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Monarcas em tempos difíceis

Escândalos ofuscam família real espanhola. Felipe e Letizia vão ter vida mais difícil do que Juan e Sofia.
27 de Maio de 2012 às 15:01
A família real No dia nacional de Espanha, em 2005
A família real No dia nacional de Espanha, em 2005 FOTO: Susana Vera, Reuters

No próximo dia 30, quando os príncipes das Astúrias pisarem solo português para cumprir a visita a convite do Presidente da República, Cavaco Silva, todos os olhos vão estar postos no casal que um dia sucederá no trono de Espanha. Não pela bela figura do príncipe Felipe, nem pelos saltos altos da sua mulher Letizia. Ensombrada pelos escândalos que envolvem a família real, a discussão sobe de tom. Pode a monarquia sobreviver?

A caçada do rei, a amante alemã, o tiro no pé do neto de 13 anos e as suspeitas de desvio de fundos públicos que pesam sobre Iñaki Urdangarin, marido da infanta Cristina, levaram o povo, fustigado pela crise e por um desemprego que não pára de crescer, a contestar o despesismo e a utilidade da monarquia. Há quem peça um referendo e quem espere que o rei abdique a favor do filho. Juan Carlos mantém-se. Felipe, diz-se, está melhor preparado.

FACHADA COR-DE-ROSA

Amada e bajulada nas revistas cor-de-rosa, a família real espanhola tem larga história, onde não faltam traições, polémicas e gafes. As operações plásticas moldaram os narizes de todos os Borbóns e ganharam nova aliada em Letizia, a inteligência nunca foi alvo de elogio e a costela de conquistador dos homens ficará para a história.

Durante anos, enquanto Espanha crescia em economia e democracia, a imprensa calava os casos obscuros e elogiava o fausto. A crise fez mudar o paradigma. "O rei, a monarquia, era a instituição mais respeitada pelos espanhóis, mas agora não. Estão desiludidos, principalmente depois do episódio da caçada aos elefantes, que tem sido muito comentado", diz Antonio Jimenez, correspondente em Lisboa do diário ‘El País’.

A boémia do rei explodiu num momento pouco indicado. "A sociedade espanhola está a sofrer a pior crise económica debaixo da democracia. Uns meses antes o rei dissera que o desemprego dos jovens em Espanha lhe tirava o sono e depois surge nos jornais, na televisão, caçando elefantes num safari que custa uma soma astronómica por cabeça... Foi a primeira vez que a Espanha se questionou sobre o sentido da monarquia", explica o jornalista.

Os vícios privados dos Borbóns vieram a lume com os livros de Pilar Eyre, jornalista do ‘El Mundo, que há 16 anos segue os Borbóns.


Em ‘Segredos e Mentiras da Família Real Espanhola’ ousou quebrar o tabu e relatar o acidente de 29 de Março de 1956, no Estoril, onde a família viveu no exílio, quando Juan Carlos disparou fatalmente sobre o irmão mais novo, Alfonso. O tiro no pé por Froilan, neto mais velho dos reis, filho da infanta Helena, em Abril, quando passava férias na casa de família, veio avivar a falta de cuidado dos Borbóns no manejo das armas.

No livro seguinte, ‘A Solidão da Rainha’, Eyre revelou a vida conjugal fracassada de Juan e Sofia, o isolamento da rainha, herdeira da família real grega, e o nome da amante do rei, a bela alemã Corinna Zu-Wittgenstein, com quem foi ‘caçado’ no Botswana.

"Sempre houve escândalos abafados. E existia uma espécie de pacto entre os jornalistas sobre tudo o que se passava em redor da família real", diz Eyre. "Ultimamente está a levantar--se o véu, com as redes sociais, o jornal ‘El Mundo’, que começou a falar do caso Urdangarin, e o meu livro, sem o qual ninguém saberia que a princesa Corinna acompanhara o rei na caçada. Os casos são muitos", nota a jornalista, afastada de um programa de TV e chamada à Casa Real, onde o livro "não agradou".

CAÇADA POLÉMICA

Curiosamente, apesar da gravidade de um escândalo de corrupção ligado a um membro da família real e da traição conjugal, é a caçada aos elefantes o que mais incomoda os espanhóis.

"São suficientemente machistas para apreciarem o facto de o rei ter outra mulher, isso é um ponto a seu favor. Mas a questão da caçada afectou a grande consciência ecologista que se nota, sobretudo nos jovens, e mostra uma coisa rançosa, antiquada, que simboliza um safari. Matar animais em África é algo que se perdoa pouco", diz a jornalista.

