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"Não me vejo como a pedra na funda"

De volta aos livros policiais com 'O Colecionador de Erva', o ex-secretário de Estado da Cultura nega ser o dissidente do Governo.
24 de Março de 2013 às 15:00
Ex-secretário de Estado regressa aos romances policiais, novamente pelos olhos do inspetor Jaime Ramos
'O Colecionador de Erva' marca regresso do ex-secretário de Estado ao romance policial
Ex-secretário de Estado regressa aos romances policiais, novamente pelos olhos do inspetor Jaime Ramos
'O Colecionador de Erva' marca regresso do ex-secretário de Estado ao romance policial
Ex-secretário de Estado regressa aos romances policiais, novamente pelos olhos do inspetor Jaime Ramos
'O Colecionador de Erva' marca regresso do ex-secretário de Estado ao romance policial

Terminada a passagem pela Secretaria de Estado da Cultura e ultrapassado o problema de saúde que forçou a sua saída do Governo, no final de 2012, Francisco José Viegas regressa ao romance policial com ‘O Colecionador de Erva' (Porto Editora). Desta vez, o inspetor Jaime Ramos investiga a morte de dois russos e o desaparecimento da filha de uma família rica. Como muitas vezes acontece em Portugal, anda tudo ligado.

- Quando é que começou a escrever ‘O Colecionador de Erva'?

- Em 2010. Depois...

- Houve um incidente?

- [risos] Ficou parado durante um ano e meio. Mas de vez em quando voltava lá.

- O inspetor Jaime Ramos esteve presente em conselhos de secretários de Estado?

- Ele não sabia de nada [risos]. Ficou surpreendido quando o fui buscar para acabar o livro.

- Dias antes de sair do Governo foi anunciado que o romance fora adiado. Qual foi a razão?

- Não estava preparado para terminá-lo. Pensei que conseguiria nos fins de semana, mas um livro não é uma coisa de fim de semana.

- Acha que o teria terminado se não tivesse saído do Governo?

- Suspeito que não, suspeito que não... Mas o romance já estava em andamento. Poderia ter de adiá-lo outra vez, o que seria desagradável.

- Está preparado para que procurem ler nos pensamentos do protagonista o que sentiu enquanto secretário de Estado da Cultura?

- Isso acontecerá, mas escusam de procurar. É como se me perguntassem se o escritor esteve no Governo. Não esteve.

- E quando Jaime Ramos refere ter "estado internado no hospital, relegado para o fio da navalha, esmagado por diagnósticos que nunca entendera", como hipertensão, excesso de trabalho e esforço do coração?

- Em ‘O Mar em Casablanca', o inspetor tem uma crise cardíaca. A partir do momento em que tive a minha, tudo se relaciona. Mas quando fiz a descrição do que aconteceu à personagem, no livro anterior, estava longe de imaginar que iria acontecer algo parecido comigo.

- Consegue autopsicanalisar-se ao ponto para dizer como é que os problemas de saúde o alteraram enquanto escritor?

- Percebi, quando estava a acabar de escrever, que me tinham empurrado no sentido de uma maior leveza. Menos adjetivos, menos enchumaços, ir diretamente onde queria... Fiquei um bocadinho diferente.


- No início de ‘O Colecionador de Erva' aparecem dois russos assassinados, mas páginas mais tarde há quem garanta que "sobre russos já está escrito quase tudo"...

- Temos uma relação muito estranha com a imigração. Estamos a ficar um país muito pálido, a velhinha metrópole de antes do 25 de Abril. Tivemos nos anos 90 e na primeira década do século uma presença muito importante de imigrantes. Houve muitos serviços cuja qualidade melhorou graças à sua vinda.

- É uma característica nossa?

- Sempre fomos assim, só reagimos a estímulos de fora. A primeira revolução cultural em Portugal foram os retornados. O primeiro umbigo que vi no liceu era de uma colega que tinha vindo da Beira, em Moçambique.

- A quebra do sonho português é irreversível?

- Foi interrompido. Voltámo-nos para dentro porque os nossos problemas internos são de tal forma avassaladores que não temos tempo para quase mais nada. Esse sonho multicultural foi interrompido. Infelizmente.

- Deixámos de ser atrativos, como se costuma dizer.

- É verdade. Até para os brasileiros e africanos, que agora escolhem a Amértica ou outros países europeus.

