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Mulheres são capazes de tudo

Esforçámo-nos, lutámos e vencemos. Os machistas que se cuidem.
Maria Filomena Mónica 10 de Novembro de 2019 às 09:00
FOTO: Direitos Reservados

No último dia 28 de outubro, as astronautas Jessica Meir e Christina Koch saíram da Estação Espacial Internacional para o primeiro passeio orbital sem a participação de homens. O objetivo era o de repararem as baterias de uma dessas estações que andam sobre as nossas cabeças. Durante cinco horas e meia, trabalharam fora da cápsula, tendo desempenhado a tarefa, uma prova, se mais fossem necessárias, de que somos capazes de tudo.

Para as minhas netas, isto nada tem de especial. Como eu vivo no século XIX, sei o que, mesmo nos círculos de esquerda, foi a opressão feminina. Por mero acaso, tenho andado a ler biografias de mulheres oitocentistas. Começo pela mais desconhecida, Ada Lovelace, filha de famoso Lord Byron. Foi ela quem inventou o primeiro algoritmo a ser processado pela máquina que viria a ser aperfeiçoada por Charles Babbage. Sem ela, não teríamos computadores. Enquanto a menina brincava com números, o pai deambulava pela Suíça, onde, em 1816, conheceu Shelley, o poeta que passou a fazer parte do grupo que juntara à sua volta.

O casal Shelley e Lord Byron passavam muito tempo a conversar. Um dia, mencionaram contos envolvendo fantasmas, o que levou Byron a propor a Shelley e à sua mulher Mary – filha de M. Wollstonecraft - que escrevessem, cada um, um texto repleto de horrores. De um jato, Mary escreveu ‘Frankenstein’, livro publicado anonimamente em 1818. Acabo de o ler, tendo ficado espantada com a forma como aquela rapariguinha havia sido capaz de inventar os dois seres, Frankenstein e o monstro (o nome é do primeiro, não do segundo). Durante muito tempo, houve quem declarasse ter a obra sido escrita não por ela mas pelo marido, o que não era verdade. Uma coisa mais aberrante sucedeu no caso de Dora, a filha preferida de Wordsworth. Em 1847, escreveu um retrato admirável de Portugal, ‘Journal of a Few Months’ Residence in Portugal and Glimpses of the South of Spain’, cuja publicação o pai tentou impedir. O livro acabou por sair, mas sem o nome da autora.

Veja-se, por fim, o que sucedeu no caso das irmãs Brontë. Eis o que Southey disse a Charlotte, quando esta lhe mencionou a intenção de publicar uns poemas: "A Literatura não pode ser uma ocupação feminina nem o deveria ser. Quanto melhor estiver a mulher a cumprir os seus deveres no lar, menos tempo terá para o fazer, o que não contribuirá nem para a sua realização nem para um seu passatempo." Ela não desanimou, mas teve de aceitar que ‘Jane Eyre’ fosse publicado sob um pseudónimo masculino, o mesmo tendo sucedido no caso da irmã Emily, que nos deixou ‘O Monte dos Vendavais’, o mais admirável romance do século XIX. Esforçámo-nos, lutámos e vencemos. Os machistas que se cuidem.

Um génio do humor

Acabo de ler uma autobiografia que recomendo: ‘So, Anyway’, de John Cleese, dos Monty Python, o grupo que mudou radicalmente os programas de humor televisivo. Numa altura em que, em Inglaterra, meninos ricos, arrogantes e mimados andam a fazer diabruras no Parlamento, sugiro que revejam – vem na Net – ‘The Tweet of the Year’.

autobiografia intelectual

Outra recomendação: a autobiografia intelectual de Mário Vargas Llosa, ‘O Apelo da Tribo’. Este escritor e cronista peruano fala-nos dos autores que, ao longo da vida, o influenciaram e que o ajudaram, depois das desilusões com a Revolução Cubana e do afastamento do existencialismo, a transformar-se no liberal que hoje é.

Facebook:os perigos

Todos os que estejam interessada na preservação das democracias liberais devem ouvir o que Carole Cadwalladr diz sobre os perigos do uso do Facebook em eleições e sobretudo em referendos (neste caso, o Brexit): https://www.ted. com/talks/carole cadwalladr  facebook s role in brexit and the threat to democracy?language=pt

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