Eloquente e hábil na arte da sedução, Juan Carlos apressou-se a pedir desculpa por ter ido caçar elefantes em África quando a Espanha se abeira de um resgate. Ainda assim, o carisma não evitou o abalo. A família fez uma visita breve de 50 minutos ao hospital onde o rei foi operado à anca. A festa dos 50 anos de casados dos reis foi "privada".


‘POR QUÉ NO TE CALLAS?’

Colocado no trono pela "graça de Franco" – o general que, de 1939 a 1975, manteve Espanha sob uma ditadura –, Juan Carlos teve uma chegada dúbia ao poder. Nasceu quando família estava no exílio – a monarquia foi deposta em Espanha em 1931 –, foi apoiado por Franco, tomou o lugar do pai, o conde de Barcelona, que renunciou a seu favor, chegou sem fortuna própria e ficou conhecido por ser um "mau aluno", explica Eyre nos seus livros. "A chama, a naturalidade e a empatia que ganha ao falar cinco minutos com as pessoas" fizeram mais por ele do que todas as escolas. "Sabe exactamente como se dirigir às pessoas para as conquistar e esse é o seu capital."

Mesmo a célebre frase que lançou ao presidente da Venezuela Hugo Chávez durante uma cimeira internacional – ‘Por qué no te callas?’– caiu bem aos espanhóis. "Foi visto como algo grandioso. Parece-me falta de educação, mas a opinião pública achou muito bem, consideram Juan Carlos uma pessoa espontânea e valente."

Antonio Jimenez lembra que o rei "fez o seu trabalho sozinho". Após a morte do ‘generalíssimo’, em 1975, "fez a transição para a democracia e ninguém confiava nele, os de esquerda pensavam que era herdeiro de Franco e os de direita que havia traído os princípios de Franco".

Foi o seu comportamento durante o golpe dos generais, a 23 de Fevereiro (23-F) de 1981, "quando sai em defesa da democracia", que manteve Juan Carlos no trono, nota o historiador Fernando Rosas. "Contém o golpe, manifesta-se a favor da constituição, uma atitude decisiva para a duração da democracia em Espanha, e relegitima-se". Ainda assim, segundo o historiador, "em Espanha falta fazer o resto da justiça da queda do franquismo, que é a restauração da república", eleita por sufrágio popular em Fevereiro de 1936. "Foi depois da Guerra Civil (1936-1939) e contra a República que se deu o golpe de Franco", lembra.

Nas muitas visitas que faz ao país vizinho, o historiador nota que, "para a defesa da monarquia, muitas vezes utiliza-se o argumento da unidade do Estado espanhol contra o carácter centrípeto das nacionalidades, sobretudo basca, catalã e galega. No quadro da austeridade que existe em Espanha, a questão das nacionalidades vai agudizar-se. Os conflitos já estão ao rubro, o papel do rei é diminuto e há uma parte da direita que, pela primeira vez, vem publicamente manifestar-se contra o rei".

DESPESISMO E PROTOCOLO

Habituada a veleiros, campos de golfe e temporadas culturais no estrangeiro, os Bórbons sempre foram poupados a revelar a origem do seu dinheiro. Herdeiros de famílias reais no exílio, Juan e Sofia "não tinham fortuna, mas em todos estes anos em que o rei está à frente do Estado terá feito a sua ‘fortunita’", frisa Pilar Eyre.


Com a crise veio também a necessidade de conhecer as contas reais: 300 mil euros anuais para Juan Carlos, revela o ‘El Mundo’; 176 mil euros de salário líquido e 14 600 euros por mês, diz o ‘La Vanguardia’. Para o herdeiro, Felipe, vão 146 mil euros. A rainha Sofia, Letizia Ortiz e as infantas Elena e Cristina dividem entre si 375 mil euros.

Já no que respeita ao séquito da casa real, composto por 500 pessoas, 18 são pagas pela instituição e das restantes, 139 estão a cargo do orçamento do Ministério da Presidência e 350 de outros organismos públicos. Em 2011, o orçamento da família real foi de 8,43 milhões, com o corte de dois por cento, exigido pela austeridade, cai para 8,26 milhões.

Para muitos, o despesismo da monarquia é igual ao da república. "Cada país tem o que merece, o que deseja, e todos os chefes de Estado fazem despesas, gastam dinheiro. Mas é importante notar que em certos países o rei ou o presidente nem governam, são figuras de representação, que seguem uma bandeira", destaca Paula Bobone, especialista em protocolo. E salienta o caso da rainha de Inglaterra, cujas Bodas de Diamante renderam milhares aos país. "É uma fonte de divisas, toda a gente quer ir a Londres, eu própria vou a uma festa de um organismo internacional. E o merchandising rende imenso", diz Paula Bobone. Curiosamente, a rainha Sofia foi a única ausente da festa no Palácio de Buckingham. "Justificável pela contenda entre os dois países sobre Gibraltar", escreveu Jaime Penafiel, que durante anos foi biógrafo oficial da casa real espanhola. "Sinal dos tempos", diz Eyre.

