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Correio da Manhã

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Mesmo quando jogava o meu talento era o trabalho

Tinha oito anos quando começou a jogar râguebi em Cascais, por influência de um irmão mais velho, e aos 36 é considerado o ‘Mourinho’ da modalidade. Em 2001, Tomaz Morais abraçou o cargo de seleccionador nacional, teve algumas dificuldades iniciais mas valeu-se da combatividade para levar este ano a formação de ‘sevens’ ao pentacampeonato europeu.
6 de Agosto de 2006 às 00:00
Tomaz Morais
Tomaz Morais FOTO: Vasco Célio
O segredo do sucesso? Muito trabalho, sacrifício e uma fé inabalável nas potencialidades dos jogadores portugueses. Professor na Universidade Lusófona e actual colaborador do Sporting, acorda todos os dias às 05H45 para fazer ginástica, já pôs os seus atletas a treinarem no Corpo de Fuzileiros e afiança ser necessária uma revolução no desporto português. Em especial no ‘seu’ râguebi, que gostava de ver profissionalizado o quando antes.
- Apesar do título de pentacampeão europeu na variante de sete, o râguebi português continua no quase anonimato. Por ser visto como um desporto de ‘boas famílias’?
- Em parte devido a esse estigma, mas não só. É uma verdade incontornável que historicamente a modalidade está ligada à vertente cultural, a um treino que teve sempre como meta a formação do indivíduo enquanto cidadão. Em Portugal, os pais quando colocam um filho no râguebi esperam que aquilo funcione como uma espécie de ensaio para a vida, e não como um meio lucrativo de sustento.
- É impossível mudar essa filosofia?
- Não, embora aconteça de forma lenta. Nos últimos anos, o objectivo principal da Federação e dos clubes tem sido transformar o râguebi num jogo para toda a gente. Graças a essa atitude conseguiu-se chegar a pessoas de diferentes situações económicas, sem com isso nos esquecermos de que o râguebi de nível mundial é hoje altamente profissional.
- Muito diferente do nosso?
- Todos os nossos adversários directos estão nesse patamar enquanto nós continuamos a ter um râguebi amador ou, em algumas situações, semiprofissional. Precisamos de soluções rápidas, ou podemos vir a ter problemas imediatos.
- Porquê?
- Falta fazermos reestruturações internas, existem dificuldades organizativas que nos impedem de evoluírmos mais. É urgente criar uma estrutura profissional na Federação, que o presidente e restante quadro directivo sejam recompensados pelo seu trabalho. Têm feito muito por pouco, sistema que não é o mais adequado face às obrigações emergentes.
- O râguebi de 15 não dá o salto devido a esse quadro?
- O râguebi de 15 foi o que mais evoluiu e não tenho dúvidas de que os resultados estão muito acima das suas reais capacidades. De acordo com a dimensão que a modalidade tem em Portugal, poderíamos estar a competir ao nível da Bélgica, da Holanda, da Alemanha e da própria Espanha, que está abaixo de nós e tem 10 ou 12 vezes mais jogadores. Nessa variante conseguimos resultados ímpares para o desporto português, embora não nos possamos concentrar neles e esquecer o resto. Gostava que o râguebi nacional funcionasse ao contrário, que os resultados fossem fruto do que se passa internamente e não que a evolução na Federação e nos clubes só acontecesse devido às boas prestações das equipas.
- No seu caso, quem é que o arrastou para a modalidade?
- O meu irmão Nuno, quando eu tinha apenas oito anos. Ele jogava nos juniores do Cascais, onde o râguebi começara a desenvolver-se pouco tempo antes, e decidiu pegar-me o bichinho. O grupo era fantástico e durante muito tempo a estrutura foi claramente familiar, ligada a um núcleo que arrastava irmãos, primos, amigos, que deu boa imagem à vila.
- O típico caso do râguebi português.