- Os angolanos mais ricos continuam a escolher a Avenida da Liberdade...

- Portugal tem um problema mal resolvido com Angola e em algumas reações há até um pouco de racismo e xenofobia. Se fossem ricos suecos, noruegueses ou alemães, a nossa reação não seria assim.

- Mas sabe-se de onde veio a riqueza da maioria dos ricos suecos e alemães. Em alguns angolanos nem sempre é muito fácil perceber...

- (risos). Em muitos europeus também não queremos saber.

- Escreve que temos restaurantes de bairro em que "empregados brasileiros serviam comida italiana feita por uma cozinheira ucraniana". Estamos a perder a identidade nacional?

- Noutro dia estava em Trás-os--Montes e, num pequeno restaurante de uma pequena vila, o bacalhau, excelente, tinha sido cozinhado por uma brasileira e o empregado de mesa era ucraniano. A nossa identidade cultural foi sempre a misturança, que é um termo brasileiro. Não é tanto uma rede multicultural. Não é uma coisa pensada, é muito mais orgíaca.

- De certa forma é essa a luta da sua escrita?

- É... Partir, buscar influências e ver o que de melhor fizemos. Não só da escrita mas também de algumas pesquisas literárias. Seja para que lado for que nos deslocamos, encontramos sempre um português. Somos cada vez mais - e ainda mais devido à crise - uma cultura em diáspora permanente. Isso é interessante e promissor. Lembra a comunidade judaica.

- Somos muito errantes.

- Agora somos mais. A nossa relação com Angola, com Moçambique, com Cabo Verde, o regresso ao Brasil... Temos regressos periódicos ao Brasil: em meados do século XIX, na transição entre os séculos XIX e XX, a emigração de meados do século XX, que também passou por sítios como a Venezuela, a emigração semipolítica depois de 1974 e a atual onda de emigração. Nós temos um país em que dois terços do território estão ocupados por um terço da população.


- Visto do Espaço, o litoral entre Setúbal e Braga é uma das maiores faixas de luz ininterruptas do Mundo.

- Isso é verdade. Mas temos um território abandonado, o que me causa grande apreensão. Quando vou à minha terra fico satisfeito porque vejo o vale do Douro ocupado de novo pela agricultura. Voltar a ocupar o território é um movimento muito lento a que a crise nos está a obrigar. É positivo, ainda que por maus motivos.

- Há algo que se possa trazer para a cultura portuguesa dos milhares que vivem agora em Londres, em Madrid ou na Suíça?

- Essas duas gerações que estão em alguns países europeus podem enriquecer muito a maneira de nos relacionarmos. Em matéria de direitos civis, vêm habituados a outro tipo de comportamentos e de exigências. Por outro lado, nesses países existe um grau muito mais elevado de rigor e de disciplina, embora o rigor e a disciplina não sejam tão fascinantes quanto isso. Não estamos habituados a questionarmo-nos. Temos três ou quatro economistas de renome que questionam a nossa saída do euro e nós não colocamos essa hipótese.

- Há coisas que não discutimos...

- Não discutimos Deus, nem a Pátria, nem a Família nem o euro. Parece-me absurdo.

- O que o fascinou mais ao escrever o livro: as duas investigações policiais ou o retrato do País?

- Sempre adotei o princípio de que o romance deve contar uma história. Pode é não ser com princípio, meio e fim. Aquilo que me fascinou foi o retrato do País e ver como estamos perdidos, a necessitar de repensar o caminho que fizemos até aqui, e como isso entronca numa série de personagens.

- O título do romance deve-se a uma personagem que junta espécimes de ‘cannabis sativa', a planta a que dão muitos nomes na lusofonia, como maconha, liamba, marijuana ou bagulho. É uma resistente à unificação da língua?

- As designações da canábis são diferentes, mas a ortografia é livre. Varia muito, o que significa que os vários dialetos a designaram de acordo com cerimónias e ritos.

- Mas não há assim tantas palavras na língua portuguesa que variam tanto...

- É das que tem mais designações. Até erva.

- Não lhe faz confusão ler ‘colecionador' só com um ‘c'?

- Muita mesmo. A questão do Acordo Ortográfico é-me um bocadinho traumática, porque eu era membro do Governo e um dia disse que estávamos a tempo de corrigir erros, excessos e coisas que estavam mal. No dia seguinte, toda a imprensa, com raríssimas exceções, me atacava. Propus corrigir o que estava mal e fui crucificado, mas vejo com grande alegria que hoje todos repetem o que estava a dizer.

