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“Morreram três dentro do carro"

Fui para Moçambique render um soldado morto e lá vi camaradas perderem a vida em combates e emboscadas.
Marta Martins Silva 27 de Maio de 2018 às 13:01
FOTO: Direitos Reservados

"Embarquei no ‘Niassa’ com destino a Moçambique a 18 de maio de 1968, o dia em que cumpria precisamente 23 anos. A minha querida e jovem esposa Anita, esperava a chegada do nosso primeiro bebé que nasceu a 21 de maio, três dias depois de eu ter partido para a guerra. Quase um mês depois da nossa saída de Lisboa, o ‘Niassa’ atracou no porto de Lourenço Marques. Ainda a bordo, recebi ordens de apresentação perante um oficial militar. A minha situação militar era de rendição individual ao posto de um soldado condutor, tombado em combate na frente de guerra, na província de Cabo Delgado.

Curiosamente, eu e este oficial que nos esperava já nos conhecíamos do continente e ele disse-me que, uma vez que eu já era casado e pai de uma linda menina, ele não me mandaria para Mueda, a terra da guerra, lá bem no norte de Moçambique.
O nosso Brigadeiro General 3 estrelas tinha requerido condutor militar para o serviço exclusivo do transporte de duas filhas que estudavam direito na Universidade de Lourenço Marques, e também para fazer recados de compras no bazar municipal e lavar as suas viaturas militares e privadas. ‘Que guerra vai ser esta para mim?’, pensei para comigo. Então decidi: vou aceitar o meu destino, que não foi Deus certamente que mo destinou, mas sim homens que nunca eu antes tinha conhecido e não me conheciam também. E disse-lhe: ‘Meu tenente, se o meu destino é ir a Mueda, é para Mueda que eu vou’. Antes do adeus e boa sorte, o meu tenente pronunciou-me palavras que não vou esquecer nunca mais: ‘Cabral, lembra-te sempre do que agora te digo: para a nossa amada pátria de Portugal, vale mais um cobarde a combater do que um grande herói morto’, e ali nós dissemos adeus com um forte abarco de combatentes da mesma guerra.

Dores de guerra

No dia 10 de agosto de 1968 foi o meu batismo de fogo, no combate em ataque dos guerrilheiros da Frelimo sobre o nosso aquartelamento de Mueda e do Esquadrão de Cavalaria 2. Jogava às cartas com companheiros de armas no bar da Intendência quando, de repente, ouvimos fortes estrondos e não eram os astros zangados, estávamos sim a ser atacados com fogo de morteiro pesado tipo 81.

Os guerrilheiros da Frelimo tinham-se aventurado muito perto dos aquartelamentos de Mueda. Peguei no meu capacete de aço e na metralhadora ligeira G3 e corri às trincheiras, na retaguarda do dormitório. Os rebentamentos a martirizar-nos os ouvidos e a alma. Era o meu primeiro combate contra um inimigo que eu não via nem conhecia. Depois eu soube que éramos oito homens na trincheira, e contra os rebentamentos das granadas de morteiro ouvi gritos angustiados dos companheiros feridos. Na penumbra da escuridão e das trevas que nos envolviam socorri os meus companheiros feridos, e deixei-os nos primeiros socorros e voltei às trincheiras.

Lembro-me como se fosse hoje do João Grande agarrado a uma pesada Browning, que tem um matraquear de fogo que arrepia a alma de qualquer um...

E como esquecer o Silva que morreu com um estilhaço nas costas, despedaçado pelo fogo e pelas balas? Este primeiro combate foi o mais marcante porque morreram três camaradas, todos dentro do meu carro, e eu estou aqui. Não há palavras que descrevam. Tantos homens que eu tive que preparar para meter no caixão.

Ainda não tinha terminado a minha comissão, em março de 1970, quando a minha esposa e a minha filhinha Ana Cristina me apareceram de surpresa em Nampula, onde eu estava naquela altura, noutra fase da guerra. Deveríamos ter regressado a Portugal em outubro mas, como não pagavam a viagem de regresso à minha família, optei por ficar em Moçambique com elas. Depois da revolução de abril fomos para a África do Sul e só regressámos a Portugal definitivamente em setembro de 2016."

Testemunho de

Nome
Carlos Cabral

Comissão
Moçambique (1968-70)

Força
Esquadrão de Cavalaria nº 2

* Info 
73 anos,vive em Lagos, é casado, tem cinco filhos e cinco netos

Cabo Delgado Ana Cristina Niassa Intendência Moçambique Anita
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