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Correio da Manhã

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Na governação do chiqueiro

Um mergulho no grotesco mais violento, desesperançado, bizarro e obsessivo da pobreza rural do Sul dos EUA.
Adolfo Luxúria Canibal 9 de Junho de 2019 às 15:00
Harry Crews
Harry Crews FOTO: Direitos Reservados

O primeiro romance de Harry Crews, editado originalmente nos Estados Unidos em 1968, é também a primeira tradução da sua obra para português.

Nascido num canto perdido do estado da Georgia, a infância e juventude de Harry Crews ficaram marcadas pela pobreza rural de uma família ‘white trash’, com o pai a morrer quando ele tinha 22 meses e a mãe a casar com o cunhado, que se revelaria um bêbado violento e perigoso.

Era uma vida sem qualquer margem de erro, como o próprio diria mais tarde, e onde a sobrevivência dependia da coragem bruta, nascida do desespero e da falta de alternativas.

Aos 17 anos entrou para a marinha e serviu na guerra da Coreia, e foi nessa época que começou a ler desalmadamente. De tal modo que quando acabou o serviço militar se inscreveu na Universidade da Florida, com o objectivo de se tornar escritor.

E conseguiu-o! Escritor de culto, pouco citado em manuais, mas um escritor maior, como o prova este ‘O Cantor de Gospel’, passado nas terras desoladas do Sul, num lugarejo de fim de estrada chamado Enigma, povoado por pocilgas de porcos e pelos seus ignorantes criadores, um mundo cheio de atraso, burrice, violência, racismo e fanatismo religioso do ramo cristão sulista.

Uma multidão de rústicos loucos e crentes, que é sempre uma receita para a catástrofe, num cenário que Harry Crews conhece bem, por nele ter vivido toda uma vida, conseguindo transmitir como ninguém o seu ar inquietante, sórdido e insano.

Assim, quando a bela do lugar é supostamente violada e assassinada por um negro e o orgulho da terra, um cantor de gospel de voz divinal que percorre o país convertendo castas moçoilas em lascivas insaciáveis e de quem a suposta virgem assassinada era amante memorável, faz um dos seus cada vez mais espaçados retornos a casa, acompanhado por um circo de ‘freaks’ dirigido por um anão de pé colossal, apresentado como o maior pé do mundo, estão criados os ingredientes para fazer deste romance uma experiência única de imersão no estranho, violento e sombriamente divertido Sul de Harry Crews.

Maravilhoso!

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LIVRO
NA ANTECÂMARA DA REGRESSÃO ANTROPOLÓGICA
Do teórico pós-situacionista da Escola de Frankfurt, uma análise do mundo contemporâneo – a continuar a reflexão sobre a crise do capitalismo patente em ‘As Aventuras da Mercadoria’ – que põe a nu os mecanismos auto-destrutivos que devastam o planeta e a própria humanidade no novo
homem que se forja.

DISCO
OS ECOS XAMÂNICOS DE ARTAUD ALUCINADO
Primeiro de um tríptico sobre viagens chamado ‘The Perfect Vision’, inicia a colaboração de Patti Smith com o duo Soundwalk Collective, com improvisações encantatórias e alucinadas sobre austeras configurações musicais inspiradas pela ida de Artaud ao México, onde privou com
os Tarahumara e o peiote.

DISCO
O EXTREMAR DAS IDEIAS DE ‘NOISE’ E VOLUME
Oitavo álbum do duo experimental norte-americano Sunn O))), aqui gravado por Steve Albini – e cujo título é uma brincadeira com o denominado ‘death metal’ – mas mantendo os característicos tempos extremamente lentos, as guitarras distorcidas, a ausência de ritmo ou melodia e as afinações alternativas.

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