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Memórias da escola que sempre foi 'fora da caixa'

O IADE, a primeira escola de design do País, faz 50 anos. Meio século a ser “alternativa” e a criar caminhos para as artes.
Vanessa Fidalgo 31 de Março de 2019 às 14:30
FOTO: Direitos Reservados

A primeira escola de design em Portugal nasceu ainda antes da revolução de Abril, mas foi desde o início pautada por uma relação de igual para igual entre mestres e alunos. No ano em que comemora meio século de existência, professores e antigos estudantes recordam o ambiente peculiar e a influência no seu percurso de vida.

A história do IADE (Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing - Universidade Europeia) confunde-se com a do seu fundador, o filósofo, escritor e professor António Quadros. De uma viagem ao estrangeiro trouxe o sonho de criar em Portugal algo nos mesmos moldes que ali encontrara. A sede é inaugurada em 1969, na rua das Flores, em Lisboa, e logo depois surge "o curso de Design de Interiores e Equipamento Geral, lecionado segundo o modelo anglo-saxónico e de escolas vanguardistas como a Scuola Politécnica di Design, em Milão", recorda o atual diretor, Carlos Rosa, mostrando que a ligação ao meio artístico internacional foi apanágio da escola desde a sua fundação. Ainda hoje, o IADE é a faculdade que mais alunos exporta para o estrangeiro.

Em 1970, muda-se para o Palácio Quintela, na rua do Alecrim. Aí abrem os primeiros centros de estudos e cursos abertos ao público em geral. Rapidamente, passa a ser ponto de encontro de vários protagonistas do panorama das artes plásticas em Portugal. Professores como Lima de Freitas ou Manuel Lapa participam ao lado de Rafael Salinas Calado, Eduardo Nery, Keil do Amaral, Artur Rosa, Jorge Viana, Jorge Listopad ou Artur Anselmo nas tertúlias e sessões de poesia, arte e filosofia organizadas no IADE, a que acorrem também figuras do mundo das letras como Ary dos Santos, Natália Correia, David Mourão-Ferreira ou Agostinho da Silva.

Alguns deles tornaram-se professores, outros continuaram "amigos da casa". "A uns e a outros se deve a matriz e o espírito que desde então acompanha o IADE, uma escola à frente do seu tempo, fora da caixa", recorda José Maria Ribeirinho, 66 anos, que chegou ao IADE para ser "arquiteto" mas acabou designer gráfico de referência na imprensa nacional.

É contemporâneo de Martim Lapa, 65 anos, hoje professor de Design Visual no IADE, que entrou ali pela primeira vez como estudante. Foi atraído pela arquitetura de interiores e pelo design, áreas pouco familiares para a maioria dos portugueses na altura. "Hoje o design está presente em todo o lado e toda a gente acha que sabe o que é. Naquela altura não era assim. Ninguém sabia o que era o design e este era o único sítio do País onde se podia realmente estar em contacto com essas áreas. Dentro da escola tinha-se acesso a tudo e mais alguma coisa, que um grupo de mestres muito especial e conhecedor trazia de fora e partilhava", conta. "Quando abriu como escola de decoradores atraiu muita gente de charme, mas depois tiveram de dar a volta à cabeça para a mudança, para o design", explica Martim Lapa. "Os ‘founding fathers’ perceberam logo no início dos anos 70 que esse era o caminho", diz o professor de Design Visual e filho do pintor Manuel Lapa, um dos fundadores do IADE.

Alternativa

Nos primórdios dos anos 70 do século passado, o IADE era uma escola de ensino médio onde, além do design e da decoração, se ensinava desenho, pintura, fotografia e cerâmica. Os alunos procuravam-na pela alternativa que representava em relação ao ensino tradicional.

"Eu, como todos os miúdos daquela idade, estava na iminência de ir para a tropa e para a guerra do Ultramar. Além disso, o ensino no liceu era uma seca, um deserto", recorda. A opção que fazia sentido era o IADE, onde se podia entrar com o antigo 5º ano. "Os alunos eram diferentes. Usávamos o cabelo comprido, ouvíamos Pink Floyd e os músicos que passaram pelo festival de Woodstock. Éramos um bocado excêntricos", confessa. Mas, acima de tudo, "era uma escola construída nuns moldes completamente diferentes".

