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Na Venezuela só sobra a fé

O colapso é iminente. O país onde vive uma enorme comunidade de portugueses atravessa a pior crise de que há memória
Marta Martins Silva 15 de Maio de 2016 às 16:00
No último dia 11, a manifestação que pedia um referendo à destituição de Maduro
No último dia 11, a manifestação que pedia um referendo à destituição de Maduro FOTO: Carlos García/Reuters

Está há cinquenta anos na Venezuela mas o padre português Alexandre Mendonça nunca tinha visto ninguém morrer à sua frente por não haver o medicamento necessário, como aconteceu há poucos dias. "Não se conseguiu uma bomba de oxigénio para salvar uma mãe, era só uma bomba de oxigénio, uma coisa tão simples, mas não havia. Há momentos em que só a palavra de Deus conforta porque já não temos nenhum argumento válido", lamentou à ‘Domingo’, ao telefone desde Caracas, onde é padre da missão Católica Portuguesa e ainda sacerdote da arquidiocese da capital da Venezuela, onde vive.

As prateleiras das farmácias estão vazias, os doentes estão desesperados, os pais temem pelos filhos pequenos, os filhos adultos temem pelos pais idosos, que são de uma forma geral quem mais precisa de remédios. Por outro lado, "as igrejas estão cheias, há muito mais gente à procura de conforto. É um fenómeno natural. Quanto maior a dificuldade mais as pessoas procuram Deus e a Nossa Senhora para poderem encontrar força no seu sofrimento e mar de necessidades", diz o padre. E se há coisa que todos aqueles que vivem atualmente na Venezuela precisam é de força.


O país – o segundo da América Latina com mais emigrantes portugueses [os números oficiais apontam para 400 mil, embora os luso-descendentes cheguem aos 1,3 milhões] – está a saque, a ferro e fogo. Está à beira do colapso e de todas as outras expressões que significam o caos. Falta a luz, vai-se a água, a comida não chega, a violência alastra. Sobra a fé para quem acredita quando tudo o resto é um enorme apagão que suga a esperança a cada dia que passa. "A insegurança é a toda a hora, já não é só de dia nem só de noite, já não temos paz a nenhuma hora. Há uma doença coletiva, uma paranoia generalizada pela segurança. Porque a verdade é que se não comermos carne hoje comemos amanhã. Agora se perdemos a vida hoje não há carne que valha para amanhã", explica ainda o padre Mendonça, de 61 anos.


EMERGÊNCIA
Nicolás Maduro disse na quarta-feira, dia 11 deste mês de maio, que se vai manter por um ano o "estado de emergência económica" do país que havia sido inicialmente decretado por um período de 120 dias. Pelo meio, a população saiu à rua para pedir a saída do poder do presidente e um mercado grossista e vários estabelecimentos comerciais foram saqueados por centenas de pessoas que procuravam produtos básicos como arroz, massa, farinha de milho e leite em pó. Houve a notícia de um morto e vários feridos. "As pessoas não têm o que comprar e depois não têm dinheiro para comprar na economia informal, por isso a única solução que veem é roubar. Não há pão nas padarias porque não há farinha e nos supermercados não há papel higiénico, não há pasta dos dentes, não há champô, não há sabão, não há farinha, massa, arroz, café, nem para ricos nem para pobres. Em alguns casos pontuais, há contrabando desses produtos e consegue-se algumas coisas mas a um preço 1000 vezes superior ao preço original. As pessoas estão a comer uma refeição por dia e muitas deixam de comer para dar de comer aos filhos", contextualiza Luís Jorge, ex-conselheiro da comunidade portuguesa que, em 22 anos de Venezuela, nunca viu nada assim. "Está o desespero."

Um desespero que este texto tenta transmitir e que a agência de notícias internacional Reuters traduziu em imagens que publicamos nestas páginas. Nela retrataram famílias venezuelanas e os (parcos) alimentos que têm na despensa. "Estamos a comer mal. Se temos farinha de milho comemos arepas [um prato de massa de pão feito com milho moído ou com farinha de milho pré-cozido] todo o dia", contou Rosa Landaez, mãe de três filhos e com apenas quatro produtos na despensa, três deles pacotes de massa. "Agora comer tornou-se um luxo", partilhou por seu lado Esneidy Ramirez, também mãe de três. "Estamos há 15 dias a comer pão com queijo ou arepas com queijo. Não conseguimos encontrar os alimentos que queremos e os que conseguimos não temos dinheiro para comprar", explicou o casal Lender e Isamar. "Estou a comer menos e a comer em excesso coisas que não devia comer", desabafou a idosa Antonia Torres.

SOBREVIVÊNCIA

A população não vive, sobrevive. "É isso que temos feito nos últimos tempos. Na minha casa vamos conseguindo comer porque tenho amigos comerciantes, mas a falta de medicamentos não conseguimos contornar e os meus sogros, que têm 85 e 86 anos, precisam de remédios e não há. E tenho ainda dois netinhos e o leite para lhes dar é difícil de conseguir. Também não há fraldas em lado nenhum", conta Fernando A., dono de uma garrafeira e de uma churrasqueira em Caracas com 47 anos dos seus 59 de vida na Venezuela. "A água é totalmente racionada. Passam-se horas sem ter água, por isso quando aparece aproveitamos para encher vários bidões e guardar. Está previsto que este mês comece a chover e era bom, para ver se as coisas melhoram um bocadinho", acrescenta.

