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Miss Saigão ou o amor a leste do Paraíso

Num tempo de guerra, há uma ‘miss’ que pede mais do que a paz no Mundo. Sonha com um amor à prova de bala. O desfecho que a sua estória anuncia é trágico.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Miss Saigão ou o amor a leste do Paraíso
Miss Saigão ou o amor a leste do Paraíso
O idílio não pode sobreviver para além das chagas abertas fora do campo de batalha, da dolorosa distância e dos caprichos étnicos. As escaramuças desenhadas pelo Vietname ficam, para sempre, abertas, no corpo e na alma. São estas que alimentam a espiral de emoções e não deixam ninguém incólume. Só o mais grandioso e genuíno perdura no sangue. E no tempo. Imortalizado num espectáculo lendário, que encontra no romantismo clássico a centelha da vitalidade.
Depois de mais de uma década em cena no West End londrino e na Broadway, é a vez do Coliseu de Lisboa hospedar uma das mais belas estórias de amor de sempre. ‘Miss Saigão’, o aclamado musical que, há mais de 16 anos, tem esgotado as salas de todo o Mundo, chega a Lisboa a 17 de Janeiro, na versão original inglesa legendada em português.
A acção tem um fio condutor de carne e osso. Estamos em 1975 e o cenário é a Guerra do Vietname. Um recruta norte-americano, Chris, apaixona-se por uma jovem prostituta vietnamita, Kim, dando origem a uma relação votada ao fracasso. Perdidos de amor, rapidamente se perdem um do outro. Quando as tropas vietnamitas invadem a Embaixada Americana em Saigão, as tropas americanas são evacuadas pelo telhado em helicópteros. Chris, em desespero, procura Kim na multidão durante a retirada. Sem outra chance, é empurrado para o helicóptero que o reconduz à América, deixando para trás uma cidade envolta no caos, a mulher que ama e um filho cuja existência desconhece. Três anos volvidos, já casado, Chris descobre Kim em Banguecoque e vai ao seu encontro. Mais do que a mulher que julgava morta, reencontra os fantasmas da Guerra. É um ponto sem retorno.
Esta abordagem apaixonada e dramática é uma das produções mais arrojadas de sempre do britânico Cameron MacKintosh, responsável por outros casos de sucesso: ‘Os Miseráveis’,‘Fantasma da Ópera’, ‘Oliver’, ‘As Bruxas de Eastwick’, ‘My Fair Lady’ e ‘Mary Poppins’. Mackintosh, dono de sete teatros no West End londrino, revela em ‘Miss Saigão’ as influências de uma das figuras mais proeminentes do meio, Andrew Lloyd Webber, com quem trabalhou na versão britânica de ‘Cats’. O argumento e as letras originais de ‘Miss Saigão’ pertencem a Alain Boubile e a Claude-Michel Schönberg, responsável também pela composição musical, um aconchegante repertório de baladas e melodias.
Estreado em 1989, em Londres, ‘Miss Saigão’, um dos três mais famosos musicais de sempre na história do teatro inglês, já conquistou mais de 31 milhões de espectadores, em 18 países. O espectáculo é um prato cheio de emoções, com o condão de amolecer os corações mais empedernidos. Nos Estados Unidos, a ficção reabilitou memórias dos dramas vividos na primeira pessoa por muitos espectadores. Como qualquer megaprodução que se preze, ‘Miss Saigão’ aposta na pompa e circunstância. Exuberância, coreografias minuciosas, efeitos sonoros de último grito e jogos de luzes delirantes. Todos os detalhes são um colírio para a vista, e concorrem para a intensa carga dramática. O belicismo e a vida boémia são retratados através da reconstituição quase cinematográfica de Saigão, entre 1975 e 1978.
Os espectaculares cenários são explorados por uma equipa de 96 pessoas (entre actores, técnicos e orquestra, contando com elementos que se mantêm no elenco desde a primeira apresentação). O dispositivo cénico muda a cada dez minutos, manobrado pelo grupo de actores, liderado pelos protagonistas Ima Castro (Kim) e Ramin Karimloo (Chris). Sustenham o fôlego para um trajecto de cerca de duas horas e meia, repleto de avanços e recuos temporais, com episódios marcantes, como a famosa ‘cena do helicóptero’, que revela o destino do par. A miríade de adereços credibiliza o retrato da cultura vietnamita e a toada mágica da trama.