"Os professores andavam no meio dos alunos e não estavam numa posição de cátedra, simplesmente a passar conhecimento. Ensinar os alunos a ‘fazer coisas’ não é a mesma coisa que ‘dar-lhes conhecimento sobre as coisas’. Isso tem depois influência na vida dos alunos. Curiosamente, foi aquilo que Bolonha veio instituir, mas que sempre foi uma realidade no IADE", reflete Martim Lapa.

Antes do 25 de Abril, a escola sentiu o peso da ditadura. "Nós estávamos no Chiado e as autoridades mantinham-se muito atentas àquilo que se passava no IADE." Um tempo que durou pouco, porque o regime não tardaria a mudar. "A revolução foi uma animação e uma confusão. A autoridade na escola foi contestada, claro, mesmo que fosse muito democrática. Fazia parte do clima da época", recorda.

Um clima também vivido pela estilista Isilda Pelicano. "De repente, toda a gente falava e tinha opinião. Mas falávamos todos ao mesmo tempo, até que tive a ousadia de dizer que devíamos organizar-nos e pedir a palavra. Foi assim que, sem que isso me agradasse especialmente, me vi a mediar um debate. Lutávamos contra a direção da escola, mesmo que ela já fosse democrática antes disso. Era o exercício de expressar opiniões, de esgrimir razões", recorda.

A estilista inscreveu-se por duas vezes no IADE: em 1970, quando a par com o curso de Filologia Germânica na faculdade quis estudar design; e depois em 1990, quando voltou "com 40 anos, casada e mãe de filhos e muita vontade de fazer uma pausa na carreira do ensino". Ali reencontrou um sonho antigo: a moda e também "uma elite intelectual muito elevada e conhecedora".

O IADE foi determinante no percurso de Isilda Pelicano: foi lá que desenhou a sua primeira coleção de fardas, a sua imagem de marca. "Era uma coleção de fardas azuis e brancas, que ainda hoje são usadas pelas voluntárias do Instituto Português de Oncologia", revela. Das suas coleções destacam-se o fardamento para a UEFA (Euro 2004 e Euro 2008) ou para a EXPO’98.

A mesma influência decisiva sentiu Nini Andrade Silva, que chegou ao IADE com 19 anos, vinda do Funchal, para estudar Design de Interiores. Sentiu-se "deslumbrada". No fim do curso seguiu para os Estados Unidos para continuar a estudar, arranjou um sócio inglês, passou pela Dinamarca e pela África do Sul, "tudo graças a essa lógica de ensino global, internacional, que ali tive. Foi essencial para saltar fronteiras".

Nos 80 surgiram os cursos de Marketing, Publicidade e Moda, nesse tempo igualmente pioneiros. O estilista Filipe Faísca desenhou nos estiradores do IADE as suas primeiras coleções. "Tinha vindo da escola António Arroio, onde aprendi a base têxtil, mas no IADE entrei dentro da moda, aprendi a metodologia, a estruturar uma coleção e, sobretudo, aprendi que a maneira como se veste é o reflexo da forma como se vive, daquilo que se é. Tive como professora a minha maior influência: Maria Helena Redondo, que trazia de Londres Vivianne Westwood e Yamamoto. Era um ambiente superexcitante e criativo."

E continua a ser. "Nós gostamos de dizer que o ‘futuro não inventado é agora’, o que nos posiciona em áreas de fronteira, de cruzamento de conteúdos, projetando e adivinhando o que aí vem, antecipando o futuro da criatividade. Estas possibilidades são reforçadas com as novas áreas do IADE, as tecnologias criativas e a comunicação audiovisual e multimédia. Da mesma forma como escrevemos os últimos 50 anos do design em Portugal, queremos nos próximos 50 escrever o futuro da criatividade na Europa", garante o atual diretor do IADE, Carlos Rosa.

José Maria Ribeirinho Portugal Instituto de Artes Visuais Design e Marketing Bolonha
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