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Moita Flores: "Fico de luto por aqueles que mato"

Criou mais de mil personagens em 35 anos. E aprendeu a sofrer por eles nos anos que passou na Polícia Judiciária.
Leonardo Ralha 16 de Abril de 2017 às 15:30
Moita Flores, de 64 anos, fotografado no Martinho da Arcada, onde tem início o seu novo romance
Moita Flores, de 64 anos, fotografado no Martinho da Arcada, onde tem início o seu novo romance FOTO: Sérgio Lemos

Sentado numa mesa do Martinho da Arcada, Francisco Moita Flores explica porque decidiu marcar 35 anos de vida literária com ‘O Mensageiro do Rei’ (Casa das Letras), que começa com o regicídio de 1908 e conta a história de amor do último rei de Portugal por uma atriz francesa.

O que impede que aconteça hoje em Portugal algo como o regicídio
É difícil haver um assassinato político porque quando não gostamos dos políticos mandamo-los para a Europa. Quando se portaram muito mal aqui, e são muito incompetentes, vão para bancos e instituições da União Europeia. Isso evita tragédias grandes, como a morte de D. Carlos e do príncipe herdeiro, Luís Filipe.

Um personagem de ‘O Mensageiro do Rei’ diz que "passaram quase 100 anos e pouco mudou o poder". Reconhece nos políticos atuais os daquela época?
Assistimos a um paradoxo muito parecido ao que se vivia quando morreu a monarquia. Dentro do mesmo partido existem vários tipos de clientelas e os caciquismos continuam a dominar a vida política.

Recorda no livro que o inventor da demissão irrevogável foi o político monárquico Luciano de Castro…
É o que dizem os jornais da época. Quando ele abandonou o Conselho de Estado, veio dizer que a decisão era irrevogável e três dias depois estava lá sentado. Fiquei com a pior opinião dos dirigentes da altura, que estão celebrados em toda a toponímia da cidade. Eram homens completamente desinteressados do país e mais concentrados no seu interesse e poder pessoal, um pouco como se passa hoje nos grandes partidos.

Seria interessante que quem vive nas ruas com os seus nomes soubesse quem eles foram…
Eram capazes de mudar de rua. São homens comprometidos com corrupção, com compadrio, com coisas feias, na altura discutidas com um entusiasmo que se esfumou, e eles ficaram imortalizados na toponímia de Lisboa, como seguramente alguns daqueles de que se fala hoje serão daqui a 50 anos imortalizados na toponímia de qualquer cidade.

O seu desencanto com a política aumentou após a passagem pela Câmara de Santarém?
Não posso dizer que tenha um desencanto com a política. A minha experiência à frente da Câmara de Santarém é algo que me honra, que me enche de orgulho, e sobretudo de afeto pelas pessoas que durante oito anos dirigi.

Mas forçou-o a ter contacto com realidades negativas.
Obrigou-me a conhecer aquilo que são os intestinos da vida partidária. E conduziu-me à repugnância, com uma profunda desilusão não pela política, mas por aquilo que é a vida dos partidos. Estamos sujeitos a ter que dialogar, e às vezes negociar, com indivíduos que são verdadeiros crápulas. Daí a minha distanciação em relação à vida partidária, mas não à vida política.

Apesar de incluir muita política, ‘O Mensageiro do Rei’ é também a história de dois amores impossíveis, um dos quais entre o rei D. Manuel II e a atriz francesa Gaby Deslys. O que o fascina mais nesse romance?
D. Manuel II fez várias tentativas para recuperar a monarquia, mas a única herança que tem como rei é o amor clandestino que viveu com uma atriz francesa célebre. É o legado dele como rei, de um miúdo de 18 anos que aos 20 já estava no exílio.

Acredita piamente que Gaby Deslys tinha amor e não interesse por D. Manuel II?
Estou convencido que sim. Veio a Portugal várias vezes, ao encontro do seu reizinho, num tempo em que vir de Paris eram dois dias num comboio a vapor. Tinha que forçosamente gostar muito dele, porque dinheiro ele não tinha – e havia homens poderosíssimos apaixonados por ela. Tinha que ter uma paixão intensa, prolongada para lá da época em que ele foi rei. D. Manuel II só casa em 1913, já no exílio e sem grandes expectativas de regresso.

No livro aparece um neto de Gaby Deslys a financiar um filme sobre o que aconteceu. Se um neto ou bisneto seu fizesse a mesma oferta a um argumentista ou realizador, qual seria a primeira cena?
Talvez fosse eu numa aula com o meu velho professor de Português, fascinado a ouvi-lo a dizer ‘Os Lusíadas’ e explicar-nos Luís Vaz de Camões. Foi aí que descobri o amor pela língua portuguesa, nessas aulas que já têm quase 50 anos.

Ainda em Moura ou já em Beja?
Em Moura. Foi quando fiz aquilo que é hoje considerado o 9º ano e que na altura era o 5º ano do Liceu. Ele foi meu professor desde o 3º.

