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Correio da Manhã

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MEMÓRIAS DO INFERNO

Em Portugal existem cerca de 140 mil ex-combatentes que sofrem de stress pós-traumático. Alguns, 30 anos depois da Guerra Colonial, continuam a acordar a meio da noite, com pesadelos. E também há quem se enfie debaixo da cama quando ouve uma porta a bater com força ou um carro a arrancar com brusquidão. Os especialistas dizem que a 'nova guerra do Golfo' fá-los reviver esse inferno
30 de Março de 2003 às 15:00
"A ARMA ERA NOSSA COMPANHEIRA"
NOME: Alberto Augusto Ribeiro
IDADE: 54 anos
COMBATE: Guiné, 1971
"Quando tinha uma G-3 na mão, sentia-me protegido. Era logo outro homem. A arma era a nossa companheira. Felizmente, nunca tive de matar ninguém. Mas se fosse obrigado a disparar para matar não teria problema em fazê-lo. Era eu ou o inimigo. Recordo-me de um soldado branco que deu um tabefe num miúdo negro. À noite, com os copos, os ânimos exaltaram-se. A primeira coisa que fiz foi pegar na G-3. Queria resolver a situação com as próprias mãos. Não se chegou a passar nada de grave. A tensão era tal que uma vez estive três noites sem dormir. Parecia que o coração me saltava da boca. Ao terceiro dia, tomei uma dose de Valiums e então dormi sem parar. Viemos marcados para Portugal. Tenho muitos colegas que são alcoólicos por que ingeríamos muitas bebidas, por causa do calor e do stresse."
"O INIMIGO INVISÍVEL"
NOME: Hélder Vicente
IDADE: 56 anos
COMBATE: Cidade de Luena, Angola, 1969/1971; Comandante da Companhia de Intervenção Leste
"Sou contra a guerra por princípio. Quando ouço pessoas dizerem que não concordam com a guerra do Iraque porque são contra a guerra, sinto que há desonestidade intelectual. É utópico pensar que deixou de haver agressores. Qualquer guerra deixa marcas. É uma experiência vivida muito intensamente. As emoções são extremamente fortes num conflito. Mas temos os nossos mecanismos de defesa. Os portugueses têm tendência para realçar os aspectos positivos. Nos encontros anuais com ex-camaradas de armas, não falamos de outra coisa senão das experiências debaixo de fogo. O mais interessante é que nos referimos sempre às situações mais anedóticas. Há como que um acordo tácito: as pessoas não falam dos aspectos negativos, que arquivaram na memória. Não me considero uma vítima do pós-stresse traumático, e acho essa matéria de uma extrema delicadeza.”
"A MINHA VIDA É UMA GUERRA"
NOME: João Gonçalves
IDADE: 53 anos
COMBATE: Moçambique, 1971/1972
"No dia em que fui ferido tivemos que ser evacuados de helicóptero debaixo de fogo. Desde então, sou um mutilado de guerra e sofro os horrores que isso provoca. Fui atingido pelo rebentamento de uma mina durante uma emboscada, o que me afectou toda a parte esquerda do corpo. Passei por um complexo processo de recuperação e reintegração. Quando era atormentado pelas memórias dos violentos combates, refugiava-me na bebida. Não sei quantas pessoas matei na guerra. O objectivo não era matar, mas defender a pátria. O conflito continua a fazer parte do meu dia-a-dia. A minha vida é a guerra. As sequelas físicas graves e a dor constante relembram-me os horrores do combate. É um bicho que só morre quando eu for um dia para a cova".
"NÃO SEI QUANTAS PESSOAS MATEI"
NOME: Joaquim Cabral dos Santos
IDADE: 52 anos
COMBATE: Tete, Moçambique, 1971/1974; Comandos (5.ª Companhia)
"Não sei quantas pessoas matei na guerra. O que posso dizer é que disparei muitas vezes na direcção do inimigo e que vi muitos dos seus homens tombar. Estive dois anos na linha da frente, em Moçambique. Participei em dezenas de combates, alguns deles bastante violentos, mas nunca me aconteceu enfrentar um único elemento, cara-a-cara, e disparar sobre ele. Se tivesse acontecido, teria de o matar, porque se não, era eu que morria. Isso era uma certeza absoluta. Em plena guerra, não pensamos que estamos a tirar a vida a pessoas, porque, se assim fosse, seríamos simplesmente ineficazes. Quando disparamos é para cumprirmos uma missão, e também para salvar a nossa pele. Deixei o serviço militar em 1974 e nunca mais tive qualquer arma. Nunca me arrependi das minhas acções e, se fosse hoje agiria da mesma maneira.”