- Só nesse aspecto, porque noutros até revolucionou a forma de estar. Houve uma aposta forte na variante de sete e existia uma visão muito competitiva do desporto, ligada ao treino, à vontade de ganhar. Não jogámos para a festa ou para o status social. Trabalhávamos no duro para vencer.
- Como é que os seus pais reagiram à ideia?
- De uma forma pacífica. Na minha família sempre fomos educados e incentivados a fazer desporto e competição, desde a natação ao ténis, passando pelo boxe ou pelo motocross. O meu pai, por exemplo, jogou basquetebol e fez remo, pelo que não tive qualquer problema com ele.
- E com a sua mãe?
- Também não, foi uma questão de hábito e de orgulho. Mas nunca é fácil para uma mãe lavar equipamentos cheios de lama, ou ver o filho com feridas ou mazelas durante um ano inteiro.
- Pensou jogar no estrangeiro?
- Sem dúvida. Depois de um torneio de ‘sevens’ em Hong Kong que me correu muito bem cheguei a ter um convite para jogar na Escócia, que declinei por estar a terminar o curso de Educação Física e ir para estágio. Faltou-me coragem. É das poucas coisas que me arrependo de não ter feito.
- Os jogadores portugueses podem fazer boa figura lá fora?
- Claramente, e sem ficarem abaixo de ninguém. O José Pinto, na Lázio de Roma, foi este ano o melhor jogador da equipa; o Gonçalo Uva tem 22 anos e está no Montpellier; o João Uva foi campeão de Espanha pelo Barcelona e deixou grandes referências. Há óptimos exemplos, que podiam ser mais se não faltasse a muitos coragem para se desprenderem da vida familiar, pessoal e profissional. É pena, até porque os convites serão cada vez mais, em especial a partir de Novembro, quando iniciarmos o circuito mundial de ‘sevens’, que cumpriremos na totalidade dos torneios.
- Será a sua grande aposta para este ano?
- Mais do que uma aposta, é uma obrigação, um dos passos mais importantes e bonitos que o râguebi português pode dar além-fronteiras, e uma vitória para os jogadores. Desde 2000 que fiz ver à Federação Portuguesa de Râguebi que estava a fazer uma má aposta estratégica em não construir uma equipa de ‘sevens’ de nível mundial. Com o pentacampeonato europeu os resultados estão à vista, agora é esperar para ver como nos comportamos ao longo de tantos meses de competição. Sinceramente, em ‘Sevens’, podemos ganhar a qualquer equipa do Mundo.
- Chegou a levar atletas para os treinos do Corpo de Fuzileiros. Não acha que muitas vezes exige demais de atletas amadores?
- O meu grau de exigência nunca foi superior àquilo que os meus jogadores são capazes de dar. Se peço para ganharmos às Fidji, à Itália ou à Argentina, é porque acredito que podemos mesmo derrotar essas selecções. De resto, as exigências que faço são de alta competição, para pessoas predestinadas para esse tipo de situações. Mas existe o mal português: individualmente somos pouco exigentes connosco.
- Já notou essa atitude nos jogadores?
- Variadíssimas vezes. Há muitos que acreditam pouco em si próprios. Quando há três anos levei a tal equipa de que falou para o Corpo de Fuzileiros fi-lo porque tinha talentos que não tinham noção das suas capacidades individuais e colectivas, nem tão-pouco que só actuando em grupo conseguiriam atingir bons resultados.
- Foi essa forma de encarar a competição que o levou a ser apelidado como ‘o Mourinho do râguebi’?
- Provavelmente. É um elogio ser comparado àquele que é o melhor treinador do mundo da actualidade, mas só devem existir alguns pontos de contacto em termos de resultados. Por aquilo que sei temos formas diferentes de ser e de estar.
- Tal como Mourinho, sente-se um lutador?
- Desde que nasci. Mesmo na altura em que era só jogador o meu talento sempre foi o trabalho. Prova disso, desde a minha escolha para seleccionador nacional, em 2001, que o meu processo tem sido de combate constante. Primeiro porque substituí um cotado treinador neo-zelandês, depois porque no primeiro ano não tinha um corpo técnico completo. E apesar de tudo somos talvez hoje a melhor equipa amadora do Mundo.