- Acredita que é possível corrigir o Acordo Ortográfico?

- Assistimos durante 20 anos a uma discussão inconclusiva. Nunca fomos capazes, enquanto país e comunidade falante, de escolher o raio de uma ortografia. Mas na véspera toda a gente apareceu a cortar as veias em público. Por que é que não cortámos metódica e disciplinadamente as veias ao longo de 20 anos? Trata-se de regras ortográficas. Não estou de acordo que se escreva ‘Egito' sem ‘p'. Acho ridículo. Espectáculo leva ‘c', porque não é espetador e sim espectador. Simplificou-se demais e, por ignorância e má-fé, começou-se a cortar todas as consoantes mudas. Mas nem todas são mudas e a pronúncia culta exige que as coloquemos. Fomos, mais uma vez, mais papistas do que o papa. Mas que faz impressão ‘colecionador', confesso que faz. Vou passar a pronunciar ‘coleccionador'. Provavelmente sou demasiado conservador.


- Portugal é um país aceitável para um conservador? (27.15)

- Não. (risos) Não temos muito prazer em conservar as nossas florestas, o nosso património, não nos damos conta da riqueza absolutamente espantosa do nosso património cultural e biológico. Ser conservador é um pouco isso. E admitir que as mudanças devem fazer-se com alguma serenidade. Somos muito levianos na forma como nos relacionamos com a realidade. Lembro-me do caso das matrículas dos carros... Num mês este país mudou as matrículas, que eram lindas, pretas com letras brancas, e passámos para estas. Aceitamos rapidamente algumas mudanças sem nos questionarmos, mas no que é essencial mudar não nos manifestamos. Os vencedores na História de Portugal nunca foram os conservadores.

- Isto vem das guerras liberais do século XIX?

- E da leitura que fizemos delas.

- Os liberais são os bons?

- São vistos assim, o que não é de todo errado. Há um livro marcante, que os historiadores deviam ler mais vezes, que é ‘Os Fidalgos da Casa Mourisca', do Júlio Dinis, o romance mais ideológico e panfletário de toda a literatura portuguesa. Devíamos ter atenção aos adjetivos que Júlio Dinis usava para a herdade do Tomé da Póvoa, progressiva e virada para o futuro e laboriosa, que se opunha à Casa Mourisca, em ruínas, sombria e coberta de ervas. Essa necessidade de ter dois mundos completamente opostos, sem pontes, foi traumática. Em Oliveira Martins, que tem a obra mais notável sobre o século XIX, nota-se perfeitamente que está a ser consumido por essa loucura da separação radical que nasceu em Portugal aquando da Convenção de Evoramonte, em 1834. De qualquer forma, houve países com guerras civis muito mais demoradas...

- E sangrentas.

- Mas não têm uma leitura tão ideológica. Arrumámos a questão em 1834, quando D. Miguel sai pela barra de Sines na direcção de Génova, e depois da Áustria. E depois arrumámos outra vez quando a família real foi pela Ericeira fora e depois quando o professor Marcelo Caetano também foi, mas de avião. "Eles foram-se embora, ficaram só os bons. Extirpámos a ferida e agora somos felizes", é a leitura que aparece nos manuais escolares.

- Já teve a tentação de tirar a bateria e o chip do telemóvel para não ser escutado, como faz um dos personagens do romance?

- Tirei várias vezes.

- Tem razões para acreditar que se não fizer isso será alvo de escutas?

- Agora não. Não tenho importância... [risos]

- E as pessoas que têm?

- Qualquer pessoa que tenha importância deve ter em atenção o telemóvel. É muito fácil fazer escutas em Portugal. Basta uma pequena viagem ao Paraguai, ao Brasil ou mesmo aqui a Espanha para comprar a tecnologia.

- Portanto, as pessoas que enriquecem a acumular segredos dos outros nunca tiveram tão boa vida?

- Em determinados períodos de crise, quem tem informação sobre os outros tem sempre um grande ascendente.


- O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, vai receber convite para o lançamento de ‘O Colecionador de Erva'?

- Com certeza [risos].

- E já algum funcionário da Autoridade Tributária o abordou desde o texto em que anunciou que mandaria "tomar no cu" quem lhe exigisse a apresentação de faturas?

