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Na terra dos pobrezinhos

Como se vive e se faz negócio na herdade da comporta, onde é moda passar férias
11 de Agosto de 2013 às 15:00
O cais palafítico tem sido cenário de produções de moda internacionais
O cais palafítico tem sido cenário de produções de moda internacionais FOTO: Rui Minderico

Fernando Van Zeller Gomes da Silva chega de carro com a mulher a um baldio de beira de estrada à entrada do Carvalhal, concelho de Grândola. Não há automobilista que ali passe, a caminho das praias do Pego e do Carvalhal ou siga para sul para fora dos limites da Herdade da Comporta, rumo a Melides, que não tenha topado o arraial de velharias de Júlio Luís Maia. Foi ali que Cristina Espírito Santo foi fotografada sentada numa motorizada da Fundador, a empresa de Sangalhos que acendia velocidades em meados de 1900, comprada depois pela Casal. Foi com uma só frase que aquela filha de Jorge Espírito Santo - banqueiro e administrador do BES e primo direito da mãe de Ricardo Salgado, o atual presidente executivo do Banco Espírito Santo - abriu a guerra virtual dos pobrezinhos.

"Digamos que brincaram um bocadinho com isto", ironiza Gomes da Silva, ministro da Agricultura de António Guterres entre 1995 e 1998, que costuma ir de férias para Troia. O engenheiro agrónomo e agricultor, que viveu o auge da exposição mediática quando esteve no Governo e, em plena crise das vacas loucas, apareceu a comer mioleira de vaca, "não gostou do tom de toda a história". Cristina Espírito Santo disse nessa "história" que a sua vida em férias na Herdade da Comporta, numa casa de pescadores recuperada, "é como brincar aos pobrezinhos". As redes sociais assanharam-se. No Facebook foi criada a página ‘A invasão dos pobrezinhos à Comporta - Não há mosquito que nos pare!'

Mas a verdadeira história da Herdade da Comporta começou no século XIX, com a produção de arroz e a incorporação na Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado, propriedade da Coroa portuguesa. Em 1925, a herdade foi comprada pela inglesa The Atlantic Company e, em 1955, pelos Espírito Santo. Foi nacionalizada em 1975 e regressou à família dezasseis anos depois. Hoje em dia é a maior propriedade nacional detida por privados - 12 500 hectares debruados com 12 quilómetros de praia.  Caldas no Carvalhal

Philippe Labro passa em frente a Germinal e Augusto, que arrastam a manhã com outros, sentados à sombra, num banco corrido na rua principal do Carvalhal. Vai de ‘Daily Telegraph' dobrado em quatro na mão, óculos escuros, camisa preta e chapéu branco. Entre os da terra, é impossível não dar por ele e no entanto já ninguém repara. Philippe Labro tem 76 anos, é realizador, escritor e jornalista. Trabalhou na RTL, Paris Match, TF1 e Antenne 2. Escreveu canções para Johnny Hallyday. Em 1975, Serge Gainsbourg encomendou-lhe as letras de ‘Lolita go home', o álbum de Jane Birkin. Esteve duas vezes na corrida ao prémio literário Goncourt.

E lá está ele agora no Carvalhal: "Adoro as pessoas, o tempo, a força do Atlântico, o dormirmos bem à noite, os arrozais e as cegonhas, é inspirador. E a praia limpa, não se esqueça, ponha a praia limpa! Isto está a uma hora de Lisboa e a três de Paris." Labro vem por três semanas desde há sete verões - traz família e amigos.

Na realidade, o agricultor Germinal Pereira está de olho na carrinha do outro lado da rua que vende os seus melões. É hoje arrendatário de oito hectares - 200 euros por hectare ao ano - e queixa-se do costume, de que "tudo está mais caro e o escoamento dos produtos difícil como a hora da nossa morte." Germinal não esquece que "depois de 1975 os terrenos estiveram para ser nossos, mas não foram. Deram dez contos às pessoas e ninguém pensou. Pelo menos, foi assim comigo."

Augusto Maria Garanhão levanta da ponta do banco os seus 81 anos e chega-se: "Os Espírito Santo desmancharam o que tínhamos e fizeram-nos casas que tivemos de lhes comprar e que só podíamos vender ao fim de 10 anos. É por causa dos pobrezinhos da Cristina, hum?"

