mudança. É tudo diferente. A qualidade das fraldas é outra. As descartáveis foram a melhor invenção! Temos toalhetes em vez de compressas. A comida também é diferente, tínhamos que andar com tudo para fazer. As mulheres agora nem sabem o que é criar um filho!”
Mais-valias de quem vive na primeira pessoa a mistura das águas. “Digo que sou uma mãe avó. Mãe para educar e avó para estragar. Aliás, todos me perguntam se ela é minha neta. Não me faz diferença. Não gosto é que digam que veio fora do tempo. Acho que as coisas são como são, se é para vir, que venha. Agora os irmãos já nem pensam em ter filhos por terem aqui a pequenina”, diz Lurdes. “Isto agora é uma novidade. Lembro-me pouco dos outros, passava a vida a trabalhar. Quero acompanhá-la desde o início”, acrescenta o marido, de 46 anos.
Entre o deve e o haver, o prodigioso tempo que sobra e o fantasma do pouco tempo que resta, a juventude do espírito faz de fiel da balança. “Nem me lembro da idade que tenho, sinto-me jovem, mais tolerante. Tenho que pensar na diferença de idades, mas sei que se houvesse algum problema connosco, os irmãos tomariam conta dela. Também, temos esta idade, mas há tanta coisa que acontece a raparigas novas, filhos que ficam órfãos... Ela é que pode vir a ter problemas na escola, por ver os pais novos dos outros e os dela serem cotas!”
Letícia é a estrela neste dia da mãe. Os restantes filhos estão fora e anteciparam as prendas. Restam os telefonemas que aproximam o clã. Às 20h20 do último 14 de Novembro, de parto natural, sem recurso a epidural, a vida mudou, e de que tamanho: 3,420 quilos para 50 centímetros voltaram a encher a casa de alegria.
A SURPRESA
Julgava que as contas estavam fechadas, mas a visita inesperada da cegonha veio embicar com o número de pessoas lá em casa. “Na altura só não me enfiei num buraco porque não calhou. A médica achava que eu tinha quistos nos ovários, eu achei que estava na menopausa. Tinha 43 anos e fiquei completamente perdida. Quando disse à minha mãe que tinha uma notícia para lhe dar, achou que eu tinha cancro, depois desatou a rir. Os miúdos acharam logo muita piada”, confessa Maria João Ramos, hoje com 49 anos, há seis anos grávida de dúvidas, e ainda mais de Filipa, o terceiro rebento, que veio baralhar as rotinas e reformular a escala de primazias.
“Quando cheguei ao pé do médico, ele pensou que eu queria abortar, mas eu disse-lhe que só queria fazer tudo a que tinha direito, a não ser que tivesse um problema mesmo muito grave. Era uma gravidez de risco, mas não de alto risco, porque já tinha dois filhos. Foi a melhor gravidez, não tive nada. Trabalhei e fiz natação até à véspera. No fim do tempo, só deixei de fazer mil metros para fazer ‘apenas’ 900!”, explica a mãe.
22 anos depois da primeira vez, mal seria se tudo estivesse na mesma. Mas a memória de ciclista, que não esquece como andar de bicicleta, discorre para a maternidade.
“Não se desaprende, aprende-se muito. As coisas são completamente diferentes. Estamos mais à vontade e a grande vantagem é que temos mais disponibilidade. Agora, o trabalho que vá dar uma curva! Estando no topo da carreira e com a vida profissional estabilizada, as prioridades alteram-se. Se ela tem varicela ou outra coisa qualquer, fico em casa. No tempo dos outros, a prioridade sempre foi o trabalho. O meu filho ia para a creche de manhã e vinha à noite, não me lembro de quase nada.”
Abriram alas para o ‘Noddy’ e para o ‘Bob o Construtor’, para as idas ao circo e demais programas infantis, que entraram no léxico doméstico. “Temos que fazer coisas aos 40 que se fazem aos 20, é mais cansativo, mas rejuvenesce-se bastante”. A adesão com gosto põe para trás das costas o fosso geracional. Para viver um dia de cada vez. “A diferença de idades aflige-me. Não sei se daqui a vinte anos estarei cá, mas é algo em que penso agora e daqui a pouco já não ligo”, desdramatiza.
