Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

MEDO E CORAGEM

Que os familiares e os amigos dos detidos ponham as suas mãos no lume por eles, não me surpreende. Surpreende alguém?
7 de Fevereiro de 2003 às 18:58
Pergunto-me muitas vezes o que leva determinadas pessoas a avançarem numa linha de fogo, sabendo de antemão que vão estar sobre a mira do inimigo. Mais do que isso, que se vão colocar na boca deste, expondo-se a toda a sua fúria. Questiono que tipo de força moverá esta gente, que ventos a empurrará para a frente, destemidamente ou de forma tão serena que os faz parecer fantasmas a pagar as últimas contas à vida.

Falo de pessoas que sabem que vão desencadear a tempestade e mesmo assim se põem à estrada, como se fosse urgente cumprir essa promessa silenciosa a que só eles próprios reconhecem o devido valor. Parece-me que é a isso que se chama coragem. Será? Venho de uma terra onde os homens pegam toiros.

E conheço famílias de seis, sete irmãos, em que só um deles escapou a essa paixão, vício, o que quer que seja, que é enfrentar o perigo, olhos nos olhos, cara a cara.

Ainda hoje penso no que é que leva estes homens a porem-se à frente de um ‘comboio’ de 600 quilos que os arremessa no ar com a facilidade com que um sopro de vento arrasta uma folha.

Houve um tempo em que pensei que os valentes não tinham medo. Puro engano. Os mais destemidos são os que têm mais medo. E arranjam essa força imensa que lhes vem das entranhas para o enfrentar. Temos pois que a coragem é o domínio do medo, a capacidade de o arrumar no seu devido lugar.

Resta-me pensar que as famílias desses homens que tão bem enfrentam o medo são igualmente de uma coragem admirável. Porque ficam à espera que o susto passe, sempre que eles vestem aquela jaqueta cheia de brilho e saltam para a praça como quem vai dominar o mundo. Esperam apenas, sem nada poder fazer. E também esse domínio imenso sobre os nervos e a angústia é, à sua maneira, uma grande prova de coragem.

Dizem-me que já não há heróis. Não sei se acredito. Quando se segue em frente nessa linha perigosa que separa o previsível e confortável do desconhecido está-se sempre a ser um bocadinho herói. Quando se persegue um objectivo contra todos os conselhos e cautelas; quando se desafia a ordem instituída e os poderes mais instalados, está-se a passar para o lado de lá, aquele em que o grau de dificuldade aumenta e o mínimo deslize pode ser fatal. Não sei se é aí que habitam os heróis, mas sei que é aí que descansam os
corajosos.

Em toda esta história sórdida da Casa Pia, há muita gente com coragem. Uns porque decidiram enfrentar o medo; outros porque têm sede de justiça; alguns ainda porque querem desmascarar o sistema e ver até onde é que a podridão chegou.

Há também os que têm coragem porque amam. E o amor é talvez – a par do ódio – a arma mais poderosa de arremesso.

Que os familiares e os amigos dos detidos ponham as suas mãos no lume por eles, não me surpreende. Surpreende alguém? Não acredito que o amor seja cego, surdo e mudo. Mas as pessoas que ocupam o nosso coração têm sempre o benefício da dúvida e, mesmo quando já não existem dúvidas que as sustentem, podem ter o nosso perdão. É para isso que existem os afectos, para nos fazerem acreditar que podemos sempre ser perdoados.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)