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Milionários do 1x2

Lançado há 50 anos, o Totobola rendeu fortuna. Alguns palpites mudaram vidas, outros não
2 de Outubro de 2011 às 00:00
As caras dos vencedores vendiam o jogo

Durou apenas três anos o sonho de Augusto Maria Pezo. Tal como chegou, a fortuna esfumou-se num ápice e o primeiro milionário do Totobola acabou os dias num modesto andar arrendado no Cacém.

Lançado em 1961, o Jogo da Santa Casa não deu logo milhões. Só a 1 de Abril de 1962 a sorte grande bateu à porta de Pezo e o então fiel de armazém na construtora Moderna tornou-se, de um dia para o outro, no primeiro vencedor do 1x2 a ganhar mais de mil contos. Acertou no 13 ao dar empate ao Benfica-Porto, quando todos apostavam na vitória dos encarnados a jogar em casa. Casado, pai de três filhos, bem parecido e popular em Oeiras, onde residia, Pezo, 33 anos, foi notícia de jornais e capa de revista: o prémio de 1300 contos (equivalente hoje a 436 mil euros ) dava para mudar a vida.

O BOOM DE 60

Portugal nos anos 60 vivia um boom económico e social. Na periferia de Lisboa cresciam prédios altos, que cativavam as famílias pobres aninhadas nas casas dos bairros populares criados por Salazar. As montras das lojas mostravam vestidos com decote e fatos de banho cavados e surgia uma nova sociedade, elegante e esbanjadora, que frequentava o Casino Estoril e jantava marisco das colónias. Mas na época o ordenado de um administrativo era de 1500 escudos (o equivalente a 504 euros na actualidade), um canalizador recebia 35 escudos por dia e um frigorífico custava entre 5 mil a 11 mil escudos. Em 1962, 1300 contos dava para muito e o jogo do Totobola começava a ser mais do que um sonho. Pezo garantia nos jornais que "ia investir num prédio".

No largo central de Oeiras, muitos ainda recordam esses anos ‘dourados’ e a família humilde que morava num rés-do-chão da rua João de Deus. "Era o Augusto Pezo, a mulher e três filhos, mais um irmão e a mãe. Moravam todos naquela casa, da Misericórdia, e quando lhes saiu o prémio mudaram para os prédios de baixo. Ele comprou dois andares e o restaurante Patrício. Depois ficaram sem nada e foram-se embora", conta Maria Anjos, antiga vizinha.

Pezo gastou 400 contos em dois andares "com cinco assoalhadas e duas casas de banho", outros 200 na loja do Patrício; tudo no mesmo prédio, moderno e a estrear, localizado no centro de Oeiras, onde sempre vivera. Os 700 mil escudos que sobraram não chegaram para os prazeres da vida. O bigode ralo e o sorriso "à Rodolfo Valentino" denunciavam a fama de ‘bon vivant’. Numa época em que as idas ao estrangeiro eram vício dos ricos, viajou pela Europa com os amigos, comprou dois carros – entre eles um Renault Frégate –, uma vespa 50 e roupa moderna para toda a família.

Firmino Lopes, reformado, 61 anos, partilhava os bancos da escola com as filhas de Pezo e recorda "umas mocinhas muito giras. Sabe como era naquela altura, saíamos todos e elas foram as primeiras miúdas a usar biquini na praia. As mariscadas eram mais do que muitas e o dinheiro voou num instante. Até ir à falência, gastava no que havia para gastar. O meu sogro até deixou de andar com ele porque aquilo era uma loucura".

Carlos Braz, 80 anos, mantém-se à frente do quiosque onde Pezo recebeu a boa-nova. "Fui eu quem o acompanhou a receber o prémio lá na Santa Casa. Mas o que aconteceu depois não foi culpa só dele. Emprestou dinheiro a muita gente e a maior parte nunca lhe pagou".

Os filhos – Antonieta, hoje com 62 anos, Manuela, 58, e António, 49 – ainda guardam um "pequeno livro dos calotes" que Eurídice, a mãe, foi escrevendo em letra miudinha. Era a única que durante anos mostrava mágoa pela vida amachucada mas, apesar da revolta, manteve-se fiel.

Acabado o dinheiro, sobraram as dívidas e a família Pezo foi obrigada a desfazer-se do património adquirido com o prémio. Augusto Pezo, o primeiro milionário do Totobola, voltou a ser o que sempre fora: um homem modesto e trabalhador por conta de outrem, nas empresas UCAL e Cabos d’Ávila, entre outras.

