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Correio da Manhã

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'NÃO GOSTO DE VIVER NO PASSADO'

Com Depois do Adeus, Paulo de Carvalho ganhou o Festival da Canção de 1974 e despertou para o mundo. Com a música saltou fronteiras, derrubou barreiras, combateu dissabores, propagou o vírus do entusiasmo, contagiou muitos. São quarenta os anos que se comemoram com a edição da Antologia de um músico que não pára para ver o tempo passar. O Adeus fica para depois...
12 de Julho de 2002 às 18:10
'NÃO GOSTO DE VIVER NO PASSADO'
'NÃO GOSTO DE VIVER NO PASSADO' FOTO: Cortesia Paulo de Carvalho
Magazine Domingo - Quarenta anos é igual a quê?

Paulo de Carvalho - Quarenta anos é muito tempo, já dizia o outro na cantiga (risos). Foram muitos bons anos de música, em que aprendi muita coisa da minha profissão, e com muita honestidade, em que vivi bastante, vivi bem, vivi muito!

M.D. - Deve haver diferenças abissais...

P.C. - Há diferenças para pior. Estamos a atravessar uma fase em que é difícil viver colectivamente em Portugal, sobretudo em termos culturais. Penso que vivemos numa sociedade superconsumista, o que condiciona também as coisas da cultura.

M.D. - Há uma queixa generalizada da pouca música portuguesa nas rádios...

P.C. - A rádio sempre foi assim! Havia que motivar as pessoas – as que trabalham na rádio e o próprio público – a gostar das suas próprias coisas e o português não gosta muito daquilo que é. Só quando é “picado”. Só aí é que traz ao de cima o fado, a sardinha assada, o futebol e o Figo.

M.D. - Nas suas músicas, defende a tradição cultural portuguesa, tem atacado os “invasores” anglo-saxónicos nas rádios...

P.C. - Desde 1985, sobretudo. E sei do que estou a falar porque já cantei em inglês. Pensei também, como hoje alguns mais novos pensam, que fazia algum sentido... Nós somos invadidos pela música anglo-saxónica há muitos anos. Foi com ela que eu aprendi a música que sei, na altura dos Sheiks...

M.D. - Acha-se um D. Quixote do século XXI, a remar contra moinhos de vento?

P.C. - Não! Considero-me como fazendo orgulhosamente parte de uma minoria, não sei se esclarecida ou não, mas que luta pelos nossos valores. Só tenho pena que os outros não gostem mais das coisas portuguesas, sobretudo na rádio e na televisão.

M.D. - Como seria, idealmente, o panorama da música portuguesa?

P.C. - Isto é um círculo vicioso, porque a música tem de ser feita para alguém e resta saber se esse alguém tem dinheiro e capacidade cultural para a consumir. Fala-se muito da música pimba. Música pimba não há, nós estamos é numa sociedade que está pimba. Eu acho que, tecnicamente, se faz muito boa música em Portugal. Mas, o que é que se cria para os mais miúdos?! A tentativa de facilidade dentro de uma profissão que é muito difícil e não chega para todos. Cada vez há mais cantores a quem o sangue é "chupado" e dois anos depois desaparecem. A maioria pensa que isto é um mundo de facilidade e onde se ganha dinheiro com bastante facilidade.

M.D. - Uma ideia errada?

P.C. - Ando nisto há 40 anos e sei que é errada. Há momentos muito bons, outros piores, mas se queremos respeitar a profissão, é muito complicado... Não é por acaso que eu e outros como eu recusamos ir à televisão divulgar o nosso trabalho quando não nos pagam, enquanto outros até pagam aos produtores de televisão para aparecerem. Isto não é respeitar a profissão.

M.D. - O que mais marcou na sua geração de músicos? Falou uma vez em “fazer a diferença”.

P.C. - Nós fizemos alguma diferença! Dentro desta geração havia dois grupos distintos: um com maiores preocupações políticas e o grupo a que eu pertencia, com algumas preocupações políticas (menos), culturais, sociais e artísticas. Faço parte do grupo que, se diz, apareceu através do Festival da Canção. Sempre nos preocupámos em fazer a música bem orquestrada, bem tocada, afinada de preferência... Curiosamente, é uma geração que tende a ser perfeitamente omitida hoje em dia. Não se fala dela. Estou a referir-me ao Fernando Tordo, Carlos Mendes, muitas vezes ao José Cid, Paco Bandeira, gente que tem grande importância!

