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"Não há nenhuma como tu"

Já lá vão 15 anos deste ‘casamento’ feliz. Na música, Maria João e Mário Laginha desbravaram caminhos nunca antes navegados nos 12 discos que têm em comum. Na vida, fintaram alguns cabos das “tormentas”. E separaram-se. Em entrevista, desfiaram o que continua a uni-los e o que sempre os apartou, para terminarem com uma declaração de amizade incondicional.
26 de Outubro de 2008 às 00:00
Maria João e Mário Laginha
Maria João e M
Maria João e Mário Laginha
Maria João e M
Maria João e Mário Laginha
Maria João e M

Maria João - A música que fazes, a forma como a tocas é física. Qual achas que é o teu impacto no público feminino? (risos)

Mário Laginha – Essa pergunta é facílima de responder. A avaliar pela história da minha vida, o meu impacto no público feminino é nulo...

M.J. - Ai, não. Responde lá.

M.L. - Isto é muito a sério. Não me lembro do meu trabalho alguma vez ter sido avaliado dentro desses parâmetros. Pelo menos, não me lembro de ninguém ter feito uma abordagem desse género a um concerto meu! Vêm homens e mulheres ter comigo no final dos concertos e falam-me de música, nunca de atracção física, se é aí que queres chegar...

M.J. - Tu usas óculos, portanto nunca viste muito bem...

M.L. - Pois, eu uso óculos...

M.J. - Mas digo-te eu que estás completamente enganado. Como público, digo-te que isso é mentira.

M.L. - Mas tu não estás no público. Estás em cima do palco a cantar comigo.

M.J. - Nem sempre, às vezes vou ver outros espectáculos teus!

M.L. - Mas, então, que tipo de comentários é que já ouviste a meu respeito? Não, não digas... (risos)

M.J. - Então, pronto. Não posso dizer.

M.L. - Agora pergunto eu. O que achas que faz de ti uma pessoa tão especial em cima do palco?

M.J - A sinceridade e a vulnerabilidade...

M.L. - O que faz as pessoas ficarem babadas por ti não é a vulnerabilidade.

M.J. - É verem uma pessoa a ser absolutamente sincera.

M.L. - Desmonta isso.

M.J. - O palco é o sítio que eu amo. O sítio onde sou mais bonita, mais alta, mais magra, talentosa, feliz, tudo. É o sítio onde não tenho nenhum véu, nada a tapar. Sou o que sou. E isso vem ao de cima quando a pessoa faz aquilo que mais ama no Mundo, que é fazer música. Despe-se de tudo e fica ali nu...

M.L. - E o público agradece (risos).

M.J. - Existem muitos bons cantores em todo o lado. Mas eu própria me seduzo por essa honestidade: quando vou ver outro cantor, atrai-me quando expõe todos os seus defeitos e qualidades, grandezas e misérias. E em relação a nós, o que nos torna uma dupla tão especial?

M.L. - Temos personalidades muito diferentes mas não antagónicas. Musicalmente completamo-nos, as coisas encaixam perfeitamente. Já passámos por muitas tormentas mas sempre que fazemos um disco, como este que acabámos agora (‘Chocolate’), a música flui com enorme facilidade. Há um lado quase mágico nesta relação, com pormenores que se explicam e outros que não têm qualquer explicação possível.

M.J. - Mesmo as zangas. Surgem com facilidade e desfazem-se também muito rapidamente. Às vezes é só mesmo aquele glorioso prazer de embirrar... (risos)

M.L. - Mais da tua parte.

M.J. - Da tua também. Mas isso é saudável. Todos precisamos de alguém com quem discutir...

M.L. - Somos muito diferentes.

M.J. - Tu és muito mais calmo e politicamente correcto, eu sou mais emotiva. És Touro e eu sou Caranguejo. És pontual e eu não.

M.L. - A Maria João tem um lado infantil... pensou qualquer coisa e disse. Não interessa quem está!

M.J. - E ficas mesmo fulo quando esperas por mim?

M.L. - Houve um dia que comecei a fazer contas e somando só o tempo de espera já vai em meses...

M.J. - Ah! Nunca me disseste isso. Desculpa! Aliás, desculpa deve ser a palavra que eu mais te digo.

M.L. - Nem sempre pedes desculpa... às vezes chegas e dizes ‘bom dia’. E eu ali há horas à espera, com umas ‘trombas’. Sou é muito tolerante (risos).

M.J. - Se não peço é porque estou tão atrapalhada com o atraso que estou a tentar passar despercebida. Mas agora estou muito melhor. E eu também sou tolerante com a tua casmurrice. O Mário quando finca pé, fica obcecado. Além disso, é hiperpoliticamente correcto.