O tempo não perdoa. Um pouco à semelhança de Maria João, que ainda tem dificuldade em perdoar a frequente troca de parentesco. “Fico danada quando dizem que é minha neta! Faço uma cara... As pessoas chamam-me avó e depois ficam muito encavacadas. Quando ia à ginecologista era só gaiatas pequenas... e a velha!”, recorda.
Os miúdos mais velhos - miúdos que cada vez menos o são - não param de crescer. Este ano, chegam aos 22 e 19 anos e há muito que as horas fora de casa se adiantam à duração da estadia entre quatro paredes. Fica a companhia de quem ainda não tem idade para pôr o pé em ramo verde e nunca deixa que o marasmo se instale. “Ao fim-de-semana os filhos mais velhos saem. Ficamos três, em vez de dois a embirrarem um com o outro!”
VANTAGENS E DESVANTAGENS DE UMA AVENTURA A SEGUIR DE PERTO
Idade de avós ou mais tempo e condições para os ver crescer? Diferença de gerações: prós ou contras? Entre as visões possíveis, duas coisas são certas: a preocupação extra com a subsistência a médio ou longo prazo dos bebés e o grau dos riscos associados à gravidez tardia, como a Síndrome de Down, e possíveis condicionantes como a diabetes e hipertensão. A partir dos 35 anos o Serviço Nacional de Saúde permite a realização do diagnóstico pré-natal. Triplo teste, rastreio bioquímico, rastreio biofísico ou amniocentese são algumas das despistagens possíveis.
EM QUEDA LIVRE
Em 2005, nasceram 109 266 bebés, o número mais baixo desde 95. Segundo o INE, foram 3108 os nados-vivos de mães entre os 40 e os 49.
BEBÉS MAIS TARDE
27,8 anos é a idade média das mulheres portuguesas ao nascimento do primeiro filho. A gravidez ocorre cada vez mais tarde.
IDADES MENOS FÉRTEIS
18/25% é a probabilidade de engravidar entre os 32 e os 39 anos. A partir dos 40, a percentagem desce mais. Aos 50 é quase nula.
PROCRIAÇÃO ASSISTIDA AJUDA A REALIZAR O SONHO ADIADO
Aposta na carreira profissional, aumento dos custo de vida, desejo de fruição da liberdade são algumas das razões para adiar a maternidade. Mas se a tendência tem vindo a ganhar adeptas, também há quem gostasse de receber a visita da cegonha mais cedo. Para muitas, as técnicas de Procriação Medicamente Assistida são o recurso que permite realizar o sonho quando os índices de fertilidade são fracos ou nulos ou começam a entrar em declínio, geralmente a partir dos 40. Em Portugal, a lei de PMA, instituída em Maio de 2006, não impõe limites à idade da mulher. Todos os anos, nascem 700 a 900 bebés fruto das novas técnicas.
MÃE DE GÉMEOS AOS 50
Depois de sucessivas tentativas para engravidar ao longo de 20 anos, a empresária Maria Manuel Cyrne realizou o sonho de ser mãe. Os gémeos António Maria e José Pedro nasceram em 2001.
QUINTO BEBÉ AOS 41
Em Novembro, a socialite Bibá Pitta foi mãe de Dinis, uma gravidez que arriscou apesar da idade e deter já uma filha portadora de trissomia 21.
QUARTO FILHO AOS 45 ANOS
A mulher do primeiro-ministro britânico Tony Blair, Cherie Blair, foi mãe pela quarta vez aos 45 anos, em Maio de 2000. O pequeno Leo nasceu depois de quase 12 horas de trabalho de parto. Na sua primeira declaração pública após o nascimento do filho, confessou: “Passou tanto tempo desde o nosso terceiro filho que tinha esquecido como são difíceis as últimas horas do trabalho de parto.”
'PAPÁS-AVÓS' INGLESES
Em Julho, a inglesa Patricia Rashbrook, de 62 anos, tornou-se na mãe mais velha da Grã-Bretanha ao dar à luz um rapaz, depois de se ter submetido a tratamentos de procriação assistida.
RECORDE ACTUAL É ESPANHOL
No passado dia 30 de Dezembro, Carmen, de 67 anos, tornou-se a mãe mais velha do Mundo ao dar à luz por cesariana um casal de gémeos. A polémica gravidez resultou de uma fertilização in vitro nos EUA.
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