"Há muito, muito tempo", o pai de Augusto Garanhão tinha na praia uma taberna que era uma barraca de caniço e bracejo, chão de areia - cobiçadas hoje em dia por quem tem muito dinheiro. Augusto ainda se lembra quando só no dia de São Romão se ia à praia - juntas de bois, mulheres de saias compridas e homens de ceroulas "que antes não se mostrava nada e agora mostra-se tudo". Foi Garanhão que pôs o restaurante Pôr do Sol de pé no Carvalhal, que passou para uma das suas filhas há dois anos. "Cheguei a servir 70 e 80 almoços à malta dos Espírito Santo, mas depois tive uma questão em tribunal com eles e deixaram de aparecer. A família até é gente fina, cheguei a pedir namoro a uma das irmãs", diz Garanhão, à beira do precipício da malandrice. "Era a D. Isabelinha, boa senhora, estava sempre na brincadeira com ela. Até que um dia ela chegou ao restaurante com umas amigas e disse: ‘Ó Augusto, mostra lá o que tens ao peito'".

Então como agora, Augusto descobre o fio debaixo da camisa e mostra, seguro entre o indicador e o polegar, o "pilau de ouro" que traz sempre pendurado ao peito. No Carvalhal, eis a miniatura de ‘um das Caldas'. ‘Ò tio, ainda o assaltam', reclama a sobrinha de Setúbal, que ali faz férias como o francês Labro.

Sapatos e Torres Couto

Jacques Grange é um designer de interiores com clientes como Yves Saint Laurent e Pierre Bergé - fez-lhes o Château Gabriel em Benerville-sur-Mer, França - ou Isabelle Adjani, Alain Ducasse, Valentino, Karl Lagerfeld ou Paloma Picasso - fez a loja de joalharia da filha do pintor espanhol em Nova Iorque.

Grange comprou para si o apartamento de Colette (romancista francesa, 1873-1954) no Palais Royal de Paris, e uma ‘barraca' de caniço e bracejo entre a praia do Carvalhal e do Pego, que recuperou. O resultado, que deixaria o pai de Garanhão de boca aberta, teve honra em revistas internacionais. Há uma semana, Grange abriu uma loja no Carvalhal colada à ‘papelaria, tabacaria, loja de souvenirs e artigos de praia' onde Philippe Labro pôde comprar o seu ‘Daily Telegraph'.

Na Herdade da Comporta, descrita pelo ‘New York Times' como o próximo ‘hit' de férias, está também Christian Loubotin. O homem que fez dos sapatos de salto alto com sola vermelha objeto de desejo comprou uma das ‘casas' onde se pode "brincar aos pobrezinhos", recuperou-a e depois mais outras oito que aluga. Em março, no mesmo mês em que era lançado o filme promocional de quatro minutos ‘Welcome to Comporta', Loubotin fazia fotografar manequins com os seus sapatos sobre o Cais Palafítico da Carrasqueira, construído em estacas de madeira irregulares nas décadas de 1950 e 1960 e que serve de embarcadouro no rio Sado. Do outro lado, avista-se Setúbal.

"Não sei se vi esse, o Loubotin. Estão sempre a aparecer aqui para fazer fotografias. A gente já não liga, nem os distingue. Ainda na semana passada, trataram aqui da roupa e maquilhagem. Eu tenho uma barraca no porto que elas até costumam utilizar para mudar de roupa!" Leonardo Jacinto tem 59 anos e uma tatuagem de marinheiro no braço. Está em seco há 30 na lota da Carrasqueira, que serve hoje em dia 40 pescadores. Esta manhã apareceram corvinas, robalos e chocos e o principal, as amêijoas - a ‘amêijoa boa' está ali a 10 euros o quilo, a japónica a dois.

Encostado à barraca de Leonardo Jacinto está o médico Monchicurt. Tem 65 anos e a mão leve para o desenho - rabisca os barcos do cais. "Isto é magnífico. Não foi muito destratado pelas imobiliárias. É ainda tradicional", diz este parisiense que vem para uma casa no Carvalhal desde há 15 anos e que já ouviu falar do "primeiro grande projeto turístico do pós--crise", como lhe chamou em abril Álvaro Santos Pereira, ainda ministro da Economia. O empreendimento turístico associa o grupo Espírito Santo e a cadeia Aman e representa um investimento de 92 milhões de euros para a construção do primeiro hotel e spa da cadeia hoteleira de luxo na Península Ibérica. Monchicurt ouviu falar do estardalhaço - "se for feito com cuidado, pode ser. Caso contrário, deixo de vir."