- Tem mulher e duas filhas. Como lida com a pressão familiar tendo em conta tantas responsabilidades?
- Tudo passa pela organização pessoal. Normalmente levanto-me às 05h45, para fazer ginástica das seis às sete da manhã com um grupo de Cascais. Do ponto de vista familiar, as minhas ausências têm sido bem toleradas porque prefiro a qualidade à quantidade de tempo, embora reconheça que há momentos que se perdem. Mas a Inês e as minhas filhas cedo aprenderam a viver com uma bola em casa ou no carro.
- Como reagiria se as suas filhas lhe pedissem para jogar râguebi?
- Seria sempre uma opção delas, mas a mãe não ficava muito feliz. Vê-las equipadas e com uma bola na mão teria de passar por uma habituação, comigo a entrar pelo campo dentro a gritar ‘Ai minha filha, minha filha’.
UM MIÚDO NASCIDO PARA AS VITÓRIAS
O despertador tocava sempre de madrugada no quarto de Tomaz Morais. Era ainda pequenino quando começou a saltar da cama pela fresca, para aproveitar o dia. Sem vontade de ficar em frente à televisão a ver desenhos animados, entretinha-se em desenfreada correria entre a escola, os escuteiros e idas à igreja.
Nos intervalos de tantas actividades arranjava ainda tempo para dar uma mão no negócio da família, um restaurante de comida para fora. Disciplina, fé e trabalho vincaram-lhe a personalidade desde o berço, acentuada quando o irmão Nuno, dez anos mais velho, o empurrou para o râguebi do Cascais. Mais do que talento, sobressaía no petiz uma perseverança e um espírito de luta sem limites.
“Não gostava de perder nem a feijões, e mesmo quando as coisas não corriam bem lutava até ao fim, sem baixar os braços. Chegava até a ser um bocado agressivo e às vezes acabava tudo à estalada dentro de campo por causa dele” recorda Nuno. Tamanha vontade de vencer deu os seus frutos.
Quando aos 18 a morte do pai lhe aplicou o mais duro dos golpes, Tomaz sofreu, chorou a perda mas não caiu, mostrando-se igual ao que sempre fora: forte e determinado. Por essa altura capitão da selecção nacional juniores, crescera longe do álcool, das drogas, num mundo muito seu onde a palavra desistir fora desde o início riscada do dicionário. Francisco Martins, 40 anos, conhece-o vai para duas décadas, quando os dois se defrontavam nos embates entre o Cascais e o Técnico.
“Era um adversário chatíssimo, muito difícil de ultrapassar. E manteve a personalidade quando passou a meu treinador, já no Direito, equipa que refez totalmente, com grandes resultados”, lembra o actual ‘manager’ da selecção nacional de ‘sevens’, que Tomaz se encarregou de transformar numa potência mundial. O feito valeu-lhe a alcunha de ‘Mourinho do râguebi’, epíteto com o qual o amigo de longa data não concorda: “Acho que isso acaba até por ser mais elogioso para o treinador do Chelsea do que para ele”, diz em tom de graça.
Mas existem pontos de contacto. Ambos têm uma filosofia ganhadora, nunca desistem de um jogador em quem acreditam e adoram trabalhar a parte psicológica dos seus pupilos. Atento, o Sporting foi buscá-lo recentemente para uma colaboração de retaguarda, ao nível da componente técnica e de formação, que promete bons resultados. Como é seu costume, Tomaz Morais não equaciona perder o novo desafio.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
Um País... Portugal
Uma pessoa... a minha mulher
Um livro... ‘Vamos, Levantai-vos’
Uma música... ‘Whe Are the Champions’
Um lema... trabalho
Um clube... Sporting
Um prato... um bom bife
Um filme... ‘Voando Sobre um Ninho de Cucos’
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