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Meninas de calendário

As vidas por detrás das fotografias ousadas do calendário da Casa do Povo de Ermesinde.
Marta Martins Silva 8 de Novembro de 2015 às 13:30

Arminda trabalhou numa fábrica, quebrou cascalho numa pedreira – com sete anos já ajudava no sustento da casa – mas foi no campo que passou a maior parte da vida ativa depois de se casar. Por isso, quando lhe pediram para ser fotografada junto de um cavalo, teve a certeza de que não haveria melhor cenário para a sua primeira sessão fotográfica sensual, aos 85 anos.

"Não tenho medo nenhum deles, são parecidos com o gado com que andei às voltas durante 25 anos", conta o mês de julho do calendário da Casa do Povo de Ermesinde, a instituição que desafiou 13  idosas – entre os 63 e os 93 anos – a posar com ousadia para 2016. Há sete anos, a viuvez, longe de deixar Arminda em lágrimas, renovou-lhe a vontade de viver e este calendário é apenas uma das concretizações de que se orgulha. "Os meus filhos dizem que estou uma ‘sex’ e que parece que tenho 50 anos. E sabe? Enquanto tive marido, fui um bocado mais escrava, estive oito anos com ele entrevado na cama, sempre a cuidar dele. Depois de ele morrer, custaram-me os primeiros dias, mas a partir daí resolvi começar a viver, a recuperar coisas que não fiz na minha mocidade e que sempre quis fazer." O cavalo da fotografia tem para a idosa um (outro) significado simbólico que a maioria não terá dificuldade em entender. "Quando me casei, fui de cavalo para burro, agora recuperei o cavalo, está-me a perceber?"

SE QUISER QUE DIGA

O mês de dezembro conheceu o abandono aos 25 anos mas não perdeu a fé na vida. Olinda Conceição ficou sozinha com os dois filhos, um bebé de 15 meses e uma menina de quatro. "O meu marido não morreu mas faz de conta que morreu, foi para fora e não voltou. Mas deixou-me os filhos e eu fiquei toda contente. Vou lá dar-lhe um beijinho na moldura e digo assim: ‘Muito obrigada pelos filhos que me deste.’ Olhe, sei que ele agora já está no Jesus mas se me estiver a ver que diga alguma coisa da minha fotografia." A fotografia em que Olinda encarnou uma marota Mãe Natal, vestida a rigor e deitada de barriga para baixo num sofá cheio de presentes. Aos 93 anos, foi a primeira vez que Olinda se vestiu "de outra coisa" que não ela. "Nem no Carnaval me tinha alguma vez mascarado. Eu sou muito da aldeia, muito pobrezinha, nunca tinha feito estas coisas. Nasci em Cinfães do Douro, uma terra muito pobrezinha que é só de cinco pessoas, daqueles ricos, os Miranda, os Montenegro… os outros são trabalhadores deles. Trabalhei no campo, nos carregos, trabalhei nos brasileiros que cozinhavam, trabalhei numa quinta, fiz muita coisa menos ir para a escola, que nunca fui. A minha escola foi andar com os porcos e com as galinhas."


Teresa Silva acha que se o marido – que morreu aos 52 anos – visse a fotografia do mês de junho em que vestiu a pele de uma esvoaçante Marilyn Monroe ia dizer: "Estás muito sãzinha [saudável]." "Mandaram-me encostar ali, pôr o braço para o lado, pôr o braço para cima, e eu fiz tudo como me mandaram, mas não tenho mérito nenhum nisso, o vestido é que era muito bonito", conta a idosa de 81 anos que se pela por uma partida de dominó e trabalhou como professora em Paredes e enfermeira no Porto antes da reforma. Ana Verónica, de 70 anos, também teve vários trabalhos, mas nunca tinha feito uma fotografia como a do mês de agosto. "Tive que saltar um lago para ir para cima da rocha posar mas não tive medo nenhum; a doutora ainda me ofereceu ajuda mas fiz tudo sozinha. Não tive vergonha nenhuma, toda a gente vai à praia e veste fato de banho." Se o marido "sente ciúmes, está a esconder. Ele quer é fazer um calendário destes para também ficar famoso".


A iniciativa deu brado na internet, coisa que a Casa do Povo de Ermesinde nunca sonhou. "Está a ser um sucesso sem ‘comparança’ no País inteiro, nunca se viu nada assim", acredita Arminda, o mês de julho.

"E o mais engraçado é que não foi nada programado. A ideia foi de uma estagiária de Psicologia, as fotografias foram tiradas com um telemóvel e o ‘fotógrafo’ um jovem voluntário da informática. Aproveitávamos as ‘folgas’ da nossa carrinha de atividades para irmos aos cenários escolhidos e dispararmos os cliques. De uma forma geral, foi tudo muito rápido, exceto nos casos em que as idosas tinham dificuldades motoras", explica Isabel Sousa, a diretora técnica desta instituição particular de solidariedade social, que serve 50 utentes no centro de dia e presta apoio domiciliário a mais 35 pessoas.


A Casa do Povo de Ermesinde é "a segunda família" do mês de maio do calendário. "A minha única filha está a trabalhar em Londres e, como estou divorciada há 12 anos, o centro é a minha segunda casa. A doutora dá-me os papéis mais malandros", conta Odete Flávio, a ‘dominatrix’ de 71 anos. "Olhe, nunca tinha segurado num chicote, e quem quiser que saia da frente. O homem que aparece na cama é um amigo nosso daqui da Casa, tinha que ser um homem porque as mulheres não levam com o chicote, eles é que merecem apanhar porque se portam mal", brinca a idosa, que vestiu com convicção o papel. Fernanda Moita, utente mais nova no calendário, também. Tem 63 anos e foi ‘enviada’ pelo Hospital de São João, no Porto. "A minha filha morreu [Fernanda cuidou dela durante os 12 anos da doença] e tenho muitas depressões, por isso os médicos acharam que me fazia bem estar aqui. Há dias em que me sinto um bocado em baixo, outros em que me consigo distrair. Aqui dançamos, jogamos o bingo, fazemos teatro", conta a ‘coelhinha’ da Páscoa, uma bancária que viveu na Venezuela durante 39 anos. "Nós, no estrangeiro, temos uma mentalidade mais aberta do que em Portugal, por isso a ideia agradou-me desde o início. E mesmo o meu marido, que é muito reservado, disse que o importante era que me sentisse bem." Nos últimos dias o telefone não tem parado, com as amigas da Venezuela a quererem dar os parabéns. "Viram-me pelo Facebook e dizem que estou estupenda, o que me deixa muito feliz." O que já não sentia há tanto tempo que, se não fosse por mais nada, este calendário já tinha valido a pena.

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