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Na cirurgia não há milagres

Foi um acidente absurdo, aquele da última quarta-feira de Outubro. Subitamente, quando manobrava uma máquina de dobrar chapas, o Pedro, de 21 anos, ficou de um lado e as suas duas mãos do outro. Duas horas depois, no Hospital de S. João, no Porto, a cirurgiã Marisa Marques e duas dezenas de médicos e enfermeiros recusaram as ironias do destino e atreveram-se desafiá-lo.
29 de Janeiro de 2006 às 00:00
Na cirurgia não há milagres
Na cirurgia não há milagres FOTO: Ricardo Meireles / Storibox
Ao longo de 18 horas, os especialistas de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva, Estética e Maxilofacial e de Ortopedia, lutaram contra a exaustão, num trabalho de delicada precisão e infinita persistência, na tentativa de devolver as mãos ao jovem serralheiro.
Pedro deverá recuperar cerca de metade da funcionalidade e sensibilidade das mãos, o que lhe garante uma autonomia libertadora. Para Marisa Marques, aos 34 anos, estas são as recompensas que dão sentido a uma vida.
- Foi uma operação complicada?
- Digamos que não foi simples. Num caso como este, quando se leva a cirurgia até ao limite, as coisas podem correr mal.
- Há factores incontroláveis para um cirurgião?
- Numa reimplantação o tempo é crucial, pois é fundamental restabelecer a circulação sanguínea o mais rapidamente possível. Num caso como este em que se reconstituem artérias e veias, se vai buscar veias ao antebraço, se fazem ‘bypasses’, a circulação pode parar. Então, nós refazemos e refazemos. Mas há um limite para este parar e recomeçar.
- E esse limite é decidido no decorrer da intervenção?
- Creio que sim. Se uma pessoa, num acidente, ficou sem um dedo, a zona do corte poderá estar mais ou menos destruída. É sempre preciso retirar essa zona destruída, encurtando ligeiramente o dedo. Se a circulação restabelecida é interrompida, ou há um mau funcionamento arterial ou venoso, é necessário refazer. Uma e outra vez. Também há casos em que no decorrer da reimplantação, constatamos que não é possível concretizá-la.
- Cada ‘refazer’ condiciona as possibilidades de sucesso?
- Cada re-anastomose diminui as probabilidades de êxito. Ao reconstituir uma artéria, uma veia, e registando-se uma tendência para trombosar (parar), o corte pode criar um ‘gap’, uma distância, para a qual não há enxerto venoso fiável.
- E levar ao limite condiciona também o sucesso?
- Numa reimplantação, os primeiros 10 a 15 dias pós-operatórios são periclitantes. A circulação no membro pode parar. Normalmente, retiram-se coágulos e refaz-se o que tiver de se refazer. Numa cirurgia que foi levada ao limite, em caso de complicações, pouco podemos fazer.
- Esta foi uma intervenção inédita?
- Rara. Não se fazem macro-reimplantações – mãos, antebraços ou pernas – com muita frequência. Casos de bilateralidade são muito raros. Lembro-me de um caso em Coimbra, levado a cabo pelo ortopedista Abel Nascimento, também divulgado mediaticamente. E há uma dezena de anos, o dr. Jorge Reis, um dos chefes de Serviço, reimplantou duas pernas, com o dr. Álvaro Silva e respectiva equipa cirúrgica.
- O caso do Pedro correu bem.
- Correu bem. O Pedro vai manipular ambas as mãos. Deverá recuperar 40 a 50 por cento, o que lhe permite uma grande autonomia no seu dia-a-dia. É um doente extremamente colaborante. Quase tudo depende agora do Pedro e da Medicina Física e Reabilitação, isto é, da fisiatra drª Maria José Festas e dos fisioterapeutas que estão a dar o seu melhor! Contudo, poderá ainda ter que ser submetido a novas intervenções cirúrgicas tanto do ponto de vista ortopédico como plástico.
- Sente-se recompensada?
- Muito. A nossa vida pessoal muitos dias está presente na nossa actividade profissional e vice-versa. Eu levei o Pedro para casa muitos dias.