M.L. - Há coisas em que acredito e faço força nisso. Furto-me ao conflito e isso tem vários alcances: há coisas que não digo, mesmo que pense. Mas quando me pedem opiniões sobre assuntos fracturantes, assumo posições (dei a cara pelo aborto, por exemplo), portanto acho que não sou propriamente politicamente correcto.

M.J. - Mas, apesar destas discussões pequeninas, eu amo este homem e vou amá-lo até morrer. Ele faz parte da minha família.

M.L. - E tu como te caracterizas?

M.J. - Acho que sou uma boa pessoa. Mas a minha aproximação às coisas é sempre muito emotiva e intuitiva... só penso depois. Agora comprei umas cadeiras brancas lá para casa mas quero também comprar uma preta, porque eu sempre fui a ovelha negra... vai ser a minha cadeira. Gosto de sol, da praia, de desporto e amo o meu filho, o Mário, o meu namorado, os meus cães, a minha agente e a felicidade é que me motiva. Faço as coisas para ser feliz. Não preciso de muito para me sentir bem, da mesma forma que também não é preciso muito para me fazer perder as estribeiras. E considero-me uma pessoa forte e corajosa.

M.L. - Traçaste um bom perfil.

M.L. - Quais as melhores memórias que guardas das nossas digressões?

M.J. - Índia e Moçambique. Foram alturas muito felizes da minha vida. Estávamos a fazer música da qual gostávamos muito, com características étnicas que nos encaixavam muito bem. Além disso, Moçambique é a minha terra...

M.L. - ...Onde ela resolveu pilotar, pela primeira vez na vida, o bimotor que nos levava de Maputo para a Ponta do Ouro...

M.J. - Logo no início o piloto perguntou se alguém queria ocupar o lugar ao lado dele, que estava vago, e eu fui logo. Depois disse--lhe que o meu pai tinha sido piloto e ele perguntou se eu queria pilotar. Disse logo que sim, enquanto lá detrás só vinham os murmúrios do Mário. Foi uma viagem inesquecível...

M.L. - Só que de cada vez que ela via qualquer coisa lá em baixo inclinava o avião. Depois tentava endireitar e, como não tem experiência, o avião inclinava para o outro lado. Andámos uns dez minutos nisto, com quase 50 graus dentro do avião, toda a gente verde e só a Maria João exultante. Só me lembrava daquela anedota da caixa negra em que a última frase que se ouve é 'deixa lá o miúdo experimentar'...

M.L. - E por que será que chamámos ‘Chocolate’ a este disco?

M.J. - Porque esta música para mim são bocadinhos de chocolate. Pedacinhos muito bons desta música que já fazemos juntos há 15 anos. São prazeres, momentos de felicidade. Mas as minhas ideias nunca são nada de muito rebuscado. Neste caso, acho que é porque a música me dá tanto prazer quanto o chocolate.

M.L. - Achas que este disco corresponde exactamente à ideia que tínhamos antes de o começarmos a fazer?

M.J. - Não tinha nenhuma ideia propriamente, mas imaginava uma coisa elaborada, mais pesada. E o que ficou é bem mais bonito, mais levezinho e ensolarado. Tivemos sorte. Para tudo é preciso um pouco de sorte.

M.L. - É um disco que não tem informação em demasia e ficou diferente do que imaginava, talvez porque os músicos que nele participam o foram moldando. Nasceu literalmente em estúdio.

M.L. - Por que voltámos a trabalhar juntos?

M.J. - Habituei-me a olhar para o lado e a ver-te lá. Já é muito difícil quando não estás lá.

M.L. - Achas que sou insubstituível?

M.J. - Acho.

M.L. - Mas olha que não sou. Toda a gente tem uma parte que é perfeitamente substituível.

M.J. - E eu para ti?

M.L. - Não há nenhuma como tu.

PERFIS

A cantora Maria João nasceu a 27 de Junho de 1956 em Lisboa. Chegou a ser cinturão negro de Aikido e só descobriu a sua vocação para a música quando começou a ter aulas de canto no Hot Clube de Portugal, em 1982. Teve vários parceiros musicais mas encontrou em Mário Laginha o seu colaborador mais fiel, já lá vão 15 anos.

Mário Laginha nasceu em Lisboa em 1960. Estudou no Conservatório Nacional e foi um dos fundadores do Sexteto de Jazz de Lisboa. Recebeu vários prémios de jazz mas é como principal acompanhante e compositor de Maria João que tem tido maior visibilidade junto das ‘massas’.

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