- Já conversei com um, para tratar de um assunto. Ele sorriu.

- Comentou o tema?

- Perguntou-me se tinha guardado muitas faturas entretanto.

- Ficou muito surpreendido com a repercussão dessa carta aberta a Paulo Núncio?

- Muito. Para algumas pessoas o problema era ter sido membro do Governo. Devia calar-me eternamente, como se nunca tivesse sido uma pessoa livre e não tivesse o direito de emitir opinião. Por outro lado, Portugal faz autos de fé com grande facilidade e entusiasmo.

- Não terá também havido a tentação de o eleger como o dissidente do Governo?

- É normal, mas não tenho importância para isso. Se eu fosse o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais... Não me vejo como a pedra que vai na funda. Sou uma pessoa bem-educada, pelo que devo guardar uma certa delicadeza e um período de silêncio. Mesmo tendo a minha opinião, devo manter algum recato. E tenho guardado.

- Se soubesse o que sabe hoje, teria aceite o convite de Pedro Passos Coelho para ser secretário de Estado da Cultura?

- Não sei responder.

- E para encabeçar as listas do PSD por Bragança?

- Em meu entender, era necessário pôr termo àquela situação e afastar uma série de pessoas. Ainda por cima, tive a grata surpresa de ser o círculo com a percentagem de votos mais elevada. Foi uma boa vitória.

- Está em curso a lavagem da imagem do socratismo?

- As pessoas não esquecem. Não se fez ainda a leitura de como foi perniciosa a gestão dos últimos anos do engenheiro Sócrates, precisamente porque as pessoas fazem comparações imediatas com este tempo, que é muito difícil, no qual vivem circunstâncias injustas - todos os dias se defrontam com a perseguição fiscal e o corte nos salários. Nada mais injusto, a não ser que se explique muito bem o que se está a passar e as pessoas aceitem.

- Presumo que considera que não está a ser bem explicado.

- Podia ser explicado com maior clareza. Às vezes lembro-me do professor de Matemática que me explicou as equações de segundo grau. Lembro-me de o ver a escrever no quadro e de explicar que eu podia resolvê-las de uma maneira ou de outra. Escolhi a maneira mais simples, e resultou. Precisamos que todos percebam o que se passa com a nossa dívida, o défice e o endividamento da Segurança Social.


"DESCULPAMOS MUITO O ERRO E A FALTA DE PRINCÍPIOS NA POLÍTIC"

- Ainda é o seu Governo?

- É o Governo de Portugal.

- Votaria no PSD se houvesse eleições antecipadas?

- Não sei qual é o programa eleitoral. As pessoas devem votar num programa e este deve ser executado. Foi por isso que me empenhei na elaboração do programa de Governo para a Cultura, a pedido do próprio Pedro [Passos Coelho].

- O tempo passado no poder vai transformar-se num romance?

- Não há poder nenhum.

- Já Salazar dizia que se as pessoas soubessem o que custa estar no poder...

- ...se soubessem o que custa mandar, saberiam obedecer [risos]. O poder nunca me fascinou. Fascinou-me o exercício de uma função, no sentido em que se pode convocar pessoas para projetos. Sentiria que podia fazer um romance policial se visse a experiência como um thriller, mas não me parece que seja motivo disso. De memórias, certamente.

- E alguém terá medo dessas suas memórias?

- Hoje em dia ninguém tem medo em Portugal. As coisas diluem-se muito depressa e desculpamos muito o erro e a falta de princípios na política.

- Por sermos assim?

- Essa é uma explicação interessante. Às vezes não encontro nenhuma outra. É intrínseco.

NÃO LHE VALEU SER DE MURMANSK

"Que faz um cidadão de Murmansk nos pinhais de Vila do Conde?", pergunta o inspetor da Polícia Judiciária Jaime Ramos, personagem que acompanha Francisco José Viegas desde ‘Morte no Estádio'. O russo Arkady Tarasov foi executado, de nada lhe valendo ser veterano do Afeganistão e ter vindo de uma cidade cujas pessoas "têm fama de serem duras, resistentes, trabalhadoras e cruéis". No romance ‘O Colecionador de Erva' cruzam-se as investigações da morte de russos com negócios em África e o desaparecimento da filha mais nova de uma família rica do Minho. Tudo isto misturado com sexo e, claro está, erva.

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