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Correio da Manhã

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Morada de hóspedes excelentíssimos

Houve um tempo em que só de gravata ou camisa desportiva de manga curta se podia entrar no Vidago Palace Hotel. Lá se hospedaram presidentes e gente endinheirada que ia curar maleitas.
26 de Novembro de 2006 às 00:00
Morada de hóspedes excelentíssimos
Morada de hóspedes excelentíssimos FOTO: Sérgio Lemos
O dia 31 de Maio de 1973 foi de corrupio no Vidago Palace Hotel. O barman Henrique Roxo, 58 anos, 35 atrás do balcão, lembra-se bem da azáfama. Era preciso que tudo estivesse em ordem para receber o almirante Américo Tomaz. O nome do último Presidente da República antes do 25 de Abril de 1974 ficou inscrito, em letra suavemente inclinada para a esquerda, no ‘Livro de Registos dos Excelentíssimos Hóspedes do Vidago Palace’. Oliveira Salazar é outro entre os “excelentíssimos”. Mas, na última noite, de festa, antes da projectada remodelação do quase centenário hotel, o Livro de Registos, atrás da vitrina, encontra-se aberto na página amarelecida que testemunha a estada do Dr. Egas Moniz e esposa, sem nome próprio, tal como o ‘chauffeur’ do presidente do Conselho.
Os convidados de Pires de Lima, ex-deputado do CDS-PP e actual presidente da Unicer – empresa proprietária do Vidago Palace e da água mineral que brota no parque circundante – descem os lances cruzados da escadaria do átrio. Os homens vestiram ‘smoking’ e puseram laço. Os vestidos das mulheres acariciam os degraus de madeira. Do seu posto, o barman observa, sorridente: “Parece que estamos a voltar ao tempo antigo.” No tempo antigo a ‘saison’ inaugurava-se com uma festa no grande salão de música, animada pelo quarteto privativo do hotel.
Num tempo ainda mais antigo, quando o século XX era uma criança, a revista ‘Ilustração Portuguesa’ qualificava o Vidago Palace entre “os mais notáveis hotéis do Mundo”. Podia havê-los maiores, “mas não mais confortáveis nem mais ricos nas decorações e no mobiliário.” Nele tinha a ‘Empreza’ – assim mesmo, com maiúscula e ‘z’ – despendido cerca de 300 contos, “sem hesitar diante de qualquer sacrifício”.
O homem certo para inaugurar tão “magnífico palácio” era ninguém menos do que D. Manuel II. Marcou-se o festim para o dia 6 de Outubro de 1910 e o monarca de boa vontade cortaria a fita não tivesse a República eclodido na véspera. Foram-se os reis, mas ficou o ‘grand hôtel’, baseado num modelo francófono que deu origem a outros, famosos, no centro da Europa.
Os pobres alojavam-se nas pensões da vila. Entravam no parque do Palace só para beber a água mineral que lhes receitara o médico e voltavam ao quarto contando tostões. O tratamento lúdico das maleitas era reservado aos que se albergavam no hotel de fachada pontilhada por enormes janelas.
O ar arrefeceu ou então são as memórias de Rosalina Carvalho, 82 anos, que a levam a cruzar sobre o peito, como um xaile, o casaco de malha. Depois do almoço foi, com a família, passear pelo parque, entre as árvores que o Inverno vestiu de amarelo e vermelho. “Trabalhei aqui 41, quase 42 anos. Fiz de tudo. Também distribui água na fonte n.º 1. Faziam fila para lá do portão.”
Na avenida que conduz à fonte Salus, onde Rosalina engarrafou, havia cerejeiras. “Lembro-me de que chegávamos mais cedo para apanhar duas ou três cerejas. Ralhavam-nos porque as roubávamos.” Lembra-se ainda da árvore, de tronco tão largo que não se deixa abraçar, uma “pterocaria do Cáucaso”. Já ali estava muito antes de ela ter chegado para lavar garrafas.
Em 2008 o Vidago Palace Hotel reabre “com outras condições”, assegura Pires de Lima. O arquitecto Siza Vieira – em menino alojou-se lá com os pais, excelentíssimos hóspedes – é o autor do projecto que prevê a remodelação do grande hotel, para que passe a cinco estrelas, a construção de um moderno SPA e a ampliação do campo de golfe. Rosalina espera poder continuar a passear pelo parque. Depois do almoço.
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