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Correio da Manhã

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NÃO HÁ LUGAR PARA DIVORCIADAS

Há dias assim. Seria bem melhor um homem não sair de casa. Sobretudo quando esse homem é ministro, usa calças com fecho ‘éclair’, sapato quarenta e três – embora a mulher insista que o quarenta e um é que lhe garante uma proporção harmoniosa entre a altura e o tamanho do pé – e tem uma montanha de papéis para despachar. Ainda por cima com o país em guerra.
18 de Maio de 2003 às 00:00
A guerra invisível contra o inimigo invisível e o ministro da Guerra, em vez de contar balas e canhões, ali está de lapiseira em riste despachando mil requerimentos e petições.
Séculos de luta entre o Estado centralista e a descentralização saldara-se por uma vitória em toda a linha por parte do primeiro contendor. Àquela hora da manhã, o ministro da Guerra, Leónidas de Távora, já autorizara o 3.º Regimento de Cavalaria a comprar cem pacotes de papel higiénico, recusando os duzentos que haviam sido solicitados, sublinhando no douto despacho que era necessário fazer poupanças e, ainda, porque, estando o país em guerra, ficava na opinião pública a impressão de que a tropa se borrava de medo. Despachara também um volumoso processo sobre uma disputa de economato em que dois oficiais se haviam envolvido numa contenda sobre a natureza do sabão que deveria lavar as tropas nos inúmeros balneários de quartel e acampamentos por esse país fora. Ainda autorizara o general Teodorico Guedes a utilizar um helicóptero para transportar a esposa às termas por causa de uns problemas complicados de reumático que exigiam uns banhos especiais, quando o chefe de gabinete entrou a anunciar-lhe que a viúva do senhor coronel Alvuras estava à espera de ser recebida e que daí a pouco o Senhor Ministro teria de partir para Zulmirinho.
Largou a lapiseira, com um gesto de contrariedade, e perguntou:
- O que é que ela quer?
- Não sei. Foi o seu sogro que pediu que o Senhor Ministro a recebesse.
Suspirou vencido. Sempre o sogro. Uma
espécie rara de sarna que, por mais que se trate, não larga. Uma nódoa teimosa que lhe surgia na camisa a propósito de tudo e de nada.
- Manda a gaja entrar.
Não passava um dia que não tivesse de receber a mulher de um marido amigo do sogro ou o marido de uma mulher amiga da sogra que lhe ia pedir um favor. Uma promoçãozinha, por amor de Deus!, um lugar de assessor para o filho, pela sua rica saúde!, uma direcção de serviços, pelas alminhas!
Nem queria acreditar quando a viúva do coronel Alvuras entrou. As botas altas e a saia comprida mentiam. Escondiam, mas a racha de botões abertos descobria as pernas mais espantosas que existiam à face da Terra e a blusa justa, apertada na cintura, obrigava os seios a saltar, redondos e calibrados, na direcção do olhar de Leónidas.
Levantou-se para a cumprimentar e ficou mudo. Ainda hoje ninguém sabe se foi a dor que os sapatos quarenta e um lhe provocavam, compatíveis com a sua altura, mas em litígio com o tamanho dos pés, se foram os lábios sensuais, apoiados no olhar lascivo da mulher, que o fizeram entrar em choque. Ainda por cima desprezou a mão que o ministro lhe estendeu. Encostou-lhe os seios ao peito engravatado e beijou-o no rosto. Um beijo longo, arrastado e húmido. Quente. O ministro estremeceu. A sensualidade da mulher cortou-lhe a fonte das palavras e não admira, por isso, que nem a convidasse a sentar. Foi assim, quase encostados, ele a sentir as pernas dela para lá da racha da saia negra, ela, mulher de muitos saberes, ouvindo-lhe o coração a matraquear o peito. E porque fora ali para pedir, pediu. Que agradecia que o Senhor Ministro a tivesse recebido, por sinal bem mais atraente ao vivo do que na televisão, e que estava ali apenas para pedir justiça. A pensão de viuvez do falecido marido, o coronel Alvuras. Que bem sabia do que se falava à boca pequena sobre a sua morte no Afeganistão ao serviço das Nações Unidas. Que não morrera por causa do rebentamento da mina anti-carro, mas sim em cima de uma mocetona dos Médicos sem Fronteiras. Fora o coração que rebentara e isso não a admirava. Mesmo em Portugal, tendo em casa mulher, ainda por cima legítima, o Alvuras fora sempre um predador. Um verdadeiro oficial de operações especiais. Por isso que descansasse em paz. Morrera no seu verdadeiro e habitual campo de batalha – em cima de uma mulher. E afinal era uma mulher a principal vítima: a viúva que ali reclamava a sua pensão de viuvez. Que nem percebia a relutância do Governo. Sabia de pensões e promoções que não lembravam ao diabo. Até capitães que passaram a vida militar a roubar batatas do exército pátrio haviam sido promovidos a majores, de capitães-de-mar-e-guerra que chegaram a almirantes sem ao menos cheirar o mar.
