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O português premiado

Mário Cruz conta a história por detrás das fotografias premiadas no World Press Photo.
Fernanda Cachão 28 de Fevereiro de 2016 às 15:00

Esteve seis meses a preparar a viagem ao Senegal mas nada o podia preparar para o Senegal dos ‘talibés’ - palavra árabe para discípulos. Mário Cruz, o fotojornalista de 28 anos há dez na agência Lusa, que tirou licença sem vencimento para tirar da cabeça uma história de que ouviu falar em 2009, na cobertura das eleições guineenses, que chegou a ouvir conselho amigo da Human Rights Watch "vá, mas não leve a máquina", - "mas como não levo a máquina?" – e que pôs a sua pele a leilão nos dois meses de 2015, que passou entre a Guiné-Bissau e o Senegal, sobretudo no Senegal, foi o grande vencedor da categoria ‘Temas Contemporâneos’ do World Press Photo - esta foi a notícia.

O site da revista norte-americana ‘Newsweek’ está a publicar, antes do papel da edição de março, uma fotografia por dia da fotorreportagem a que ele deu o título de ‘Talibés, Modern-Day Slaves’ (‘Talibés, Escravos dos Tempos Modernos’); - e 28 crianças da Guiné-Bissau foram já resgatadas. Mário Cruz tem a "a certeza de que foi já consequência" do seu trabalho.

Talibés

Os ‘talibés’ são uma tradição senegalesa em que menores eram acolhidos nas ‘daaras’ (escolas islâmicas) pelos ‘marabús’ (líderes religiosos) para receberem educação a troco de mendigarem na rua – parte revertia para a escola que os educava. Mas a realidade das ‘daaras’ é hoje outra, por isso, o Dia Nacional do Talibé no Senegal, que todos os anos se comemora em abril, passou a ser também um dia de alerta para uma realidade pouco religiosa, a do tráfico e abuso de menores.

Mário Cruz foi ao Senegal e à Guiné-Bissau por causa dos ‘talibés’: rapazes entre os cinco e os 15 anos que vivem nessas supostas escolas islâmicas – as poucas raparigas são para trabalhos domésticos – e que, a pretexto de receberem a tal educação corânica, são antes obrigados a mendigar mais de oito horas por dia, agora entregando a totalidade dos seus ganhos aos falsos professores, que já não são de facto homens religiosos e que lhes retribuem com espancamentos e abusos sexuais. "As ‘daaras’ sempre existiram mas agora são prisões. Eram bastante menos mas agora multiplicam- -se por todo o lado e nos sítios mais insuspeitos como prédios devolutos, onde encontramos miúdos acorrentados e onde todos os dias alguém é espancado e violado".

Os menores são provenientes de famílias muito pobres, alguns confiados a estes falsos profetas pelos próprios pais, enganados por falsas promessas, outros raptados no Senegal ou em países periféricos, como a Guiné-Bissau (o país tem patrulhas florestais para combater este tráfego e as crianças que saem de Bissau têm agora de ter autorização de ambos os pais).

"Só em Dakar (capital do Senegal) há mais de trinta mil crianças", segundo a Organização Não Governamental (ONG) Human Rights Watch.   Em Saint Louis, no norte do país, conhecida por cidade Talibé, devido às ‘daaras’, que sempre existiram mas que agora se multiplicam como nunca, o número de crianças é tão grande que muitas delas mendigam já por sua conta, depois de terem fugido aos seus captores. Os cinco ou seis dólares por dia, já curtos aos olhos dos ‘marabús’, são cada vez mais impossíveis de conseguir porque cada vez mais há pequenos mendigos a deambular de mão estendida. Quando chegam aos quinze, dezasseis anos, a maioria acaba por fugir – em grupo, para durante a noite se revezarem na vigia. Outra parte, cresce e segue o exemplo dos seus captores nas falsas escolas corânicas – raptam, batem e violam outros menores pedintes como eles próprios foram. 

Aos abusos sexuais diários, às chibatadas, e porque vivem em condições insalubres, acrescem problemas de saúde como a malária, doenças de pele, parasitas e problemas respiratórios. Algumas organizações não governamentais que estão no terreno e que tentam ajudar os pequenos pedintes, intervindo nas ‘daaras’, perceberam tarde que só ajudavam ao ciclo vicioso.

"Não estabeleci particular relação com nenhum destes miúdos, porque eles não confiam em ninguém, embora tivesse sempre comigo uma pessoa que me ajudava. Mas lembro-me de um jovem de 16 anos que era abusado desde os cinco, que nunca tinha tido um brinquedo, que nunca tinha tido o abraço de um pai ou de uma mãe; não era o único. Chocou-me muito esta realidade." Mário Cruz frisa a colaboração que teve do chefe para o combate ao tráfico do Ministério da Justiça senegalês – "uma pessoa do governo muito empenhada" – e ainda assim, são poucos os ‘marabús’ levados à Justiça: "não consigo perceber porque é que as forças senegalesas não veem aquilo que eu vi. Ali já não há alunos do Corão." Há uma lei sobre a mendicidade em banho-maria no parlamento senegalês. "Era preciso uma mudança na sociedade. Para aquela gente, qualquer pessoa que vista uma roupa especial e tenha um Corão é um religioso."

Daaras

Desde janeiro de 2015 e durante seis meses, antes de aterrar em África, Mário Cruz estabeleceu uma rede de contactos e leu "tabelas e documentos", mas nada o poderia preparar para o primeiro dia em que "entrou numa ‘daara’ e viu 30 ou 40 miúdos a tremer de medo, enquanto um homem chicoteava um deles". "Foi muito complicado. Fui várias vezes identificado, e lembro-me de uma vez numa lixeira – para onde os miúdos são também mandados, para recolher lixo – ter sido ameaçado e pensar que não podia ter medo porque tinha de tirar aquela fotografia, porque era o correto, porque era o que tinha de ser feito".  

Entre todos os dias, entre todos os meninos em todas as falsas ‘daaras’, entre todos os momentos em que temeu pela pele, Mário Cruz lembra enfim – "vá lá, aquela vez em que tinha visto recusada a autorização para entrar". "Usava muitas vezes expedientes como o de querer fotografar as más condições da casa e coisas do género para tirar a fotografia que me interessava" –, e recorda a vez em que ignorou a falta de permissão e aproveitou a ausência do guarda, "mesmo que lá dentro estivessem outras pessoas e podia ter corrido muito mal", para entrar e fazer a fotografia que publicamos nas páginas anteriores.

A ida ao Senegal foi-lhe também ao bolso. As fotorreportagens anteriores, nomeadamente a premiada no Estação Imagem de 2014, foram feitas por sua conta mas nas folgas e nas férias.

Mário Cruz diz que talvez não volte a fazer nada do género. Ou talvez não.

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