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MILAGRES: PAGADORES DE PROMESSAS

Terça-feira faz 86 anos sobre a aparição de Nossa Senhora de Fátima. Em nome da fé, milhares de peregrinos sacrificam, ainda hoje, o corpo e a alma
11 de Maio de 2003 às 19:11
MILAGRES: PAGADORES DE PROMESSAS
MILAGRES: PAGADORES DE PROMESSAS FOTO: Francisco Pedro
Moçambique,1975. “Num café, o meu filho foi abordado por tropas da Frelimo que lhe perguntaram pelo Bilhete de Identidade e, como ele não o tinha, pediram-lhe que os acompanhasse”. A partir daí, Maria Juraci Macário, 72 anos, viveu alguns dos momentos mais angustiantes da sua vida. Mas também um dia que há-de ser recordado para sempre como mágico.
“É indiscritível a sensação de ter um filho preso. A famíla tentou de tudo para trazê-lo de volta a casa mas não havia nada que estivesse ao nosso alcance. Só nos restava aguardar”, conta. Depois de um mês sem notícias do Fernando a esperança da família começou a esvair-se. “A minha vida tornou-se num tormento. Não tinha vontade de viver e entreguei a minha sorte a Nossa Senhora de Fátima”, recorda.
Certo dia, estava esta mãe sentada na cozinha de sua casa, a rezar quando o milagre aconteceu. “Apareceu-me Nossa Senhora de Fátima, vestida de branco, com uma coroa dourada na cabeça e um terço na mão”, descreve Maria Juraci.
Dois dias depois, o Fernando regressava a casa. “Tinha prometido a Nossa Senhora que mal chegasse a Portugal iria a Fátima pôr uma vela do tamanho do meu filho, e assim fiz. Acredito que foi um milagre. Só eu sei aquilo que vi”, afirma, convicta.
A PÃO E ÁGUA
Maria Cândida Ventura nunca vislumbrou a imagem de Nossa Senhora mas a fé que nela deposita já a fez percorrer 17 vezes a pé mais de 300 quilómetros. Com 88 anos, Maria Cândida garante que nunca lhe custou fazer a caminhada e que é sua intenção ir a Fátima por muitos mais anos. “Já sou velhinha mas enquanto Deus me der saúde e forças, vou até morrer”, assegura. Muito crente, é da opinião de que andar todos aqueles quilómetros a pão e água “é pouca coisa perante aquilo que Nossa Senhora nos ajuda”.
Este ano, Maria Cândida – que em 2002 foi acompanhada pelo ‘Correio da Manhã’ nesta sua caminhada de fé – diz que vai pedir ajuda “por todos os doentes lá da terra e do País”.
O MILAGRE DA VISÃO
Bernardino Ribeiro, 78 anos, foi toda a vida motorista. De Maio a Setembro, os fins-de-semana eram preenchidos com excursões a Fátima e assistiu de perto a quem tenha "partido cego e chegado a ver".
Das mais de mil viagens que efectuou, começa por recordar a devoção que havia antigamente. “De há uns anos a esta parte, vai-se a Fátima passear. Antes, as pessoas faziam sacrifícios. Dormiam no autocarro e o pouco dinheiro que levavam era para comprar santinhos e terços”.
Lembra com especial carinho um senhor cego, devido a um acidente de trabalho, que recuperou a visão numa das viagens. “A partir daí, passou a ser ele quem animava os companheiros de viagem ao som do acordeão”
AJUDAR QUEM PRECISA
Enfermeira chefe no Centro de Saúde de Alcochete, Rosa Carrão tinha 29 anos quando rumou pela primeira vez a Fátima. “O que me levou a ir foi a fé mas, principalmente, querer entender que tipo de força fazia movimentar aquelas pessoas”, conta. Depois da experiência, concluiu que aquele era, de facto, um “momento único". E aquilo que mais a impressionou foi dar-se conta da falta de apoio junto dos peregrinos. “ Lembro-me que levava uma pequena farmácia e que usei tudo nos primeiros quilómetros”.
Com o tempo, a ajuda foi-se intensificando e ia para as peregrinações sempre prevenida com uma farmácia, cada vez mais recheada.
“Não faço isto por obrigação nem por crença, faço porque gosto. Agora somos um grupo de cinco pessoas que vive sob a filosofia de esquecer o próprio ego e fazer mais pelos outros”, confidencia.
Desde 1999 que Rosa não vai a Fátima mas, este ano, não falha. “As saudades já são muitas”, revela.
As pessoas que conhece, os amigos que faz e os momentos que vive deixaram “marcas para toda a vida”. Exemplo disso é a história de um casal de Fazendas de Almeirim que Rosa recorda emocionada. “Lembro-me de ver a senhora com uma grande barriga esticada no chão. Fiquei preocupada, dirigi-me a ela e vi que tinha as pernas e os pés cheios de bolhas. Prestei-lhe a minha ajuda e ela só dizia: ‘Você deve achar que eu sou maluca’. Respondi-lhe que não estava ali para julgar ninguém. Depois, a senhora explicou--me que já tinha engravidado várias vezes e que, ao quarto ou quinto mês de gravidez, perdia os filhos. Naquela altura, encontrava-se no nono mês e decidiu ir agradecer a Nossa Senhora de Fátima por aquilo que considerava um milagre.
No ano seguinte, parei num restaurante e vejo essa mesma senhora dirigir--se a mim com o bebé ao colo. Nesse momento senti que tudo vale a pena”.
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