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Ministros deverão cuidar da sua credibilidade

O candidato presidencial diz que a sua eleição vai contribuir para a estabilidade do Governo, referindo que tem características que permitem mobilizar cidadãos, trabalhadores e empresários para uma atitude de maior rigor e competitividade.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Ministros deverão cuidar da sua credibilidade
Ministros deverão cuidar da sua credibilidade FOTO: Pedro Catarino
- Não o incomoda ter um mar de gente a querer tocá-lo, abraçá-lo?
- Ganho nestes encontros um estímulo e uma força para os trabalhos que me esperam. Lido com satisfação e até alguma emoção com estes momentos de campanha de rua. As pessoas querem tocar, querem apertar, por vezes com uma violência boa. Mas, às vezes, as costas sofrem um pouco…
- Se for eleito, não teme ficar aquém das expectativas que estão criadas em torno da sua candidatura?
- Tenho dito aos portugueses que o Presidente da República não tem poderes executivos. E não legisla. Portanto não há promessas para cumprir. O que há são linhas de orientação que inspiram a acção política de um Presidente.
- Não acha que a fasquia da expectativa está muito alta?
- Tenho-me apercebido que os portugueses colocam uma grande esperança no próximo Presidente. Mas os portugueses sabem que quem governa é o Governo.
- Mas na última sondagem do CM, mais de 70% dos inquiridos acreditava que a sua eleição iria ter reflexos na economia…
- Penso que tenho características que permitem mobilizar os cidadãos, trabalhadores, empresários para uma atitude de mais rigor, mais qualidade, mais inovação, mais competitividade.
- Usando que instrumentos?
- Acompanharei a acção do Governo. Procurarei influenciar as linhas de orientação, as estratégias. Mas sempre dentro do que se pode resumir na palavra cooperação. Tenho de fazer tudo para que os portugueses acreditem em si próprios.
- O seu discurso e o do primeiro-ministro, José Sócrates, estão alinhados em muitos domínios. Quem alinhou com quem?
- Se há esse alinhamento, é um sinal positivo para o País. Significa que o Presidente e o primeiro-ministro se podem entender bem em relação aos objectivos nacionais e às linhas de fundo da estratégia para alcançar esses objectivos. É sabido que há muito tempo chamo a atenção para graves problemas do País e para políticas que, quanto a mim, eram erradas.
- Se um Governo não cumprir essas linhas essenciais que estabelece para que Portugal se vire para o futuro, o Presidente da República deve usar os seus “poderes negativos”?
- Espero nunca utilizar os poderes negativos de dissolução da Assembleia ou de demissão do Governo. Esses poderes não me mobilizam. Mas nenhum Presidente deve prescindir deles. Os portugueses em geral, e os políticos em particular, têm de estar muito mais dispostos do que estiveram até aqui a dizer sim à cooperação. E não às querelas estéreis.
- Isso é uma mensagem para os partidos da oposição?
- Noto que mesmo nos partidos da oposição há hoje uma atitude diferente da que existia. A consciência da crise generalizou-se.
- Em concreto, o que pode fazer para trazer a “boa moeda” para a política?
- Um Presidente deve empenhar-se em difundir uma cultura de exigência. Os cidadãos devem ser exigentes em relação àqueles que escolhem, seja para a Junta de Freguesia, para a Câmara Municipal, para o Parlamento. Ou para a Presidência. Com essa cultura de exigência, os agentes políticos sentirão o peso da responsabilidade. É também necessário cultivar a transparência na sociedade portuguesa para acabar com essa ideia tão arreigada na mente dos cidadãos de que há corrupção no Estado. Depois há uma cultura de mérito.
- Mas há corrupção…
- Os indicadores internacionais indicam que há corrupção. Não adianta estar a negar. Mas como dizia, é preciso também insistir na cultura do mérito. Os lugares de destaque da administração pública, dos institutos públicos, das empresas com capitais públicos têm de ser atribuídos em função do mérito.
- As mais recentes medidas legislativas não apontam nesse sentido.
- Talvez não tenham sido modificações felizes. Como não foi feliz ter legislado no sentido dos directores-gerais caírem quando muda o Governo.
- Porquê?
- Porque é mau para a democracia e para o próprio País. O director-geral deixa de sentir-se livre. Poderá pautar a sua acção, não pelo que é bom para o País, mas pelo que pode agradar aos que o colocaram lá. Um director-geral deve estar acima disso. Deve ser nomeado pelo seu mérito. Foi um passo errado que me surpreendeu, até por ter alcançado uma tão ampla maioria no Parlamento.
- Se houver necessidade de segunda volta pode dizer-se que algo correu mal na sua campanha?
- Se houver segunda volta, lá estarei! E com a mesma determinação com que estou nesta campanha. Mas andamos em eleições há dez meses. Era altamente benéfico para o País que a tranquilidade política fosse alcançada o mais rapidamente possível.
- José Sócrates, embora fugindo à palavra retoma, disse que acreditava que 2006 iria ser o ano da viragem…
- É uma expressão na qual me revejo. Acho que a viragem vai ser muito influenciada pelo resultado das eleições.
- A forma como os membros do Governo se estão a envolver nesta campanha vai deixar feridas para sarar?
- Compreendo que outras candidaturas sejam fortemente partidárias. Numa candidatura fortemente partidária, os dirigentes dos partidos sentem a obrigação de se envolver na campanha independentemente das suas convicções pessoais.
- Como reage ao risco de instabilidade que é acenado por altos responsáveis do Governo postos perante a possibilidade da sua eleição?
- Há uma sondagem publicada recentemente que diz exactamente o contrário do que essas pessoas têm dito. Os portugueses sentem que a minha eleição contribuirá para a estabilidade do Governo. Quando alguém faz declarações que não têm a mínima verosimilhança, o descrédito cai sobre quem as faz. Os agentes políticos ficam com a credibilidade atingida sempre que fazem afirmações descabidas ou lançam mentiras grosseiras. Os altos dirigentes políticos do nosso País, pensando até no seu futuro, deverão cuidar da sua credibilidade.
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