Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

“Moral da companhia ia abaixo quando morriam camaradas”

A morte do furriel Freitas foi estúpida, mas ninguém teve culpa. Foi por causa de uma mina telecomandada.
Marta Martins Silva 26 de Abril de 2020 às 14:00

Chegámos à Beira pelas dez horas da manhã do dia 26 de janeiro de 1972 num Boeing 727 porque, nesse ano, as tropas começaram a ser transportadas por avião. Este transporte, além de ser mais rápido, era muito mais confortável. Apenas tinha um senão que as hospedeiras eram cabos da Força Aérea! Da Beira seguimos, no dia seguinte, para Porto Amélia, onde pernoitámos uma noite. Daqui fomos para Palma, numa corveta da Marinha, durante uma noite de desembarque inesquecível.

Como não havia cais para atracar, descemos para um batelão e daí o transporte para terra foi feito às cavalitas dos habitantes locais. Já não me recordo do preço do ‘bilhete’ mas penso que era à vontade freguês. Estivemos em Palma, dois ou três dias e, em seguida, fomos numa coluna até Nangade que fica mais ou menos a cem quilómetros do destino final, Tartibo, embora por pouco tempo porque, no dia de Páscoa desse mesmo ano, mudámos de resort para Muidine, o qual tivemos de construir de raiz. Diga-se que, nessa mesma noite, as boas-vindas que tivemos foi um ataque à morteirada.

Primeira operação
A primeira operação que fiz foi passado pouco tempo de chegarmos ao Tartibo. Eu e o meu pelotão tivemos de ir fazer proteção a uma coluna que fazia, regularmente, o transporte de alimentos e outro material, entre Palma e Nangade. A nossa missão era fazer a picada que consistia em detetar possíveis minas anticarro, numa distância de mais ou menos vinte quilómetros. Para o efeito, usávamos dois ancinhos com os cabos cumpridos e dois detetores de metais. Era uma missão difícil porque, além da distância e do calor, exigia concentração e havia sempre o perigo de emboscadas.
Felizmente correu muito bem porque detetámos uma mina anticarro e as ordens que tínhamos era para detoná-la e nunca tentar levantá-la porque podia estar armadilhada. Então, com bastante perícia e alguma calma, fiz a detonação como tinha aprendido na instrução. Esta ação foi muito boa para o moral do pelotão e pela confiança que, a partir daí, ainda mais depositaram no comandante do seu pelotão.

Os momentos mais marcantes foram, sem dúvida, aqueles em que algum camarada morria. O moral da Companhia ia muito abaixo. O final da comissão, psicologicamente, também foi muito preocupante, pela ansiedade que víamos em todo o pessoal, uma vez que já tínhamos terminado o tempo da comissão no dia 25 de janeiro de 1974 e nunca mais nos diziam quando é que regressávamos. O tão ansiado regresso só se efetuou na madrugada do dia 8 de junho de 1974.

A única morte que aconteceu comigo foi, infelizmente, durante uma coluna que eu ia a comandar, a de um furriel que eu estimava muito. Além disso já era casado e tinha filhos. Uma morte estúpida, mas ninguém teve culpa. Foi numa zona onde nunca tinha acontecido nada e, por isso, achei que não era necessário picar aquele troço da picada.

Passaram as quatro primeiras viaturas sem problema, mas à quinta uma mina telecomandada fez acontecer o pior. Essa viatura era ocupada por populares que com o impacto do rebentamento foram projetados e caíram em cima do nosso estimado furriel Freitas, o que lhe provocou hemorragias internas.

Mas nunca sofri nenhuma emboscada e, excetuando alguns ataques com morteiros, nunca fomos incomodados com assaltos diretos. Por vezes, quando começava a anoitecer, havia um engraçadinho ou outro que dava uma pancada seca no zinco dos ‘apartamentos’ onde vivíamos, que dava a sensação que era um morteiro, ao longe, a lançar granadas. Eu não hesitava e era sempre dos primeiros a enfiar-me no buraco. E por ser tão rápido, alguns camaradas até me chamavam o ‘Bip-Bip’.

Depoimento de: António Martins Rodrigues 
Comissão: Moçambique (1972/1974)

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)