Na Carrasqueira, longe do mar mas à beira-rio, ainda se está na herdade. Ali existem também casas de fausto, escondidas da estrada e dos mirones, mas o tempo parece ter parado. Na aldeia, só um cartaz da campanha de Torres Couto à Câmara de Grândola indica que estamos a caminhar para setembro. Sílvia, 32 anos, que ali nasceu filha do dono do Retiro dos Pescadores, atesta a calmaria que "no verão vai mexendo". Na semana passada, uma equipa de manequins aterrou na sua esplanada - "estiveram aqui a maquilharem-se, mas não foram ao ensopado de enguias, ficaram-se pelos cafés e gelados".

Caxemira na Comporta

A aldeia da Comporta é o coração da herdade - fica perto do Museu do Arroz e da adega da Comporta. A casa-mãe da herdade é ali. A freguesia tem 1378 habitantes. Na Comporta, o casario é quase todo caiado de branco, debruado a azul, e "há lojas que Setúbal nunca sonhou" e em Lisboa só algumas igualam. Caso da portuguesa TMcollection "com lojas nos cinco continentes" - a decoração do espaço faz moda com coisas antigas e resgatadas do lixo - da Lavanda, da CôtéSud ou da Same Same de Nuno Pereira Campos, de 30 anos. "Estávamos em Pedralva, mas há quatro anos resolvemos sair e vir para aqui. Queríamos um sítio onde houvesse gente para este tipo de produto". A Same Same vende pashminas, caxemiras e bijutaria. "Temos duas famílias na Tailândia que nos tratam dos têxteis e o resto da produção é feita em Portugal." Nuno Pereira Campos exibe uma caxemira que "custa trezentos e tal euros". "Ontem uma senhora levou quatro. É estrangeira. No ano passado levou duas e este ano regressou. Compram franceses, polacos, checos, russos, americanos, belgas, irlandeses e escoceses. Os portugueses, nem tanto. Em 2014 estamos a preparar-nos para lançar uma marca de luxo toda produzida em Portugal. Já tem até nome: Hita Bellocq."

Mais adiante, no minimercado Gomes está o filho Carlos, de 43 anos. "Havia aqui na herdade três cantinas para os trabalhadores, na Comporta, Carvalhal e na Carrasqueira. Os Espírito Santo acabaram com elas, mas o meu pai, José Maria Gomes, quis ficar com esta e transformou-a num minimercado." A velha cantina vende flocos, água e manteiga como sempre, mas também Moët & Chandon e outros requintes. A família orgulha-se - "não há muitas lojas como a nossa, o que o cliente quer, temos. Ao gosto da ti Maria e do cliente mais refinado". Tem foie gras? "Sim, temos."

Parte dos requintes do minimercado Gomes dispersa-se pelas mesas das casas que ninguém vê da estrada. No Carvalhal, a descer para Brejos da Carregueira de Baixo, por exemplo, as cancelas com câmaras de vigilância cortaram o acesso livre aos caminhos que rasgam os arrozais e que eram também acesso à duna e ao areal da praia. Só quem sabe e tem convite passa estes limites. Ali tem casa Cristina Espírito Santo. E ali está há décadas, à entrada do sítio do Brejos da Carregueira de Baixo, a modesta Casa Messejana, mais conhecida pelo ‘Gervásio' - que já ficou no ‘folclore dos ricos' que vão de férias para o local.

Augusto Maria Garanhão, o antigo dono do Pôr do Sol, no Carvalhal, que aos 81 anos apresenta no cartão de visita a venda de "Casas e terrenos", conta uma das variações da história - "a do Mónaco esteve em casa do meu primo". Na realidade, foram os filhos de Carolina do Mónaco que foram de férias e se sentaram ali, quase como os outros. "Muito sossegados e pacatos. Até foi o Pierre que abriu uma garrafa de vinho."

Os da terra que fazem negócio preferem "não falar da família" à conta de uma convivência de décadas que cimentou lealdades e permite até afetos e desabafos. "A Cristina disse que já não chorava mais com este assunto dos pobrezinhos. Eu acho bem."