- Mas também há o reverso da medalha...
- Os insucessos marcam muito. O principal é eu sentir que fiz o meu melhor. Claro que posso sempre colocar em causa a opção cirúrgica que escolhi, mas tento sempre fazer tudo o que estava ao meu alcance.
- A recompensa foi devolver qualidade de vida a um jovem?
- Não se trata de uma proeza pessoal. Qualquer outro de nós, no nosso Serviço, teria certamente feito o mesmo. E tanto falo do plano científico como do humano. Confesso que já disse ao Pedro que as mãos dele também são um bocado minhas, mas, na verdade, o que lhe devia ter dito é que elas são um bocado nossas, pois foram muitos os que estiveram envolvidos.
- Quantos?
- Mais de duas dezenas, e todos com o mesmo empenho. Cirurgiões plásticos, ortopedistas, anestesistas, enfermeiros ou psicólogos, enfim, muitas pessoas participaram. Até o médico do Serviço de Sangue esteve toda a noite mobilizado, bem como o Chefe de Equipa do Serviço de Urgência.
- Porque se tratava de um caso especial?
- Nada disso. No nosso Serviço temos uma cultura de profissionalismo e de envolvimento muito grande. Médicos, funcionários ou pacientes, formámos uma família. Cuidamos e dependemos uns dos outros. É uma atitude de vida. Foi a que encontrei no serviço no S. João, é aquela que os internos que chegam rapidamente assimilam. Se eu telefonar a um colega que está de folga para lhe pedir uma opinião, o mais certo é ele aparecer-me no hospital pouco depois. O mesmo é válido para a equipa de urgência à qual pertenço, chefiada pelo dr. Afonso Esteves.
- Portugal tem boa formação profissional?
- Da melhor do mundo, atrever-me-ia a dizer. Estive em vários países como aluna, da Alemanha à Eslovénia ou Espanha e no quinto ano da especialidade de cirurgia plástica estive em Taiwan (Taipé), onde apurei técnicas de microcirurgia, relacionada com a parte reconstrutiva e de reimplantação, e nos EUA (Dallas) com maior ligação à estética da face e reconstrução crânio-facial e investigação científica em próteses mamárias. Os internos do Serviço estão bem preparados, e tal como eu todos vão para o estrangeiro no quinto ano, muito por obra do Director do Serviço, Professor Doutor José Amarante – e aqui devo incluir os orientadores de internato, que no meu caso foi o dr. Apolino Martins – adquirem competências que os fazem sentir seguros de si.
- A cirurgia estética tem-se desenvolvido imenso ao longo dos últimos anos…
- Sim, como todas as áreas médicas e cirúrgicas. Contudo, o conceito de estética é discutível uma vez que estamos numa era de obesidade muito marcada. Há muito de “reconstrução” nessa abordagem estética. E depois lidamos com factores psicológicos muito fortes, como o da auto-estima. E isso tem a ver não só com a felicidade individual como com a produtividade desse cidadão, pelo que alcança um âmbito de interesse geral.
- Mas não há uma busca por uma representação de beleza?
- Há, evidentemente. Saliento, no entanto, que os pacientes têm que ter consciência que nós apenas podemos aumentar um nível ou dois à sua forma/beleza. Na cirurgia estética, como aliás em todas as outras cirurgias, não há milagres!
QUESTIONÁRIO DOMINGO
- Um País: Moçambique porque é a minha alma, Barcelona para viver e Paris para amar.
- Uma pessoa: Não há uma pessoa. Em cada momento há a família, os amigos, os pacientes e colegas de trabalho..
- Um livro: ‘Confesso que Vivi’, de Pablo Neruda e ‘Conversas com Deus’ de Neale Walsch.
- Uma música: Keith Jarret e ‘Final Cut’ dos Pink Floyd.
- Um lema: Sabedoria, honestidade e bondade.
- Um clube: Nenhum.
- Um prato: Pataniscas com arroz de feijão ou qualquer prato de polvo.
- Um filme: ‘O Nome da Rosa’, de Jean-Jacques Annaud, ou a ‘Trilogia das Cores’, de Kieslowski.
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