M.D. - Porque é que isso acontece?

P.C. - Continuam a ser questões políticas. A censura continua a existir... omitindo. É um jogo: não se dá importância para que as pessoas possam vir a não ter importância. É bom que se diga que eu, o Fernando Tordo e o Carlos Mendes fizemos um dos mais importantes espectáculos da história da nossa música ligeira, que foi o Só nós Três.

M.D. - A sua carreira está, de facto, muito agarrada a um ou outro espectáculo, a participações políticas, a determinadas músicas. Porque é que acha que isso acontece?

P.C. - Posso dizer que os melhores discos que fiz são os menos conhecidos, os dos últimos anos: o Mátria, por exemplo, e o Alma, com a Orquestra Filarmónica de Londres, um disco só com músicas antigas portuguesas, dos anos 50 e 60, cantadas e tocadas de outra forma (aquilo a que eu chamei de disco de estudo). Em Portugal não teve aceitação (não foi devidamente divulgado). Curiosamente, fui convidado a ir a Caracas, porque alguém o ouviu e gostava que eu lá fosse cantar aquelas músicas com a Orquestra Sinfónica de Caracas. Mas isto é a nossa vida! Feita de altos e baixos. Só há uma forma de responder a estas coisas mais ou menos más que nos vão acontecendo: é trabalhar, fazer.

M.D. - Faz parte de 40 anos da música portuguesa, assinando temas tão emblemáticos e históricos como E Depois do Adeus, Os Meninos de Huambo, Lisboa Menina e Moça ou Os Putos...

P.C. - Como outros temas e como outras pessoas. Quantas cantigas tem o José Cid que são populares?! E o Paço Bandeira?! Quantos “cavalos à solta” fez o Fernando Tordo?! Isto tudo faz parte da nossa cultura, mesmo que as pessoas não queiram. Não se pode é esconder!

M.D. - No seu caso, a voz além de um instrumento de trabalho, tem sido um veículo de intervenção social. Falo das campanhas em que participou, ligadas a Timor, Angola, Moçambique, CERCI, luta contra a SIDA, concertos de beneficência para bombeiros, hospitais... É um homem de causas?

P.C. - Claro que sou. Ainda o ano passado fiz a música e dei voz à campanha do voluntariado (foi o ano do voluntariado). Não quero parecer malcriado, mas despendi uma série de horas de trabalho intelectual e físico e sinto uma enorme frustração porque parece que caiu tudo em saco roto...

M.D. - África sempre teve um cantinho especial no seu coração.

P.C. - Musicalmente, culturalmente... porque penso que tudo, em termos rítmicos sobretudo, nasce em África. Depois, porque não deito fora nem me envergonho de todos os séculos que tivemos em conjunto com os países que colonizámos e com quem tenho um bom relacionamento. Não pretendo ser um neocolonizador. (risos) Vim há pouco tempo do Huambo, onde estive a cantar numa cidade completamente destruída... foi muito bonito!

M.D. - Essas sensações devem ser muito fortes...

P.C. - São sensações que não há dinheiro nenhum no mundo que pague! Como aquelas que tive, há uns anos, a cantar em cima de um tractor no meio do Alentejo, para pessoas que precisavam de ouvir umas cantigas... Nunca tive a pretensão de ensinar caminhos, limitava-me a dar aquilo que tinha para dar: cantigas. Esta é a minha intervenção como português, cidadão do mundo.

M.D. - Que momentos recorda com mais carinho do pré-25 de Abril?

P.C. - Os Sheiks! A aprendizagem que foi andar com baterias às costas e tocar a música pela música. Depois, a grande amizade que havia, sem outro tipo de interesses, nos Festivais da Canção (até 1975/76). Nós cantávamos as músicas uns dos outros, participávamos nos discos uns dos outros... Essa ingenuidade foi muito boa! Foi fundamental para a minha formação enquanto músico, mas basicamente enquanto pessoa. Foi muito bom ter convivido esses anos todos com as pessoas com quem convivi...