Isabel Araújo nunca viu a cor do dinheiro pois entrou para a família anos depois, mas lembra que em casa "não se falava nesse assunto. Nunca se recordavam os dias em que foram milionários e não me parece que existissem problemas entre eles por causa disso. O meu ex-marido cresceu no Cacém e não tinha recordações dessa época e o meu sogro, que era muito generoso e afável, não mostrava ressentimentos. Era uma excelente pessoa e apesar de ter perdido o dinheiro todo continuava a confiar nas pessoas", conta.

Pezo morreu há dez anos e foi sepultado em Oeiras, mas os antigos companheiros de farra não acompanharam o funeral. "Ele pensava que eram pessoas amigas; está visto que não o eram. Tenho pena, pois foi obrigado a trabalhar até morrer", diz Isabel. No fim da vida, reformado, ainda fazia biscates "para que nada faltasse à família" e continuava a jogar no Totobola.

O BAIRRO DO TOTOBOLA

Em Outubro de 1965, um grupo de amigos do Mucifal, aldeia do concelho de Sintra, fez uma sociedade para jogar no Totobola. João Ferreira tinha então 21 anos e cumpria o serviço militar na Base Aérea de Sintra. "Estava no quartel quando uns amigos me desafiaram a ir beber uma cerveja ao Mucifal, a minha terra. Fui com eles à marisqueira do ‘Tita’ e foi lá que me falaram da sociedade do Totobola. Apostei 10 escudos (5 cêntimos). O cérebro da operação era Francisco Jorge, conhecido pela alcunha de ‘Tita’, que dava nome à sua marisqueira – "uma das melhores da região de Lisboa", diz com orgulho.

Francisco conta a história que mudou a vida daqueles homens: "Fizemos uma sociedade para jogarmos com sete triplas. Na segunda semana em que apostámos éramos 22. Uns puseram 10 escudos, outros 20, eu e mais três apostámos 30 escudos". Outros ficaram pelo caminho. "Meti 20 escudos por um amigo, mas ele não quis jogar porque íamos pôr o Benfica a perder. Gastou o dinheiro em cervejas". Pois esse amigo haveria de desmaiar no domingo seguinte, quando soube os resultados. O jogo do Benfica até nem constava do boletim que deu a fabulosa quantia de 2200 contos aos 22 do Mucifal. "Soube que tínhamos ganho por um telefonema do jornalista Artur Agostinho, que era muito meu amigo. Ganhei 180 contos", lembra Francisco ‘Tita’.

Usando as tabelas do Banco de Portugal para a desvalorização da moeda, os 2200 contos que ganharam em 1965 equivaleriam hoje a 679 mil euros. O prémio de Francisco seria hoje de 55 mil euros. João Ferreira recebeu 60 contos (hoje 18,5 mil euros). Dinheiro suficiente para mudarem de vida, mas não para deixarem os empregos. ‘Tita’ investiu em casas: "Lembro-me que pagava 34 escudos por dia ao pedreiro e outros 25 escudos ao servente".

Fez seis vivendas e foi um dos fundadores de uma nova urbanização, baptizada com o nome do jogo que a tornou possível. O Bairro do Totobola ainda existe e numa das paredes está um azulejo que reproduz o boletim vitorioso. O dono dessa casa, J. G. Agostinho, já faleceu tal como grande parte do grupo dos 22. Mas o bairro cresceu.

Francisco só se mudou para lá anos mais tarde, depois de deixar os negócios. "Arrendei as casas e mantive o restaurante e uma oficina de motos e bicicletas, que entretanto passei ao meu filho. O prémio ajudou-me a ter uma vida melhor, mas não mudou muito. Deu para pôr a minha filha na universidade. Tenho 77 anos e não me quero reformar", conta ‘Tita’.

Numa rua um pouco mais abaixo do Bairro do Totobola, João Ferreira aproveitou os 60 contos para construir uma vivenda. Mas ainda precisou de pedir emprestados mais 40 contos a uma tia. "O prémio ajudou a que saísse de casa dos pais mais cedo do que planeava, mas fiquei com uma dívida. Era carpinteiro e continuei sempre a trabalhar", conta João Ferreira, que tem hoje 67 anos.

