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“Morreram nove soldados numa emboscada no mato"

Militares que não tinham respeito pela população foram atacados, por vingança, quando regressavam de uma missão
Manuela Guerreiro 5 de Abril de 2020 às 13:00
“Morreram nove soldados numa emboscada no mato'
Joaquim Manuel Cortes
“Morreram nove soldados numa emboscada no mato'
Joaquim Manuel Cortes
“Morreram nove soldados numa emboscada no mato'
Joaquim Manuel Cortes

Deixámos Santa Margarida com destino a Lisboa numa noite de novembro, muito fria. Saímos de madrugada. Chegados à Rocha do Conde de Óbidos, até o café com leite soube bem. Estava um frio de rachar. Para mim foi uma despedida normalíssima, já estava habituado àquilo. Trabalhava na Marinha Mercante, como empregado de câmara, prestava serviço de mesas no salão de primeira classe, no navio ‘Vera Cruz’. Tinha 21 anos e disse à minha mãe: ‘Não chores, vou ali e já volto.’ Embarquei precisamente no ‘Vera Cruz’, às 11 horas do dia 17 de novembro de 1971. Largámos já passava do meio-dia. Terá sido a última viagem no ‘Vera Cruz’ alugado porque os soldados passaram a ir de avião.
O meu batalhão tinha de viajar no porão, era um cheiro que não se podia. Como tinha muitos conhecimentos a bordo, falei com o comissário que me arranjou um camarote na terceira classe. Muitos não sabiam, mas aquele barco tinha tido um acidente a 26 de maio de 1970. Eu estava lá como tripulante. O navio vinha de Moçambique e foi abalroado às 04h25 por duas ondas gigantes. Não morreu ninguém, mas ficámos debaixo de água. O navio transportava cerca de três mil pessoas, incluindo a tripulação. Entraram oito toneladas de água no porão, que vinha cheio de militares.

Imprevistos na viagem

A viagem deveria ter levado nove dias, só que tivemos alguns imprevistos. Já tínhamos passado a Madeira quando se agravou o estado de saúde de um militar que tinha batido com a cabeça no fundo da piscina do navio, fraturando o crânio. Dado o estado do rapaz, o barco teve de voltar ao Funchal. Não é fácil virar um navio daquele tamanho e a manobra levou muito tempo. Lá deixámos o doente e voltámos ao nosso trajeto. Apanhámos mau tempo entre Porto Santo e o Funchal, com correntes marítimas muito fortes. Muitos ficaram enjoados e passaram um mau bocado.

Já estávamos perto do Equador quando se deu o segundo imprevisto. Um camarada do Montijo, que estava à ré a olhar para o mar, viu uma pessoa na água. Toca a virar o navio outra vez. Foi lançado um SOS porque, nestas situações, é obrigatório os barcos responderem ao socorro. A baleeira foi arriada e o homem recolhido. Era um tripulante que terá tido um esgotamento. Perderam-se 24 horas com estes dois atrasos.

Chegámos a Luanda a 27 de novembro. Depois seguimos para o campo militar do Grafanil, a cerca de oito quilómetros do centro da cidade. Ainda fiquei por ali uns 15 dias e depois segui para Norte. Partimos direitos a S. Salvador do Congo (hoje M’Banza Congo), mas o nosso destino era Cuimba, que ficava a 80 quilómetros de S. Salvador. Ficámos lá 27 meses.

Apesar de estarmos numa  zona de guerra nunca fomos atacados. O primeiro militar do nosso batalhão que perdeu a vida morreu num acidente. Mas houve um grupo de combate, que não respeitava a população, e que foi vítima de uma vingança. Eram soldados que abusavam um pouco e já tinham sido avisados nas aldeias. Um dia, esse grupo regressava do mato e caiu numa emboscada, na zona de Magina. Era uma mata muito cerrada e um local extremamente perigoso. Os militares estavam a ser rendidos e o inimigo deixou passar o outro grupo, atacando os que regressavam. Morreram nove pessoas.

Eu pertencia às transmissões. Por norma, os operadores cripto e os de mensagem não iam para o mato. Trabalhavam 24 horas por dia e havia rendições a cada 8 horas. As transmissões eram essenciais no aquartelamento. A mensagem que mais alegria me deu foi a que dizia que íamos ser rendidos. Fomos substituídos por um batalhão cujo 2º comandante era o futuro general Ramalho Eanes. Regressei em fevereiro de 1974.

Depoimento de: Joaquim Manuel Cortes
Comissão: Angola (1971-1974)

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