Bronzeado com espumante

No Comporta Café, Luís Carvalho "já saiu" - responde a quem se perguntou pelo dono da concessão que transformou uma ida à praia num acontecimento social. O espaço está ali há 12 anos e representa a nova cara das praias da herdade. Toldos de colmo na praia - a 20 euros para duas pessoas, ou a 70 euros espaços maiores com direito a uma garrafa de espumante, sumos e fruta incluídos no preço - boas acessibilidades, parque de estacionamento tarifado, casas de banho, limpeza na praia, cinzeiros, apoios de praia, serviço de sumos naturais, puffs, restaurante e café com sushi. "Fomos os primeiros a ter este tipo de serviço. Numa área reduzida porque não há empregados que resistam se imitássemos o Brasil ou a Ásia, onde a areia é mais compacta e fácil de caminhar. Quando trouxemos os puffs, em 2002, não havia nada do género de norte a sul do País."

Luís Carvalho afinal pôde sentar-se na esplanada do Comporta Café - tirou os óculos de aviador espelhados e fala entusiasmado do projeto que "mudou mentalidades de utilização da praia" e que está a funcionar o ano inteiro, "graças à família Espírito Santo e com grande esforço meu, porque as pessoas veem-me bronzeado e pensam que isto é fácil. Não é."

Meia dúzia de cavalos montados por adolescentes louras cruzam os acessos entre os arrozais na zona da Torre, depois da aldeia da Comporta, para sul. É o negócio de José Ribeiro, de 53 anos, que começou em 2010 - chamou-lhe e com propriedade Cavalos na Areia.

"Era um sonho meu e pude concretizá-lo. Dá para viver honestamente e sem sonhos." Este "amigo da família Espírito Santo" instalou a cavalaria num antigo armazém de arroz da herdade. Comprou dez cavalos para os passeios - 50 euros duas horas - e oferece ainda o serviço de check in (aluguer de boxes) para cavalos de outros, além de bicicletas e canoas. "Este é um negócio que fazia falta. A Comporta tem o perfil certo para este tipo de passeios."

O último Presidente da República do Estado Novo ia ali às rolas e ficava numa casa na zona do Carvalhal, agora de um antigo administrador da propriedade. Júlio Luís Maia lembra-se de ser bem pequeno e de ficar "à porta para as ir buscar". É filho e neto dos da terra - a avó nasceu ali em 1902, a mãe em 1922, e trabalharam como podiam nos campos de arroz. "Nascemos aqui e passámos fome aqui. Trabalhei na Herdade da Comporta desde os meus 14 anos, a gadanhar, a mondar. O meu pai reformou-
-se do grupo Espírito Santo. Agora tenho problemas em tribunal com eles e com a câmara."

O dono e senhor da barraca de velharias, na esquina para o Carvalhal e o Pego, chegou a trabalhar na Penha Longa, Quinta da Marinha e Quinta de Olivença como tratador de cavalos - ficou-lhe a patine do polo cor-
-de-rosa que veste esta manhã e que destoa do negócio. "Há bocado vendi uma malinha de cabedal, dois pires de café, três colheres, um garrafão de azeite e um banco de taberna. Fui o primeiro a transformar estas coisas em moda. Comprei muita coisa das escolas ao Estado e a ‘Casa Cláudia' fotografou os meus potes de cal, quando ainda ninguém os apreciava. E agora querem expulsar-me daqui!" O ‘aqui' é a esquina onde se instalou "há muito mais de uma década" com as suas velharias, muitas delas decoram casas de férias como a de Jacques Grange ou de Cristina Espírito Santo - "ela vem aqui muitas vezes".

Pela terra onde as tradicionais casas de colmo chegam ao mercado a preços entre 160 a 300 mil euros - "quem tem fez e faz negócio" - depois da história dos "pobrezinhos" passou a dizer-se que "o colmo no verão arde melhor". E o PREC voltou de mansinho à saudade de alguns.

 

Ambientalistas pela defesa da Rede Natura 2000

As associações ambientalistas já manifestaram preocupação com a pressão urbanística na herdade e até em Melides, nomeadamente sobre a Rede Natura 2000, com projetos como o da Herdade do Pinheirinho, Costa Terra e Herdade da Comporta. A Quercus, por exemplo, defende que as infraestruturas previstas para o perímetro da Rede Natura 2000 sejam "empurradas" para zonas menos sensíveis e destaca a recomendação do Estudo de Incidências Ambientais de relocalização das áreas que afetam as dunas litorais.

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