M.D. - Como seria o Paulo de Carvalho sem o 25 de Abril? Imagina?

P.C. - (pausa) Não, não consigo! (risos)

M.D. - A revolução fez-se também na sua personalidade...

P.C. - A revolução modificou-nos a todos. Eu, politicamente, era um zero, sabia pouco... As pessoas da minha geração eram formadas em duas situações diferentes: ou na universidade ou no trabalho duro. E eu estou no meio: na universidade nunca andei, nem no liceu, e o trabalho duro também nunca o fiz (comecei a trabalhar com 14 anos, mas numa companhia de seguros). Portanto, foi o 25 de Abril que me fez descobrir uma série de coisas e participar nelas.

M.D. - As suas letras tinham sempre muito para dizer...

P.C. - Foi um momento de dizer as coisas directamente. Hoje em dia já não o faria, ainda que sinta que, 28 anos passados sobre o 25 de Abril, começa a apetecer dizer tudo da mesma forma, porque vejo as coisas a desmoronarem-se à nossa volta, até a esperança. E não sei se vou fazer isso nas próximas cantigas. Nem sei se vão ser gravadas! As editoras discográficas e a rádio não divulgam o que eu ando a fazer de novo e, por isso, tenho de descobrir outras formas de o fazer (a internet pode ser uma delas).

M.D. - Que momentos musicais destacaria nestes seus 40 anos?

P.C. - Muitos dos momentos que têm importância para as pessoas não serão os que têm importância para mim. Por exemplo: conhecer o Manolo Diaz (compositor), que escreveu Walk On The Grass para eu cantar, os momentos de convívio, a finalização da música em estúdio... Ganhar o Festival da Canção em 1974 não foi das coisas mais importantes para mim... provavelmente foi mais importante ter convidado o baterista Pedro Taveira (que, infelizmente, já morreu) para ir tocar comigo o Flor sem tempo ao Festival de 1971. Ter trabalhado com a Orquestra Filarmónica em Londres, ter gravado no ex-estúdio dos Beatles, é muito mais importante do que o não sucesso que o disco teve. Ter trabalhado com o Ivan Lins e os outros músicos no Mátria e depois ter ido ao Brasil com eles, fazer espectáculos em clubes de jazz do Rio de Janeiro, foi muito mais importante do que o não sucesso que o disco teve.
E essas coisas não contam muito para as pessoas hoje em dia... Hoje conta vencer. E o que é vencer?! É vender milhões de discos, é ser-se conhecido, aparecer nas revistas da moda... Eu penso de outra maneira!

M.D. - O segredo é estar-se bem rodeado?

P.C. - Rodeado só estive de amigos, não de pessoas importantes. O segredo, basicamente, é ser persistente.

M.D. - Mas são famosas as suas parcerias, quer com compositores, quer com cantores mais novos...

P.C. - Sim. E as músicas que eu fiz para gente desconhecida que nunca teve sucesso e que ficaram na gaveta?!

M.D. - Também já disse que prefere os mais novos...

P.C. - Sim. Acho que o pessoal da minha geração tornou-se acomodado e revoltado, em alguns casos.

M.D. - Como foram os diferentes “Paulos de Carvalho” à medida que os anos foram passando? Há muitas etapas...

P.C. - Hoje tenho consciência disso, na altura não. Essas etapas, essa busca constante, essa tentativa de descoberta, de participação em diversos tipos de música, fazem com que me considerem incoerente... Faço um disco que tem sucesso e no disco a seguir não conservo esse sucesso. Não é o sucesso que me preocupa. Preocupa-me é que tipo de tentativas de renovação gosto de fazer. Nesta altura, estou muito interessado numa sonoridade bastante acústica e, se calhar, nas próximas coisas que vou fazer, vou tramar a voz porque vou tentar passá-la por esquemas perfeitamente eléctricos.

M.D. - Já disse uma vez que “a música é para misturar”...

P.C. - Sim. Na música etno-urbana, que é o que faço hoje em dia, está tudo misturado. Sou um citadino e parto do fado, que entendo como música étnica, mas da cidade. Está tudo a nascer com dois companheiros, num projecto que se chama Oluap (Paulo ao contrário): o Filipe Lucas, que toca guitarra portuguesa de 14 cordas, e o André Sarbib, que é um dos maiores pianistas portugueses.