Apesar da contestação, poucos acreditam no fim próximo da monarquia espanhola.

"Uma coisa é ser posta em causa, outra vir a desaparecer. Em Espanha supõe-se que a monarquia é de todos, não é uma questão de alta sociedade. Criticam o rei que está afastado do povo, que não representa, não cumpre as suas funções, mas o inimigo não está fora, está dentro da monarquia", nota Jimenez. E adianta: "A crise até pode ser um perfeito aliado para a monarquia, se souber estar perto do povo. O príncipe é uma pessoa preparada, sabe o que faz e pode vir a converter-se rei num momento muito difícil."

Também o historiador Fernando Rosas acredita que pode existir um referendo "acerca da natureza do regime", mas nota que "Felipe, mais puxado à esquerda do que o pai, melhor preparado, poderia fazer um esforço para se adaptar à situação". Para Pilar Eyre, "apesar de muito simpáticos, Felipe e Letizia não têm o carisma de D. Juan e D. Sofia". O problema, dizem, está nas ligações familiares.

"É natural que a monarquia esteja a sofrer um momento difícil porque houve casamentos fora dos contextos morais e sociais, com pessoas que se apaixonaram. Se fosse rainha, preferia que a minha filha casasse com um príncipe do que com um jogador de andebol", diz referindo-se a Urdangarin. O caso não é isolado. Felipe casou com Letizia, ex-jornalista da classe média, e Cristina está separada de Jaime de Marichalar, excêntrico e ‘bon vivant’.

Aos olhos de muita gente, diz Paula Bobone, estes casamentos descredibilizam. "Há vantagens nos casamentos dentro da mesma classe social, porque os processos educativos dão-se por mimetismo e absorção. A monarquia é sempre mais estética e o povo precisa de referências. Nenhuma criança quer ouvir a história da filha do presidente da república, quer a da princesa".


REI EM CAÇADA CAUSA POLÉMICA EM ESPANHA E NAS REDES SOCIAIS

Em Abril, as fotos do rei de Espanha, Juan Carlos, no Botswana causaram polémica no país. O facto de ter caçado elefantes em tempo de grande austeridade e quando é também presidente de honra da secção espanhola da organização ambiental WWF (World Wildlife Fund) fez cair a popularidade do rei. O caso só veio a lume porque Juan Carlos, de 74 anos, caiu e partiu a anca, tendo de ser hospitalizado. Veio a saber-se que ia acompanhado de Corinna zu Wittgenstein.

SEGREDOS DA FAMÍLIA REAL AGITAM OPINIÃO PÚBLICA

Há mais de 16 anos que a jornalista Pilar Eyre escreve sobre a família real espanhola e revelou histórias sombrias em ‘Segredos e Mentiras da Família Real Espanhola’ e ‘A Solidão da Rainha’ [ed. Esfera dos Livros]. No primeiro, analisa três gerações da família Borbón, seguindo as vidas do conde de Barcelona e dos seus três filhos, Helena, Cristina e Felipe.

Já a vida da rainha Sofia é revisitada em ‘A Solidão da Rainha’. "Creio que depois do meu livro a percepção dos espanhóis sobre a rainha mudou para melhor. Entenderam que atrás da atitude herética havia uma mulher carinhosa, vulnerável, muito ferida no plano conjugal", diz a autora.

NOTAS

VISITA

Os príncipes das Astúrias visitam Lisboa e Braga e vão encontrar-se com empresários e pessoas da cultura.

FELIPE

Nasceu em 1968 e é o mais novo dos três filhos dos reis de Espanha. Tem formação militar e estudou em Espanha e nos EUA.

LETIZIA

Ex-jornalista da TVE e divorciada, casou com o herdeiro do trono espanhol em 2003, num dia de chuva.

CASAL

Felipe e Letizia têm duas filhas, Leonor e Sofia. Caso não haja filho homem, a mais velha poderá herdar o trono.

"TRANSMISSÃO DA MONARQUIA NÃO SERÁ FÁCIL" (Medeiros Ferreira)

- Os escândalos recentes podem ditar o fim da monarquia espanhola?

- Por si só não. A transmissão já não será fácil, requer um comportamento exemplar e que se torne útil para toda a Espanha. Não pode haver caprichos, nem abusos de poder. A monarquia em Espanha prestou um serviço durante a transição democrática, podia não ter sido assim, mas foi. Nós também tivemos o MFA [Movimento das Forças Armadas], as pessoas pensam que é diferente, mas não é. É talvez abusivo fazer grandes analogias entre Portugal e Espanha, mas a monarquia espanhola deu o seu melhor durante a transição democrática. Agora, a sucessão vai ser relativamente menos pacífica do que a emergência de Juan Carlos.