A sociedade do Mucifal continuou a fazer apostas. Ainda saíram mais uns quantos prémios, mas nada de comparável àquele boletim sortudo de 3 de Outubro de 1965, em que as vitórias do Sporting contra o Barreirense, da CUF sobre o Setúbal ou da União de Tomar contra a Sanjoanense enriquecerem os 22 amigos. Hoje, nem João nem Francisco jogam no Totobola. Preferem o Euromilhões, mas a fortuna não lhes voltou a bater à porta. "Saíram-me 8 euros esta semana", diz João com um sorriso amarelo.

CRUZES À SORTE

Aos 79 anos, Judite Rosado já esqueceu os detalhes daquele dia em que foi a única totalista do Totobola. Sabe que foram "mil e tal contos" na década de 60, uma fortuna para a altura (hoje seria o equivalente a 400 mil euros). Era costureira e o marido tinha um café em Estremoz com uma máquina para registar os boletins. "Eu nem percebia nada de futebol mas meti na cabeça que ia ganhar, pedi ao meu marido que trouxesse um boletim e preenchi-o quase ao acaso".

A sorte sorriu a esta alentejana: acertou nos 13 resultados. Judite ficou chocada. "Fartei-me de chorar", confessa. Com o dinheiro do jogo o casal construiu um prédio de quatro apartamentos, que custou 600 contos (3 mil euros). Ocuparam um deles e arrendaram os restantes. "O meu marido comprou um bom carro, mas continuámos a trabalhar".

A sorte que teve ao jogo faltou--lhe na vida. Passados poucos anos o marido morreu, vítima de doença prolongada, e o filho também faleceu com um problema de saúde. Judite vive ainda na casa que o Totobola lhe permitiu comprar. Uma neta e dois bisnetos são a sua alegria. O prémio é uma memória remota.

PASTOR COM SORTE

Em Évora poucos recordam o dia em que um pastor chamado Adriano Francisco Celestino ganhou o primeiro prémio do Totobola. Afinal, já passaram 48 anos.

"Corria por aí a história de que tinha pedido o último palpite à mulher. E ela respondeu: ‘mete aí uma cruz’. Esse empate valeu na altura uma fortuna", lembra o proprietário de um comércio na Nau, zona residencial onde o falecido premiado comprou dois prédios. A mulher, hoje com quase 90 anos, ainda vive numa das casas compradas com o dinheiro do Totobola. Sobre o dia de sorte nem quer ouvir falar. "Mais valia não ter saído nada", foi o seu único comentário. O sentimento de revolta, segundo os vizinhos, deve-se ao facto de hoje não ter dinheiro para as obras de manutenção dos prédios devido à baixa reforma.

Os 1 400 contos (hoje equivalentes a 7 mil euros) ganhos em 1963, com uma aposta de apenas três escudos, foram investidos em duas vivendas e numa quinta na zona do Ribatejo. O pastor faleceu poucos anos depois. Deixou a herança à viúva e às duas filhas, ambas residentes em Lisboa.

VENCEDOR ATORDOADO

A 6 de Junho de 1980, Avelino José Mendes, de 25 anos, casado e com um "herdeiro a caminho", recebeu a notícia que o deixou sem fala: ganhara 7600 contos no Totobola (hoje seriam 368 mil euros). "Durante uns dias fiquei atordoado, sem saber o que fazer com aquele dinheiro. Era uma situação inesperada e nem me lembro bem da chave em que apostei", conta.

Seis anos após a revolução de Abril, o País recebia o governo da AD e a RTP iniciava as transmissões a cores. Um televisor custava cerca de 50 contos, o litro de leite 11 escudos, um serralheiro recebia 700 escudos por dia e um apartamento no Minho rondava os dois mil contos.

O montante do prémio era, pois, tentador e Avelino, bate-chapas de profissão, a viver em Monção, mesmo junto à fronteira com Espanha, recebia cartas e telefonemas diários, de conhecidos e desconhecidos, "a pedir dinheiro e ajuda para as coisas mais variadas, ou a oferecerem investimentos. Chegavam a aparecer aqui à porta, mas felizmente nunca cedi". Cuidadoso, evitou mostrar sinais de grandeza.

"Já tinha casa e por isso comprei um terreno, que agora não vale nada, e investi na educação dos meus filhos. Tenho dois rapazes e uma rapariga. Dois estão licenciados e o mais novo está a acabar Engenharia, mas durante um ano cheguei a ter os três fora de casa, em Lisboa e Coimbra, o que foi bastante dispendioso. Olhando para trás, acho que fiz bem".