Já então se imaginava detetive e escritor?
Imaginava-me detetive porque sou filho da geração que vê democratizada a televisão. Sinto muito meu o filme ‘Cinema Paraíso’ porque ia para as sociedades recreativas com uma cadeira para ver televisão. E sempre me fascinaram os primeiros policiais. Mal saberia na altura que iria escrever tanto para televisão. Desde miúdo, desde os nove ou dez anos, que esses dois sonhos me perseguiram: descobrir mistérios e escrever sobre os mistérios da vida.

Alguma vez pensou que se arriscava a passar ao lado dos sonhos?
Devo dizer que não, convictamente. Nunca sonhei ser rico, nunca sonhei ter poder, mas sonhava um dia poder investigar crimes e poder escrever. Persegui esses objetivos de forma tenaz. Fui dos poucos miúdos da minha turma que resolveram os sonhos da quarta classe. A maior parte dos meus colegas tem uma vida feliz e boa, melhor do que a minha, mas não conseguiu cumprir os sonhos. Eu consegui cumprir os meus.

Recolher elementos para decifrar crimes na Polícia Judiciária foi uma boa escola para ser escritor?
Trabalhei muito com crimes associados à violência contra as pessoas: assaltos à mão armada, homicídios, roubos… Foi decisivo para a minha escrita perceber emoções mais radicais, associadas à morte, ao martírio, ao sofrimento. Isso alimentou muito a minha estrutura literária e a minha forma de escrever.

É verdade que sofre ao matar os seus personagens?
Ter de matar um personagem, por força da construção dramática, é uma coisa muito dolorosa. Algumas mortes ficaram-me para sempre. Matei personagens que não queria matar de maneira nenhuma, porque estava apaixonado por eles. Chorei abundantemente quando matei a Ferreirinha, e ela morreu velhinha e morreu bem, depois de ter comido um belo ensopado de lampreia. Vi-me em aflição para a matar. São cinco ou seis páginas que ainda hoje me comovem. Fico de luto por aqueles personagens que mato. Ao longo da vida já construí mais de mil personagens. Há muitos que passam, mas comovo-me com todos. São uma emanação daquilo que o escritor constrói e, portanto, são parte do escritor. Estamos a matar-nos a nós próprios ao matarmos os personagens. E daí o sofrimento.

Sente-se menos livre ao escrever sobre alguém que existiu mesmo?Faço o possível para ser o mais próximo daquilo que a História nos transmite. Mas como dizia o Eça de Queiroz ao Oliveira Martins, a propósito da sua ‘História de Portugal’, eu também não estava lá. Portanto, a construção quer ser séria e respeitando o testemunho histórico, mas ao mesmo tempo imaginando como é que seria se estivesse lá.

Já abdicou de cenas de que gostava por os produtores de séries e de filmes não terem orçamento?
Devo dizer que sou poupado a escrever para televisão e cinema. Tenho na cabeça o que custa aquilo que escrevo. Por isso, gosto mais do romance. Mas houve cenas que tive de deitar fora, pois eram irrealizáveis.

N’‘O Mensageiro do Rei’ existe um alter-ego seu, o que faz adivinhar que será um romance particularmente pessoal para si.
Foram 35 anos de vida a escrever. Escrevi mais de duas dezenas de séries, novelas, vários filmes e peças de teatro, muitos romances que foram adaptados para televisão ou cinema, adaptei Júlio Dinis, Camilo e Aquilino para televisão. Tudo isto é uma memória de 35 anos que quis entregar à minha autocomemoração. Não fiz jantares, não houve festas, não houve homenagens...

Nem festivais literários.
Nada. Não disse a ninguém. Era qualquer coisa dentro de mim e que era só minha. E quis neste romance deixar essa marca do que foram 35 anos de palavras, deste caminho de palavras pelo qual fui caminhando até esta entrevista. Mas tudo isto organizado de forma a que quem ler o ‘O Mensageiro do Rei’ sem ler a nota prévia nem sequer suspeite de que é uma comemoração do meu percurso enquanto escritor.

Ainda tem muito para dizer?
Temos sempre muito para dizer, pois a vida tem tudo para dizer. Nós estamos cheios de imaginação e de histórias para contar. Escrever sai da vida, nem que seja da vida imaginária, na qual muitas vezes navegamos em naus feitas de sonhos. Daí que a profissão de escritor seja eterna e sem reforma. Termina no dia em que a razão se vai embora ou que entramos no Alzheimer ou numa demência. Sinto que, se tiver sorte e saúde, e o destino assim o permitir, poderei cumprir 50 anos a fazer aquilo que fiz nestes 35.

B.I. 

FRANCISCO MOITA FLORES nasceu em Moura, em 1953. Começou por dar aulas, mas não tardou a cumprir dois sonhos: foi inspetor da Polícia Judiciária durante 12 anos, iniciando nessa altura 35 anos de carreira literária, que celebrou no ano passado. É colunista do ‘Correio da Manhã’ e comentador da CMTV.

Entrevista Moita Flores O Mensageiro do Rei Regicídio Polícia Judiciária Monarquia Escrita Política
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