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Correio da Manhã

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Milionários instantâneos

Milhares de portugueses depositam a esperança num pedaço de papel dos jogos da Santa Casa. Sonham em ser como o pasteleiro de Gandarela, que ganhou no Euromilhões e... desapareceu.
12 de Dezembro de 2004 às 00:00
Fiel Martins Barbosa e a sua mulher estavam de férias em Elvas quando receberam pelo telefone a notícia – eram milionários do Totoloto. Quatrocentos mil contos, uma fortuna. Na cidade alentejana, a centenas de quilómetros de casa, em Fanzares, Gondomar, fizeram planos. A vida resolver-se-ia na aposta certeira, dariam até dinheiro aos filhos.
Da mesma forma que o castelo se ergueu, ruiu em cacos. Em Fanzares havia outro Fiel Martins, este dos Santos e não Barbosa – e esse, sim, o milionário.
Em 2003 a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa arrecadou 812.615.115 euros de receitas com as apostas dos jogos (Lotaria Clássica, Lotaria Popular, Totobola, Totogolo, Totoloto, Loto2, Joker, Lotaria Instantânea e Euromilhões). Todos os apostadores que contribuíram para este bolo pensavam o mesmo – ter dinheiro e resolver a vida de forma instantânea.
Foi este ancestral apelo pelos jogos de fortuna e azar, que levou D. Maria II, em 1783, a criar a lotaria como forma de combate às apostas ilegais. Em vez de proibir, regulava a actividade e canalizava as receitas para obras sociais. Durante décadas a taluda foi rainha dos devaneios de quem precisava de dinheiro e não tinha perpectivas de nada a mais que o ordenado.
A supremacia do pregão dos cauteleiros só foi quebrada em 1961 com o Totobola. Semanas depois dos jornais noticiarem o desvio do Santa Maria saiu o grande prémio dessas 42 semanas – 9.526 euros. Num ano de grande instabilidade política, o país consola-se com as apostas no futebol. Era o início da febre do 13 no Totobola.
Entre os que na década de 60 teimavam nos resultados dos desafios de futebol está um jovem pirotécnico de Fafe. Aos 19 anos acerta e vai à televisão receber o prémio das mãos de Artur Agostinho. Para a posteridade a fotografia – o sorriso largo e a expressão de que tudo pode acontecer. Ele segura maços de notas.
CASA, CARRO E FELICIDADE
Nos primórdios do Totobola, o departamento de Jogos da Santa Casa ainda tenta diversificar as apostas. E abre a chave a outras modalidades como o hóquei.
Sol de pouca dura, o futebol é rei e passar-se-iam quase duas décadas até aparecer outro tipo de aposta. Para se acertar no Totoloto bastava escolher seis entre 46 números.
Logo no primeiro ano, o jogo calha de feição a um agente da PSP, que ganha 48 mil contos. Troca a farda e a esquadra pelo táxi que ainda hoje conduz (ver pag. 10), compra a casa com que sonhou e carrega para lá a família.
A maioria dos milionários instantâneos dos jogos da Santa Casa pensa primeiro em suprir necessidades comuns. Num país com um ordenado mínimo de 365,6 euros, onde o endividamento ronda o 118 por cento do rendimento disponível, o prémio de jogo é esperança única para casa ou carro melhores.
TANTA SORTE
No passado dia 27 de Novembro saiu o maior prémio alguma vez atribuído na Europa; quase 44 milhões de euros divididos entre um operário e um pasteleiro portugueses. O Euromilhões é a nova quimera. Portugal ocupa já o primeiro lugar no ‘ranking’ de apostas per capita dos nove países participantes.
A Santa Casa acredita que este novo jogo vai ajudar a combater as apostas ilegais, e as romarias a Espanha à cata de prémio mais chorudo.
Fiel Martins e a mulher nem eram um casal desafortunado, quando construíram o seu castelo de cartas por acreditarem que a sorte no Totoloto era deles.
Por pouco tempo entretiveram-se a fazer planos, a pensar no futuro rosa dos filhos. Por pouco tempo sonharam como doidos com dinheiro. Mas o balde de água fria, provocado pela confusão de nomes, não os inibiu de continuarem a tentar. Sempre.
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