- Eu mereço esta injustiça, Senhor Ministro?
A pergunta foi sussurrada, sedutora, ao ouvido enquanto acidentalmente a mão tocava a braguilha ministerial.
Era de mais para Leónidas. O cheiro a fêmea fê-lo esquecer a dor dos pés enrolados à bruta dentro dos sapatos quarenta e um. Balbuciou precipitado:
- Sim, claro, tem toda a razão!
Rodou o corpo e os seios gulosos acostaram ao peito. Não admira que tivesse perdido a cabeça. A mão desceu à racha da saia provocadora, a boca, demente, colou-se sem pensar aos lábios gulosos. Ela contra-atacou. Abraçou-o com violência e a língua, como se fosse um míssil enfiou-se até ás goelas do ministro da Guerra, explodindo em miríades na cabeça, e a batalha começou.
Leónidas empurra-a com violência para a secretária e o despacho vai pelos ares. Ela contorce-se contra ele e o ministro passa os limites da emoção quando descobre, durante o raide para lá da racha, que a viúva não usa cuecas. Possivelmente devido à poupança por causa da falta da pensão de viuvez. O ataque não envolve a Força Aérea, apenas a Infantaria, e aqui começa a derrota do ministro. Por mais explosões que lhe saltem das pontas dos dedos das mãos em cada avanço sobre a pele da viúva, os dedos dos pés guincham de dor. O quarenta e um não é definitivamente o número do seu sapato. Procura descalçá-los mas sem largar o corpo da oponente. Os beijos são cada vez mais frenéticos e os seios saltam os diques da camisa. Leónidas procura abocanhá-los, língua afiada atacá-los à baioneta, mas os sapatos não saem e as dores crescem. Até parece que os dedos dos pés se levantaram em manifestação contra o conflito. Porém, a refrega é intensa. Leónidas não pode pedir tréguas naquele instante para desapertar os atacadores e colocar os sapatos fora de combate. Até porque nesse momento a viúva do Alvuras ataca-lhe a braguilha. Um esticão, dois esticões, e percebe-se que por ali ela não consegue entrar. O ministro que lhe saboreia as pernas percebe o movimento militar e, generoso, resolve ajudá-la. Puxa o fecho éclair. Corre um centímetro e emperra. Os pés ardem como se a progressão da infantaria fosse sobre as areias quentes do deserto. O fecho éclair desce mais um centímetro, mas, desgraçadamente, o campo estava minado. Leónidas fica com a pele do dedo entalada no engenho. Agora a braguilha não abre nem fecha, as dores saltam raivosas, os pés duplicaram o tamanho e o ministro da Guerra transpira aflito. (...)
A OBRA
Enquanto escritor não tenho outra ambição que não seja contar histórias e, por elas, partilhar-me, cúmplice, com os meus leitores. Partilhar memórias e imaginários para depois rirmos juntos do mundo através do olhar da minha caneta. Na verdade, o pior legado que recebemos do Concílio de Trento foi esta predisposição para o ‘cinzentismo’, para o servilismo, como se, em vez de sermos obrigados a respeitar a Constituição da República, estivéssemos obrigados a servir um desses livros pífios de boas maneiras, que nos algemam os gestos, amordaçam gargalhadas e nos proíbem a liberdade.
Contra as boas maneiras, dei comigo a pensar: conta-se a história de um rufia que roubava batatas ao exército e, desconfio que por essa razão – ser ladrão –, se tornou num dos homens mais importantes do país. Sendo assim, porque carga de água o meu Leónidas de Távora, personagem por mim emprenhada e parida, ladrão ordinário, sem jeito para o trabalho, não pode chegar a ministro? E não é que chegou mesmo?! Confesso-vos: ri que nem um perdido. Espero que quando lerem ao menos partilhem comigo um sorriso. A mais simples manifestação da liberdade.
O AUTOR
Francisco Moita Flores nasceu em Moura, em 1953. Conhecido do grande público devido às suas actividades como especialista de assuntos de polícia e criminalidade e também como ficcionista, assinou alguns dos mais importantes trabalhos de ficção para televisão, tais como ‘Ballet Rose’, ‘A Raia dos Medos’, ‘O Processo dos Távoras’. Possui ainda uma vasta obra literária e ensaística, para além de profusa colaboração como articulista em vários periódicos.
Desde 1998 que a sua obra literária é editada pela Editorial Notícias, nomeadamente ‘Polícias sem História’, ‘Filhos do Vento’, ‘Ballet Rose’, ‘O Carteirista que Fugiu a Tempo’ e, agora, ‘Não Há Lugar para Divorciadas’.
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