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"Na guerra ganhávamos uma certa coragem"

Na zona de Dembos, em Angola, a situação era complicada. Havia muitas emboscadas e num ataque sofremos sete mortos e oito feridos.
13 de Dezembro de 2013 às 15:00
A posar para a foto, sentado num unimogue da companhia CCS do batalhão nº 1869. Numa placa lê-se ‘Os Galos da Estrada’, como eram conhecidos
A posar para a foto, sentado num unimogue da companhia CCS do batalhão nº 1869. Numa placa lê-se ‘Os Galos da Estrada’, como eram conhecidos FOTO: D.R.

Assentei praça em janeiro de 1965, estive no Porto e fui formar batalhão em Viana do Castelo. Nessa altura já não contava ir para África, tinha dez meses de tropa cá, estava como monitor e acreditava que não ia. Mas mobilizaram-me. Entendi, na época, que era um dever para cumprir e, como tal, parti de Lisboa, no navio ‘Vera Cruz', a 17 de dezembro de 1965. A chegada a Angola aconteceu na noite de 25 de dezembro de 1965. Passámos o Natal no barco, mas não fizemos celebração alguma. O barco ficou ao largo e esperámos que amanhecesse o dia 26 para atracar. Uma vez em Luanda, pouco tempo tivemos para conhecer a cidade. Seguimos para o Grafanil, onde passámos uns dias e daí fomos para a região de Dembos. Era uma zona muito complicada, na Pedra Verde, entre o Úcua e o Piri, onde se registaram muitas emboscadas às tropas portuguesas. Colocámos várias companhias nessa zona: aquela a que eu pertencia ficou no Úcua, outra no Bom Jesus, outra no Piri e outra na Mussenga.

Nessa altura eu tinha a especialidade de condutor auto e assisti a situações deveras complicadas. Estive na operação no Zenza e na chamada ‘operação Totobola', perto do Dange, que foram particularmente perigosas. E, embora eu não integrasse aquela tropa que ia para a frente, sentia também o perigo muito perto. Nós, os condutores auto, seguíamos com os carros para levar os militares aos locais indicados e depois ficávamos numa base, à espera que voltassem. Estas operações implicavam sempre grande risco, corríamos perigo, mas, curiosamente, não sei o que nos dava lá, que ganhávamos uma certa coragem. Encarávamos aquilo e ficávamos mais destemidos.

ATAQUE

As situações de perigo foram várias, mas recordo particularmente um ataque a uma coluna civil, que se deslocava do Caxito ao Piri. Nessa zona, as colunas tinham de ser escoltadas por militares de manhã à noite, porque era sempre perigoso.

Num certo dia, os últimos dois carros militares foram atacados. No meu batalhão houve sete mortos e oito feridos. Depois desses tristes acontecimentos, ficávamos bastante emocionados e demorávamos vários dias a recuperar. Não era fácil perder assim os camaradas. Aquela zona era bastante difícil, mas, apesar de ter sofrido alguns ataques, felizmente nunca fui ferido. Quando estávamos instalados nessa zona ocupávamos umas casas de civis. A comida era feita na cozinha e não era má. Piorava quando saíamos nas missões em que nos deslocávamos oito dias e comíamos ração de combate. No mato estávamos sempre em alerta. Nunca dormíamos sossegados, pois em qualquer altura havia tiros e éramos obrigados a fugir para os abrigos no alto do aquartelamento. O calor e os mosquitos ainda agravavam a situação.

As coisas melhoraram quando fomos para Santo António do Zaire, onde já não havia guerra. Fazíamos patrulha e fiscalizávamos as sanzalas, que tinham população nativa. As pessoas tratavam-nos bem.

No total, estive 28 meses em Angola. Aguentávamos porque sabíamos que não havia outra maneira. Ia escrevendo à namorada, aos pais e a algumas madrinhas de guerra. Sempre nos ajudava a passar o tempo.

 


Quando me vim embora, a situação em Angola até era boa. Havia apenas alguns focos de guerra.

Cheguei a Portugal a 26 de fevereiro. Nunca mais voltei a África, mas tenho de admitir que, apesar de tudo, aquela terra me deixou saudades.

MANUEL TEIXEIRA

Comissão

Angola 1965-1968

Força

Batalhão de Artilharia 1869

Atualidade

Sócio de uma empresa de táxis, casado

A Minha Guerra Guerra do Ultramar Guerra Colonial Artilharia 1869 Dembos Angola Grafanil
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