A 25 de abril, a Venezuela implementou oficialmente um novo plano de racionamento de energia elétrica, que passa pelo corte de fornecimento doméstico, durante quatro horas diárias ao longo de 40 dias e que poderá prolongar-se até o nível da principal barragem (El Guri, responsável pela produção de quase 70% da eletricidade consumida no país) recuperar ou até começar a época das chuvas (por norma, em finais de maio). Mas antes disso os apagões já se faziam sentir e sem aviso prévio, tanto mais longos quanto mais afastados das cidades e perto do interior. O venezuelano Giuseppe di Campo, residente em Puerto la Cruz, no Estado de Anzoátegui, chegou a ficar preso no elevador – sem hora marcada para sair – à espera que a energia voltasse.

"As pessoas que vivem no andar número 18 ficam sem elevador, sem água, sem telefone, sem internet, sem comunicação alguma, estamos todos incomunicáveis [aliás as três operadoras de telemóveis do país impedem as chamadas internacionais]. Estamos todos sujeitos a comprar uma vez à semana, de acordo com o número do nosso cartão de cidadão. Se há arroz compra-se arroz, se há farinha compra-se farinha, os produtos têm desaparecido todos", partilha Milu Almeida, conselheira das comunidades portuguesas. "Há pessoas que vão de madrugada para guardar vez, mas depois são vítimas da delinquência, assaltam-nos porque não se pode comprar os produtos básicos com cartão, tem de se levar dinheiro", acrescenta.

Maria Adelaide Pereira, que tem na Venezuela um negócio de agropecuária, só pode comprar às quintas-feiras – mas não vai para a fila. "Tenho medo de ser assaltada. Compro com sobrepreço a alguma pessoa que se oferece para ir por mim. São pessoas que trabalham com o governo e têm facilidade de comprar e depois revendem ao preço que querem". Já a mulher de David Pinho, presidente da Associação de Professores de Português da Venezuela, nunca deixa de tentar. "A minha esposa é capaz de passar dez horas na fila e não conseguir comprar nada quando chega a sua vez porque as prateleiras estão vazias", lamenta David. "A falta de luz é outro problema. Posso estar a trabalhar na internet e depois vai a luz e fico sem sistema, e fico quatro ou cinco horas às escuras. Nem sequer com o Chávez se passava o que se está a passar agora."  

A neta, de cinco anos, já pergunta à mãe porque é que não pode comer as coisas que antes tinha na despensa. "É complicado, não sabemos nem como explicar o que se esta a passar a um adulto, quanto mais a uma criança. Por exemplo, antes Nutella era um produto que comprávamos facilmente, mas que agora custa agora 15 mil bolívares (13 euros), que é o salário mínimo da Venezuela", exemplifica o professor que aproveitou uma vinda a Portugal, há poucas semanas, para trazer na bagagem duas malas carregadas de medicamentos, para pessoas que lhe pediram em desespero: "doentes com diabetes, problemas de tensão, cancro, os três dramas mais difíceis que temos aqui na saúde", confessa David Pinho, de 59 anos.


À LUZ DAS VELAS

Maria Adelaide, que vive a 300 quilómetros de Caracas, já se socorreu várias vezes da luz das velas quando a energia é cortada. "[O Maduro] também disse para pouparmos energia no secador mas eu já não tenho o hábito de o usar", conta, referindo-se ao discurso em que o presidente do país disse: "Eu sempre acho que uma mulher fica mais bonita quando penteia o cabelo com os dedos e, em seguida, deixa o cabelo secar naturalmente. É uma ideia que eu tenho e que eu apresento às mulheres, certo?"


Enquanto os secadores se calaram, os funcionários públicos passaram a trabalhar dois dias por semana (segundas e terças até às 13h00) para os serviços pouparem energia, as escolas públicas foram obrigadas a fazer ‘gazeta’ às sextas-feiras, há cortes de luz diários de quatro horas nas principais cidades, os centros comerciais e os hotéis passaram a ter de gerar nove horas de eletricidade por dia usando fontes próprias e o país mudou de fuso horário - o relógio adiantou 30 minutos sob o pretexto de se economizar energia com mais meia hora de luz solar ao final da tarde. "Mas o maior sofrimento é ver como as famílias portuguesas são obrigadas a mandar os filhos para Portugal, Espanha e EUA. Quando estava na altura de os filhos tomarem conta dos pais são obrigados a ir embora da Venezuela à procura de uma vida melhor, enquanto os pais têm de ficar para agarrar aquilo que conseguiram com sacrifício ao longo de décadas de trabalho", lamenta o padre Alexandre.

 

EMPRESAS LUSAS NOS SERVIÇOS MÍNIMOS

 

Em janeiro de 2014, Nicolás Maduro assinou um contrato de 3,5 milhões de euros com a portuguesa Teixeira Duarte para a construção da autoestrada que liga Caracas e o porto de La Guaira e o aeroporto de Maiquetia. "Mas a estrutura da empresa, neste momento, está reduzida a 5%. Apesar disso vai continuar no país porque há muitos milhões de dólares investidos em equipamentos. Sair do país não é hipótese, não é política destas empresas abandonar as obras que já começaram apesar de neste momento estarem paradas. O grupo Lena tem aqui um projeto para construção de casas pré-fabricadas, a Edifer também cá está tal como outras, mas estão todas paradas. Na sua maioria a mão de obra qualificada era portuguesa que tinha vindo de propósito e face a esta situação muitos trabalhadores já regressaram a Portugal", conta fonte ligada aos negócios entre os dois países.  

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