M.D. - Sempre o fado. Tem a ver com o facto de ser alfacinha de gema?

P.C. - Tem a ver com a descoberta da minha cidade, da cultura da minha cidade e, depois, do entendimento, a partir de certa altura, de que devia era usar as coisas que conheço, servir-me delas, respeitando-as. Não adianta muito cantar blues, porque eu não sei o que é.

M.D. - Ou jazz...

P.C. - O jazz já é diferente porque hoje se chama jazz à música de improvisação, que nós temos muito, dentro deste projecto. É difícil pôr rótulos às coisas que fazemos. Se me disserem que, conscientemente, utilizo a música da minha cidade e do meu país e lhe junto as influências que fui tendo... de facto, é isso que eu faço.

M.D. - Consegue conciliar bem o seu mundo profissional com o pessoal?

P.C. - Tenho conseguido. Se fizer um balanço, terei gerido muito mal a minha carreira, mas não me arrependo porque tenho tido uma vida muito preenchida em termos profissionais. Sou uma pessoa feliz. Desde que haja dinheiro para pagar a renda da casa, para se ir vivendo... a realização neste campo é fazer discos, músicas, trabalhos em conjunto, espectáculos onde haja uma comunhão com as pessoas que estão à nossa frente. Fazermos, só.

M.D. - Tem três filhos.

P.C. - Tenho uma filha e dois filhos e ainda hei-de ter mais, se Deus quiser.

M.D. - Já participou em quatro peças de teatro, em três longas-metragens. Como foram essas experiências?

P.C. - Foram muito boas. No primeiro filme, Perdido por Cem, há uma explicação: existiam duas personagens da música e eu acabei por entrar naquilo como Paulo de Carvalho. Devo dizer que adoro cinema mas detesto fazer cinema... não tenho paciência. É um trabalho muito tricotado, minucioso e eu gosto de ver o meu trabalho acabado o mais depressa possível. Daí ter gostado mais de fazer teatro. Mas, atenção: o cinema é das formas de arte que mais gosto! Curiosamente, ao contrário dos livros, tenho um filme preferido: 1900 de Bernardo Bertolucci.

M.D. - Está a ser concebida uma biografia sua.

P.C. - Sim, feita por um grande amigo meu, Alfredo Delgado, um ex-jornalista, ex-homem da rádio. Sabe mais da minha vida do que eu. (risos) Vamos tentar que seja publicada. Temos tido grandes dificuldades.

M.D. - Porquê?

P.C. - Não é comercial. É mais comercial uma qualquer senhora do nosso meio social escrever um livro e o publicar do que um fulano com 40 anos na vida deste país e uma obrazinha... Pretendia que o livro servisse para que as pessoas me conhecessem melhor, que fosse barato, acessível à maioria. É um livro grande... 40 anos é muito tempo! (risos)

M.D. - Como foi feita a selecção dos temas da sua Antologia (ed. Movieplay)?

P.C. - Quem escolheu este repertório e o pôs por ordem foi o José Niza, um dos compositores com quem trabalhei, sobretudo nos anos 70, e de quem há bastantes cantigas neste CD duplo. E depois fez algum sentido pôr 40 cantigas, por serem 40 anos, desde os Sheiks até ao Mátria, alguns duetos, com Dulce Pontes, Ivan Lins, Carlos do Carmo, Tito Paris, Tetvocal, com a minha filha...

M.D. - A sua filha também canta?

P.C. - Ela participou na gravação do disco da SIDA, cujos direitos eu ofereci à Comissão Nacional de Luta contra a SIDA, e neste disco do voluntariado, só que não fazemos questão em dizer, antes pelo contrário. Tenho muito orgulho nas coisas que ela faz musicalmente, ainda que ela não queira fazê-lo a tempo inteiro (chama-se Mafalda Sacchetti).

M.D. - Que projecto seria agora a realização de um sonho?

P.C. - O Oluap é o projecto do meu futuro musical. Neste momento seria fazer espectáculos para comemorar os 40 anos e que, acho, a maioria das pessoas ia gostar de ver! Começar na Flor Sem Tempo e acabar em cantigas como a Nini dos meus quinze anos, Gostava de vos ver aqui, os Dez anos... Não gosto de viver do passado, mas também não ponho de parte a ideia de fazer um espectáculo deste género quando faz sentido, e este ano acho que faz sentido.

