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Correio da Manhã

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Na guerra, os sobressaltos eram constantes

Ainda hoje lembro as palavras do capitão Eugénio Fernandes, que dizia constantemente: “atenção! o perigo está sempre à espreita”
10 de Outubro de 2010 às 00:00
A chegada da companhia à zona de Tomboco
A chegada da companhia à zona de Tomboco FOTO: Direitos reservados

Embarcámos em Lisboa a 18 de Fevereiro de 1967, no paquete ‘Vera Cruz’, e chegámos a Luanda no dia 27 do mesmo mês, data que nunca esquecerei. Ainda estávamos a formar batalhão, no campo militar de Santa Margarida, quando se ouviu comentar: "vamos para a Guiné ou Angola?".

As ordens superiores eram de desembarque no cais em Luanda e o destino era o campo militar do Grafanil. Quando cheguei ao campo militar pensei em milhões de coisas: na família, nos amigos, no que é que me poderia acontecer… fiquei realmente muito emocionado ao ver tanta gente, uns a chegar, outros a partir para a Metrópole.

Passámos por algumas zonas consideradas de guerra, locais onde os cruzamentos eram bastante perigosos, e que faziam ligação com a picada que seguia para Bessa Monteiro, até chegarmos a Tomboco.

Quando lá chegámos, toda a população nos saudou. Fiquei muito emocionado ao ver imensa gente nas sanzalas a precisar da ajuda e segurança dos militares. Muitos camaradas diziam que eu era um privilegiado pelo lugar que ocupava, era 1º cabo amanuense, mas não era fácil a tarefa de secretário. Pela função que desempenhava e pela zona onde me encontrava, a guerra passou-me um pouco ao lado, mas os sobressaltos eram constantes. Fiz parte de saídas em colunas militares, para irmos fazer reconhecimentos, buscar materiais e produtos alimentares, ao passar por zonas de risco. Ainda hoje lembro as palavras do capitão Eugénio Fernandes, que dizia constantemente: "atenção! O perigo está sempre à espreita!".

Os conselhos nunca eram demais. A grande experiência e disciplina dos nossos superiores evitaram outros acontecimentos, mas mesmo assim faleceram alguns camaradas em acidentes, um deles era colega do meu curso. Esse camarada morreu afogado e o que me causa mais tristeza é que também eu estava a nadar mas quando cheguei ao sítio onde ele se encontrava, já tinha falecido.

ZONA DE GUERRA

Cheguei ao cais de Alcântara, Lisboa, no dia 3 de Junho de 1969. Foram quase dois anos e meio em Angola. Quando partimos de Luanda para a Metrópole, apenas deixámos para trás a terra – Angola. Porque nunca na vida vamos esquecer aqueles dias e os seus acontecimentos tão marcantes. Ainda hoje o Batalhão de Caçadores 1903 recorda esse tempo quando nos juntamos, de dois em dois anos, para confraternização nos almoços que se fazem.

Para mim, o dia mais marcante foi a mudança de aquartelamento de Tomboco para Santo António do Zaire, nos primeiros dias de 1968, na zona fronteiriça com o Congo Belga. Recordo-me que estávamos há poucos dias em Tomboco, em grupo na parada do aquartelamento, quando caíram três granadas perto de nós. Felizmente a pessoa não deveria ter muita experiência porque elas caíram com as cavilhas postas. Nada aconteceu, foi só o susto.

Para além das funções da minha especialidade de 1º cabo amanuense, praticava um pouco de desporto, futebol de 11 e futebol de 5 (salão), uma maneira de ajudar a passar o tempo. Ajudava os meus camaradas, na messe de oficiais, o cozinheiro Custódio e também os auxiliares. Existia um verdadeiro espírito de companheirismo, união e também preocupação entre todos. A moral desta história, uma das que tirei, é que de facto existia uma verdadeira relação de irmãos entre os companheiros mais próximos, tal como uma família.

PERFIL

Nome: Júlio de Brito

Comissão: Guiné (1967/1969)

Força: Batalhão de Caçadores 1903

Actualidade: Assistente administrativo de 1ª de contabilidade. Casado, tem dois filhos e uma neta

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