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Correio da Manhã

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Não me obrigues a dançar descalço (por favor)

O meu irmão contou-me: viu esta cena num filme indiano. Imaginei-a a suceder na vida real.
26 de Outubro de 2008 às 00:00
Não me obrigues a dançar descalço (por favor)
Não me obrigues a dançar descalço (por favor)

Dois homens assaltam uma casa onde vive um casal jovem. Ele e ela amam-se. É fácil ver isso nos pequenos gestos de protecção; um e outro parecem prontos para um sacrifício.

Os assaltantes são sádicos. Vieram apenas roubar mas não suportam pessoas felizes. Sofreram de mais ou de menos: agora só conseguem ser cruéis.

Pegam em garrafas de vinho vazias e partem-nas contra o chão. Viram--se para a mulher, obrigam-na a descalçar-se, e dizem:

- Dança sobre os vidros. Quando parares de dançar matamos o teu marido.

É esta a situação. Ela não pode dançar para sempre, é impossível; no entanto não pode parar de dançar. Os pés ficarão cheios de sangue; até ela não suportar mais (não o sangue, mas a dor que está na sua origem). Quanto sofrimento suportará ela por amor?

É difícil, impossível mesmo, dizer quanto tempo - porém, de algo, ele, o homem que a amava, estava cada vez mais certo: se a situação fosse a inversa, se fosse ele a dançar com os pés nus sobre os vidros, o tempo que seria capaz de suportar a dor seria bem menor. Os pés dos homens e os pés das mulheres não são iguais.

Mas foi assim: havia vidros no chão e ainda, sobre o chão, dois homens cruéis que ameaçavam matar o marido quando ela parasse.

No sonho (era um sonho?), ela não parava de dançar e os dois homens cruéis a certa altura cansavam-se e abandonavam a casa sem matar ninguém.

Mas no sonho ainda, mesmo depois de os dois homens saírem, ela, a mulher, não parou de dançar. Talvez não tenha visto a saída daqueles homens. Ou talvez quisesse provar algo mais ao seu marido.

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