"VI UM HOMEM MORRER NAS MINHAS MÃOS"
NOME: José Vale d’Ovelha
IDADE: 52 anos
COMBATE: Cabo Delgado, Moçambique, 1970/1974, Artilharia 2505
"A zona onde estive, Cabo Delgado, era conhecida por ‘minas gerais’, tal era a quantidade de explosivos ‘plantados’ no chão. Eu era enfermeiro e vi feridos de guerra que eram autênticos destroços humanos. O primeiro soldado que tratei tinha sete balas alojadas no corpo. Tinha os intestinos de fora e uma bala nos testículos. Fora apanhado por um guerrilheiro numa árvore. De repente, eu era chamado para a frente do pelotão, sem qualquer experiência prática. Quando vai para a guerra, um enfermeiro tem uma formação teórica muito completa, mas deveria passar primeiro pelos bancos dos hospitais militares para endurecer psicologicamente. Tive de fazer um esforço sobre-humano para não vomitar ou desmaiar. Se me fosse abaixo naquela altura, o pelotão nunca mais iria ter confiança em mim. Os soldados estavam nas mãos dos enfermeiros, uma vez que só havia um médico por batalhão e eles nunca iam para o mato. Nós éramos os guardiões das suas vidas. Eles viam-nos com essa auréola. Mas era pura ilusão. Entre os oito mortos do meu pelotão, houve um que morreu nos meus braços."
"A GUERRA PORQUÊ ?"
NOME: José Luís Costa Ribeiro
IDADE: 53 anos
COMBATE: Lazage, Leste de Angola (1972/1974); Membro da Companhia de Caçadores 3438
"A 20 de Agosto de 1972, o meu pelotão de 18 elementos da Companhia de Caçadores 3438, sediada em Angola, participava numa operação de rotina. Na manhã do terceiro dia o alferes que comandava o grupo foi evacuado, com uma entorse num tornozelo, e ficamos um pouco à deriva. Às 16 horas, inesperadamente, descobrimos um acampamento do MPLA e ávidos de emoção, atacámos. Fomos rechaçados para a orla da mata, na nascente do Rio Mufueje, e em pouco tempo vimo-nos cercados por quatro lados. Tenho consciência de que não nos quiseram matar, tal a fragilidade em que nos colocaram.
Após duas horas de desespero começámos a ser sobrevoados por helicópteros Puma (que inundaram a zona com reforços de todos os ramos das forças armadas) e dois aviões que metralharam todo o espaço envolvente, matando indiscriminadamente tudo quanto mexesse.
A nós, pelotão da 3438, coube-nos a missão de contar as baixas entre o ‘inimigo’ e recuperar material de guerra. Por entre um odor indiscritível a carne queimada, contámos 58 vítimas mortais, (homens, mulheres e crianças). Muitas noites acordei com aquela imagem na memória. Hoje pergunto: por que é que isto aconteceu?"
"MARCAS PARA TODA A VIDA"
NOME: Mário Brito Lopes
IDADE: 54 anos
COMBATE: Bembe, Totó e Caixto, no norte de Angola; Membro da Companhia 2693
"Todas as guerras deixam fortes marcas para o resto da vida e, sem querermos, esses resquícios reflectem-se no nosso dia-a-dia. De 1970 a 1972 permaneci no norte de Angola, 27 meses em zona de mato, integrado na Companhia 2693 que foi alvo de várias emboscadas. Só por mera sorte elas não tiveram consequências mais graves. Porque a guerra colonial, tal como todas as outras guerras, são feitas para matar. Nunca mais esquecerei uma das emboscadas, em que tivemos de saltar do veículo em que seguíamos. Ainda me escondi por detrás de uma das rodas da viatura, e um dos disparos só não me atingiu por menos de um palmo. Nós respondíamos com fogo para dentro do mato, onde estariam os nossos inimigos, e é natural que alguns fossem abatidos.