M.D. - Que imagem gostaria que, hoje, as pessoas fizessem de si?

P.C. - Francamente não estou preocupado com isso. A imagem que as pessoas têm de nós, figuras públicas, é aquela que lhes chega através dos meios de comunicação.

M.D. - Mas tem chegado pouco.

P.C. - Deixei de aparecer em sítios que não me dizem nada... ainda há um bocado recusei ir a um programa de televisão. É engraçado verificar que as pessoas, sobretudo as mais novas, já não me conhecem. São os tempos a passarem e acho que o meu tempo de sucesso já passou. Hoje, não é tanto o que se faz, é a imagem que se tem.

M.D. - Já disse uma vez que “a unanimidade é uma chatice”. Acha que corre o perigo de se tornar unânime ao fim de 40 anos?

P.C. - Eu creio que aí não voltarei nunca mais! Mas já estive perto. Houve uma altura em que era quase unânime que eu era o fulano que melhor cantava nesta terra. Aqueles disparates que se dizem...

M.D. - Em vários artigos que li, definiam-no como uma das melhores vozes de Portugal...

P.C. - Em relação a isso, acho que há alguma unanimidade. Logicamente, acho que é mentira. Não há “o melhor” em música ou em qualquer forma de arte. Continuo a dizer que “o melhor” é a Rosa Mota ou o Carlos Lopes que eram os que chegavam primeiro e mais vezes ao fim (risos). Na arte, há patamares, há melhores, mas não há o melhor!

M.D. - Não há fim...

P.C. - Exacto! Não há fim.

Biografia autorizada

Tem 55 anos, nasceu a 15 de Maio de 1947 e chama-se Paulo de Carvalho. O nome é tipicamente português, nada de especial a destacá-lo. Excepto... 40 anos na música ligeira portuguesa, com temas como E Depois do Adeus, que deu ordem de marcha à Revolução dos Cravos, Os Meninos de Huambo, que teimavam em estar à volta da fogueira, ou ainda Dez anos, que era muito tempo e mal ele sabia quantos mais viriam...

Do futebol no Sport Lisboa e Benfica já só reza a história e a recordação de que “tinha jeito” para a bola, dos tempos de baterista dos Sheiks, a sua primeira banda fundada em 1962, sobram mil recordações saudosas e experiências gratificantes, de concertos pelo Portugal profundo, de instrumentos às costas. Ao Festival da Canção “ingressa” logo em 1970, com Corre Nina, um ano antes do 25 de Abril de 1974 grava o primeiro álbum de originais (Eu Paulo de Carvalho) e, com a música da Revolução, no ano da Revolução, vence o Festival RTP da Canção. E Depois do Adeus não era uma despedida. Muito pelo contrário.

Como compositor, começou com uma inesquecível Lisboa Menina e Moça, mas continuou com outras, como Os Putos (ambas interpretadas por Carlos do Carmo). Hoje tem o seu nome ligado a mais de duas centenas de músicas. Pedro Osório, José Niza, José Calvário, Ary dos Santos, Zeca Afonso, Rita Guerra, Maria João, Sara Tavares, Fernando Tordo, Carlos Mendes são apenas alguns dos nomes dos amigos e companheiros de luta com quem trabalhou durante estes anos, dezassete é o número de discos gravadosa e várias foram as editoras por que passou, com algumas relações conturbadas pelo meio.

Participou nos filmes Perdido por Cem de António Pedro Vasconcelos, A Crónica dos Bons Malandros de Fernando Lopes e Trânsito Local de Fernando Rocha, subiu aos palcos para dar voz e corpo a personagens de teatro, emprestou a música a inúmeras campanhas de solidariedade, homenageou as mulheres, com o álbum de 1999, Mátria, com textos de Maria Barroso, Simone de Oliveira, Isabel Ruth, Né Ladeiras, Ana Zanatti, Dulce Pontes, Maria Rosa Colaço, Mafalda Veiga. É difícil dizer tanto em tão pouco. Porque estes quarenta anos são mesmo muito tempo...!
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