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Meio século de viagens inesquecíveis

Foi há 50 anos que o paquete ‘Funchal’ entrou ao serviço para ligar o continente às ilhas. Regressa aos mares em 2012
7 de Agosto de 2011 às 00:00
O 'Funchal' está a ser remodelado em Lisboa
O 'Funchal' está a ser remodelado em Lisboa FOTO: Sérgio Lemos

George Potamianos percorre sem hesitações os corredores do ‘Funchal’. O cenário é o de um estaleiro – por toda a parte se erguem paredes, que hão-de delimitar os novos compartimentos, onde vão dormir os passageiros da próxima viagem . Potamianos explica tudo ao pormenor e aponta cada recanto do navio ancorado no Cais da Matinha, em Lisboa: "Aqui vamos ter as suites, aqui as cabines da tripulação, ali o novo ginásio".

"Foi ele que planeou toda esta remodelação. Conhece o navio como se fosse a sua casa", explica o comandante António Morais, que está ao leme dos cinco navios da companhia do armador grego desde 2001. São todos paquetes dos anos 50 e 60 que navegam com bandeira portuguesa, mas só o ‘Funchal’ nunca mudou de nome nem de nacionalidade.

O ‘Funchal’ ainda é do tempo em que os navios de cruzeiro se chamavam paquetes. Saiu para o mar em Novembro de 1961 e, aos 50 anos, vive mais uma metamorfose. "São as regras internacionais que nos obrigam a mudar tudo", explica George Potamianos, que está a investir 16 milhões de euros para que o navio volte a sulcar as águas de todos os continentes.

A partir de Março do próximo ano, os passageiros vão encontrar cabines renovadas, novos espaços de lazer e um navio mais seguro, por força dos revestimentos anti-fogo que obrigaram a retirar os bonitos painéis de madeira que adornavam várias das salas. Mas mantém-se aquilo que faz com que 65% dos passageiros sejam pessoas que já viajaram no ‘Funchal’: o charme de um paquete que nos faz retroceder a um tempo em que as viagens de cruzeiro eram um luxo exótico.

"Isto não tem nada que ver com esses navios de agora, em que viajam 3 mil pessoas num hotel flutuante. As pessoas nem se conhecem. Aqui levamos cerca de 450 passageiros por viagem e há uma relação de proximidade entre a tripulação e os viajantes. O espírito é outro", diz o comandante António Morais, que anda no mar desde o final dos anos 70.

DO VAPOR AO DIESEL

Quando foi lançado às águas, nos estaleiros da Dinamarca, o ‘Funchal’ teve como destino a Madeira. Ao serviço da Empresa Insulana de Navegação, fazia as ligações entre o Continente e os arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias. "Fazia viagens regulares ao longo de todo o ano, mas no Verão era usado para cruzeiros, sobretudo no Mediterrâneo", conta Luís Miguel Correia, jornalista e autor de vários livros sobre a história naval portuguesa. No seu blogue paquetefunchal.blogspot.com podem admirar-se várias fotos do navio ao longo dos anos, e está prometido um livro "para meados de 2012", conta à Domingo.

A primeira grande transformação do ‘Funchal’ aconteceu em 1972. A embarcação foi definitivamente convertida em navio de cruzeiros e recebeu até uma piscina exterior. Os originais motores de combustão a vapor foram substituídos por dois blocos a gasóleo que ainda hoje se mantêm. O Presidente da República, Américo Tomás usou-o na visita oficial que fez ao Brasil nesse ano.

"A bordo seguiram as ossadas do Rei D. Pedro IV de Portugal e de D. Pedro I do Brasil, acompanhadas, em permanência, por uma escolta militar", lembra o comandante António Leitão, que conta sempre esta história aos passageiros que se sentam à sua mesa durante as viagens.

O 25 de Abril traz novas mudanças. A Empresa Insulana funde-se com a Companhia Colonial, dando origem à Companhia de Transportes Marítimos (CTM). O ‘Funchal’ volta a fazer a linha entre o Continente e as Ilhas, mas regressa, pouco depois, às viagens turísticas de longo curso.

Em 1976, George Potamianos fretou o navio para um cruzeiro na Escandinávia. Haveria de repetir a viagem várias vezes ao longo dos anos: "É um navio com um desenho fabuloso. O casco desenhado pelo Almirante Rogério d’Oliveira faz-nos poupar muito combustível", conta George Potamianos, que em 1985 comprou o navio por 3,25 milhões de contos (16,25 milhões de euros), depois de o Estado ter liquidado a CTM e colocado toda a frota a leilão.

Desde então que o Funchal – que nunca mudou de bandeira, nem de nome – está ao serviço da Classic International Cruises (CIC), a empresa de navegação do armador grego, que se instalou em Portugal há quase 30 anos. Os cinco paquetes da companhia desafiam os modernos cruzeiros, que impressionam pela escala gigantesca.

"As regras que nos são impostas estão sempre a mudar. Somos obrigados a fazer remodelações nos navios, mas existe uma concorrência desleal e até ilegal. Os valores que pagam às tripulações são muito baixos e obrigam-nos a baixar as nossos padrões também", explica Potamianos, que até gostaria de ter mais portugueses nas tripulações dos seus navios: "São excelentes profissionais e criam uma relação de empatia com os passageiros que é muito especial".

A CIC tem sede em Lisboa, mas os navios cruzam os mares de todos os oceanos. "Mudamos os percursos todos os anos. Quem viaja connosco tem experiências diferentes a cada partida", explica George.

ORGULHO NACIONAL

Aos 50 anos, o ‘Funchal’ é o último sobrevivente de uma frota de paquetes portugueses que levaram os símbolos de Portugal a todos os oceanos. "É uma espécie de museu vivo. Como tantas vezes acontece, nós somos os piores a cuidar do nosso património. É uma sorte que tenha aparecido quem o quisesse manter a navegar com a bandeira portuguesa", diz Luís Miguel Correia.

Na sala das máquinas, Inácio Fernandes ocupa-se dos motores e de todos os mecanismos que dão vida ao navio. O chefe de máquinas está há 20 anos no ‘Funchal’ e espera ansioso pela próxima viagem - Os 50 anos hão-de ser festejados na cidade que dá nome ao navio, na Páscoa de 2012.

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