No total, são dez os camiões de material que chegam a Portugal. Demorará uma semana até que o palco do Coliseu esteja vestido a rigor para receber o espectáculo. Antes de Lisboa, onde estará duas semanas, havendo a hipótese de prolongamento, ‘Miss Saigão’ esgotou o Palace Theatre de Manchester, em Inglaterra. Antevê-se mais uma corrida às bilheteiras.
VAI GOSTAR SE... é adepto do género do musical, com direito a megaprodução e, sobretudo, de uma belíssima e comovente história de amor, baseada em factos reais.
DE LONDRES PARA O MUNDO
O debute absoluto de ‘Miss Saigão’ aconteceu a 20 de Setembro de 1989, em Londres, no Theatre Royal Drury Lane. Aí permaneceu até 30 de Outubro de 1999, num total de 4263 apresentações. O espectáculo recebeu 29 distinções teatrais, incluindo três prémios Tony. Na versão original, uma das mais complexas em palco, do ponto de vista técnico, trabalharam 266 pessoas. Muitos dos artistas envolvidos vieram de propósito das Filipinas. Em Londres, foi criada uma escola especial para aperfeiçoamento dos dotes vocais e de dança dos actores mais jovens. O musical chegou a 19 países e a 138 cidades. Foi traduzido em 10 línguas diferentes e originou 11 gravações. A produção londrina rendeu mais de 150 mil cópias vendidas ao fim dos três primeiros dias de apresentação.
AS NOVIDADES DE 'MISS SAIGÃO'
A ‘nova’ produção de Mackintosh estreou-se no Reino Unido na temporada 2004/2005, assente num formato ajustável a recintos mais pequenos. O modelo, que se mantém fiel à história épica de Boublil e Schönberg, inclui inovações técnicas e participações de monta. O famoso ilustrador do álbum ‘The Wall’, dos Pink Floyd, Gerald Scarfe, assina a animação visual do número ‘American Dream’. A recriação chega ao ponto da produção importar bambú da Indonésia, para compor o cenário. As indumentárias são réplicas das utilizadas na produção original. Os uniformes dos soldados são genuínos, bem como os respectivos capacetes e as 49 armas de fogo utilizadas. Depois de uma intensa busca pelo Reino Unido, os produtores descobriram um riquexó vietnamita em perfeito estado. Não faltará, assim, um dos elementos asiáticos mais típicos.
'FILHOS DA GUERRA'
A história de ‘Miss Saigão’, baseada na novela ‘Madame Chrysantheme’ de Pierre Loti, popularizada no século XIX e que inspirou a peça e a ópera ‘Madame Butterfly’, de Puccini, tem uma âncora de peso: a história verídica de uma mãe que no final da guerra entrega o seu filho aos soldados americanos para que este seja educado nos EUA. Esta criança é uma das muitas herdeiras das feridas da Guerra. Na sua terra natal, responde pelo nome de Tam, mas também de ‘bui doi’, ou ‘poeira de vida’. A terminologia, uma das cruzes menores dos bebés nascidos de uma relação fugaz entre uma vietnamita e um soldado dos EUA, é também o nome de uma associação americana criada no final da
Guerra para localizar estas crianças. O cenário está materializado numa foto que os argumentista e compositor do espectáculo descobriram, em 1985, no aeroporto de Saigão e que esteve na base da construção dramática do musical. Rejeitado no seu país natal, pelos seus traços ocidentais, Tam acabará por ir para os Estados Unidos à procura de uma felicidade que a mãe não conheceu. Este é um dos condimentos essenciais do musical, espelho real dos momentos vividos durante os sangrentos confrontos no Vietname.
'MISS SAIGÃO'
- Género: Musical.
- Produção: Cameron MacKintosh.
- Actores: Ima Castro, Ramin Karimloo e Jon Jon Briones.
- Classificação: 4/5.
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