DA EUFORIA A UM LENTO DECLÍNIO

Álvaro Luís Medeiros foi o 1.º vencedor do Totobola. No concurso de 24 de Setembro de 1961, o então estudante de Vila Real recebeu um prémio de 223 contos (hoje mil euros). Mas foi só passado um ano que o jogo da Santa Casa da Misericórdia – cujas receitas se destinavam à reabilitação e apoio de modalidades desportivas – começou a dar prémios milionários. A popularidade foi tal que em 1964 estreava o filme ‘Pão, Amor e Totobola’, com Florbela Queiroz.

Nos anos 80 e 90, com o continuar do sucesso, a RTP passou a transmitir ‘Vamos Jogar no Totobola’, um espaço de documentário que terminava com um palpite para o ‘1X2’. Com a chegada do Totoloto e depois do Euromilhões, o jogo perdeu protagonismo. No último concurso, o prémio em disputa era de 32 mil euros. Entretanto, para relançar o Totobola surgiu o Super-14, onde o apostador é desafiado a acertar no resultado do jogo mais importante da jornada.

O VALOR DO DINHEIRO EM 1961

Gira-discos: 870 escudos (4,35 euros)

Frigorífico: 5.000 a 11.000 escudos (25 a 55 euros)

Excursão a Fátima: 120 escudos (60 cêntimos)

1 pão de farinha de trigo: 0,40 escudos (0,001995 cêntimos)

Operário ganha em média por hora: 5,38 escudos (2,69 cêntimos)

Periquito: 15 escudos (7,5 cêntimos)

Máquina fotográfica: 335 escudos (1,675 euros)

Bilhete de cinema: 10 escudos (5 cêntimos)

Moradia na linha do Estoril: 200 contos (mil euros)

Aluguer de quarto: 300 escudos (1,5 euros)

1 quilo de carne de vaca: 29,60 escudos (14,8 cêntimos)

Pasta dentifrica: 5 escudos (2,5 cêntimos)

O INCRÍVEL ANO DE 1961

JANEIRO

Autoridades coloniais reprimem protesto de trabalhadores na Baixa do Cassange (Angola)

Capitão Henrique Galvão lidera o assalto ao paquete ‘Santa Maria’

FEVEREIRO

MPLA ataca a prisão militar, o quartel da PSP e a rádio emissora nacional em Luanda

MARÇO

O delegado norte-americano na ONU vota contra Portugal no Conselho de Segurança

Massacres da UPA contra colonos brancos no Norte de Angola dão início à Guerra Colonial

No Conselho Superior de Defesa Nacional, 17 generais propõem a renovação política do regime

Eleição de Álvaro Cunhal para secretário-geral do Partido Comunista em reunião do comité central

Entre 16 e 18 de Março os pára-quedistas e Força Aérea começam a actuar em Angola

Ponte aérea traz 3500 portugueses do Norte de Angola para Luanda

ABRIL

General Botelho Moniz tenta golpe de estado contra Salazar mas fracassa

O presidente do Conselho diz na televisão nacional: "Andar rapidamente e em força" para Angola

MAIO

Surge na capital o primeiro supermercado português, na praça Duque de Saldanha

São inaugurados os primeiros 23 quilómetros de auto-estrada no País, entre Lisboa e Vila Franca Xira

Sport Lisboa e Benfica conquista a primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus, frente ao Barcelona

Criada Amnistia Inter. devido à prisão de estudantes de Coimbra por causa de protesto contra o regime

JUNHO

Os taxistas são autorizados a conduzir em mangas de camisa

Criado imposto sobre bens supérfluos ou de luxo para financiar o esforço de guerra

AGOSTO

O Daomé exige retirada de portugueses do Forte de São João Baptista de Ajudá. O forte é incendiado

SETEMBRO

Primeiro concurso do Totobola em Portugal com um primeiro prémio de 223 contos

OUTUBRO

Oposicionistas apresentam-se com um programa para democratização da República

Carta aberta de Amílcar Cabral (PAIGC) reclama a independência da Guiné e de Cabo Verde

NOVEMBRO

Mau tempo causa inundações em toda a Baixa da cidade de Lisboa

General Silva Freire, comandante-chefe em Angola, e 14 militares morrem em acidente de viação

DEZEMBRO

"Hoje tive-te especialmente presente na Santa Missa", escreve Cerejeira a Salazar

Holden Roberto, da UPA, é recebido pelo Departamento de Estado americano

Tropas da União Indiana ocupam Goa, Damão e Diu, obtendo a rendição das forças portuguesas   

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