Depois de regressar da guerra de Angola, e durante longos anos, continuei a vivê-la de outra forma. Por exemplo, quando me encontrava a dormir e alguém me acordava, saltava precipitadamente da cama, como se fosse alertado para qualquer acto de combate. Mais: sempre que ouvia um estampido ou um tiro, mesmo de caçador, atirava-me logo ao chão naquele habitual instinto de defesa."
"HOUVE MUITOS EXCESSOS"
NOME: Mário Vitorino Gaspar,
IDADE: 59 anos
COMBATE: Guiné, 1967; Brigada de Minas e Armadilhas
"Estive no ‘corredor da morte’, no sul da Guiné. Um local sinistro, com crateras feitas por granadas e árvores perfuradas por balas.
Era responsável da Brigada de Minas e Armadilhas. Tinha de mexer em explosivos, montar e desmontar minas. Elas para mim eram como que um segundo amor. Não podia tremer. O meu outro companheiro era o cigarro. Fumava cigarros uns atrás de outros, enquanto as montava. Por três vezes, estive mesmo na iminência de morrer. Tive sorte. Recordo que após o levantamento de uma granada só desejava rebentá-la pela raiva e excitação do momento. Um gesto imprudente que quase me iria tirar a vida. Hoje questiono-me: quantos é que morreram ou ficaram deficientes com as minas montadas por mim?
Na guerra houve muitos excessos e nós só íamos preparados para matar. Se não matássemos, éramos mortos. Quando víamos um soldado do nosso batalhão a morrer ao nosso lado, ficávamos cegos de raiva e só pensávamos em vingança. Queríamos sair à noite pelo mato e matar quem surgisse pela frente. Se não existisse autocontrolo, teríamos chegado a um ponto perigoso."
FAMÍLIAS SÃO FUNDAMENTAIS
"Eu e o Alípio conhecemo-nos na ‘Primavera’ das nossas vidas, eu com 17 anos e ele com 19". Foi assim que Maria Odete Martins iniciou o seu discurso no colóquio ‘O Caminho para o Stresse Pós-Traumático’, realizado em Leiria a 31 de Janeiro. Odete e Alípio, ex-militar na guerra do Ultramar, estão juntos há mais de 30 anos mas o trágico dia 12 de Março de 1969 mudou para sempre o rumo das suas vidas.
Alípio estava mobilizado na província de Moçambique há dez meses quando foi ferido em combate. A explosão de uma mina deixou-o cego e com o rosto dilacerado. "Foi um choque. Nunca estamos preparados para ouvir uma notícia desta natureza", confessa Maria Odete, que apesar da tenra idade, se prontificou para o ajudar em tudo. "Nunca tive dúvidas de que queria acompanhá-lo. Quando chegou à capital, o Alípio foi internado no Hospital Militar e ficou lá cinco anos. Estive sempre ao seu lado. Foi uma fase complicada", conta Odete, que sempre fez tudo para lhe proporcionar inúmeros momentos de alegria.
O mais significativo foi o nascimento da filha, Susana, hoje com 31 anos. "Foi uma criança muito desejada pelos dois. E deu-nos muitas felicidades", revela esta mulher. Graças ao seu esforço e dedicação, Alípio é hoje capaz de desempenhar inúmeras tarefas sem precisar de ajuda. "Ele é uma pessoa muito activa. Depois de ter passado pela rádio, é o actual presidente da Associação 1.º de Maio, uma das mais antigas da região. Além disso, sabe cozinhar, cortar lenha e é pescador", realça Maria Odete, orgulhosa do seu marido, que há dois anos conseguiu concretizar um sonho: publicar um livro. ‘Uma Guerra, Duas Vidas’ é uma homenagem à mulher que o acompanhou nos bons e maus momentos. "Eu costumo dizer que, actualmente, os casais não se amam. Simplesmente adoram-se. E quando passa essa adoração, cansam-se e separam-se. No nosso caso, acho que conseguimos ultrapassar as dificuldades e seguir em frente", reforça.
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