- A que se deve o carisma do rei?

- Porque prestou serviço à democracia e à liberdade. Os povos têm esse sentido de uma instituição que é ou não útil. Também há uma dimensão ideológica. Acredito que os espanhóis não são maioritariamente monárquicos e o que a monarquia tem de fazer é apoiar as comunidades, ser garante último das comunidades autonómicas. Não sei se têm pensamento estratégico sobre isso. Confesso que vejo mais difícil a sucessão do que a implementação da monarquia em Espanha.

- A dificuldade surge da figura de Felipe ou da monarquia em si?

- Tem a ver com o papel histórico que a monarquia já desempenhou, foram 30 anos de um serviço prestado. Só nos últimos tempos é que se começou a deteriorar o contacto com a Casa Real, a monarquia, e a opinião pública. Não ousaria fazer uma previsão peremptória sobre o fim da monarquia. Tem de mostrar de novo utilidade, contenção e serviço público.

- A contestação pode ressuscitar a questão das nacionalidades?

- As comunidades autónomas estão a ser o bode expiatório do governo de Mariano Rajoy. As despesas das comunidades é que servem para justificar a derrapagem financeira do orçamento de Espanha. E, neste contexto, quem defender as autonomias ganha o país. Esse papel pode ser da Casa Real, se tiver pensamento estratégico, que não sei se tem.

- Felipe está preparado?

- Não sei dizer, tem um papel simbólico. Lembro sempre o nosso D. João I, que fundou uma monarquia e não sabia reinar, como o próprio disse, segundo Fernão Lopes. Há uma deterioração da imagem, os escândalos acabarão por ter um papel perturbador.

- Como se justifica que Espanha seja o único país do Sul da Europa que mantém a monarquia?

- Foi a transição de uma época de ditadura para uma democracia, um estratagema de Franco e os próprios partidos políticos espanhóis mostraram sempre muita adesão. Talvez seja a Catalunha a região que mais exija a república.

- E o apoio a um rei que foi colocado por Franco?

- Foi uma forma da sociedade espanhola aceitar a transição com tranquilidade. O passado sangrento da Guerra Civil esteve presente e o caso português foi um pretexto, não parece que tenha tido papel relevante nessa solução, na qual Franco já tinha pensado há muito tempo.

- A democracia, no contexto de crise, pode ser posta em causa?

- Posso citar um relatório da Comissão Europeia em 1962, sobre os estados peninsulares. Chamaram-lhe o ‘apêndice ibérico não democrático’. Mas não estou a dizer que Portugal e Espanha venham a ser os primeiros países a claudicar o estado democrático, estão vacinados contra as ditaduras. 

LETIZIA ORTIZ ROCASOLANO: OS ESTILOS DA MULHER DE 37 ANOS QUE É PRINCESA DAS ASTÚRIAS

Quando apareceu num fato de calça e casaco branco, com expressão decidida e voluntariosa, para anunciar o compromisso oficial com o príncipe das Astúrias, Letizia parecia anunciar também uma mudança na Casa Real espanhola. Mas a verdade é que, com o passar dos tempos, a ex-jornalista, nascida em Oviedo, em 1972, acabou por se moldar à monarquia.

Seguida pela imprensa cor-de-rosa, tem sido falada pela mudança de visual, falta de proximidade à família real, nomeadamente às cunhadas Helena e Cristina, e pouca afectividade com a sogra, D. Sofia. Filha de uma enfermeira e de um jornalista, divorciados, Letizia foi também criticada pela sua ascendência plebeia.

PLÁSTICAS

Viciada em plásticas desde 2004, é uma das pacientes do Dr. Chams, que cobra entre mil e 12 mil euros.

SAPATOS E MALAS

Letizia usa malas a condizer com os sapatos de salto alto (tem menos 30 centímetros do que o marido).

VESTIDOS

Descontraída, ou mais formal, a princesa não consegue esconder a magreza excessiva do pós-casamento.

PEDRAS E BRILHOS EM ROUPA DE FESTA

Vestida por estilistas espanhóis, Letizia adoptou um estilo próprio, sóbrio e elegante, que muitos dizem ser inspirado em Rania, da Jordânia.

CABELOS: SOLTOS, LISOS, ONDULADOS E PRESOS

A mudança de penteados tem sido um dos trunfos da princesa para se distinguir nos actos oficiais. Letizia aprendeu cedo a seguir o protocolo. 

Casa Real Espanha Juan Carlos Letizia
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