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“Não sofríamos apenas com a guerra”

Da primeira vez que fui atacado, saltei do jipe e, em vez de me esconder, subi para o capot para ver o inimigo. Só que a arma encravou e só dei um tiro
8 de Janeiro de 2012 às 00:00
Em Nova Caipemba, a jogar futebol com os meus companheiros
Em Nova Caipemba, a jogar futebol com os meus companheiros FOTO: Direitos reservados

Nem sonhava ser mobilizado, visto que fui para a tropa em 1959 e até já estava em casa a gozar a licença quando fui chamado, em 1961, para ir para a guerra em Angola, que entretanto tinha rebentado. Deixei cá a família preocupada e a namorada. Ela tinha 16 anos quando começámos a namorar, mas é uma brava mulher... esperou por mim e ainda hoje continuamos casados. Já lá vão 47 anos.

Embarquei a 28 de Junho de 1961 e cheguei a Luanda a 7 de Julho. Na verdade, quando lá chegámos, a primeira impressão até foi boa. Desfilámos na marginal e ouvia-se muita gente a saudar as forças militares portuguesas. Depois, consoante fomos para o interior, as reacções dos colonos não foram assim tão boas... chegou mesmo a haver escaramuças com civis, pois alguns achavam que era por causa dos ‘piolhos verdes’ – os portugueses – que a guerra estava a acontecer.

Passei pelo Grafanil e depois segui para o mato. Estive na zona de Ambriz, Zala, Nambuangongo, sempre com a missão de patrulhar e defender o mais possível as posições portuguesas.

Arriscava-se muito. Como era condutor, deixava os camaradas na mata e depois ia por picadas buscá-los ao outro lado. Eram oito a nove horas de viagem para os condutores, sozinhos. Muitas vezes havia escaramuças pelo caminho. Mas, na altura, era tão magrinho que costumava dizer que os terroristas eram incapazes de me acertar. Cometemos alguns actos de loucura (não de heroísmo!). Da primeira vez que fui atacado, saltei do jipe com a arma na mão e, em vez de me esconder, subi para cima do capot para disparar e ver se via o inimigo. Só dei um tiro, pois a arma encravou logo de seguida. Mas tal como ainda costumo dizer, tinha a minha avó a proteger-me lá em cima...

MORTE BRUTAL

Aí nessa mesma zona, vi morrer o sargento José Paulo dos Santos, que se atirou para cima de uma granada para salvar a vida dos homens que estavam sob o seu comando. No dia anterior à sua morte, tinha-lhe perguntado como era combater na Índia, pois acabara de chegar de lá. E ele respondeu-me que não sabia comparar, pois ali, em Angola, nunca tinha entrado em combate. E logo a seguir perdeu a vida.

Os nossos postos de vigia eram altos, montados sobre colunas para estarmos ao abrigo do fogo raso. Havia lá um negro em quem tínhamos confiança, mas que começou a ir a todos os postos ver o que lá se passava. Desconfiámos e fizemo-lo prisioneiro. Depois viemos a descobrir que ele pertencia aos terroristas: recolhia as balas para lhes dar. Conseguiu libertar-se das cordas e fugir e quando já íamos no seu encalço, apareceram outros para o salvar...

Houve também um rapaz que teve de ser evacuado porque enlouqueceu: tinha visto um camarada a ser assado no espeto como um animal na aldeia do inimigo. Tinham sido emboscados. Esse rapaz tinha conseguido fugir, mas perdeu o tino.

Em Angola não se sofreu só com a guerra. Quase não tínhamos o que comer e, carne, só se a fossemos caçar. A única coisa que havia eram cabeças de porco já com o bicho da vareja. Lembro-me também duma vez em que dei com uns piolhos enormes a subirem pelas minhas pernas.

É claro que nos divertíamos. Em Nova Caipemba, apareceu, uma vez, uma banda para tocar para os soldados e eu acabei por subir ao palco. Quando dei conta até já tinha acompanhamento de guitarra e bateria. Jogávamos também à bola ou à batota. Na verdade, tenho boas memórias e saudades de algumas coisas, por exemplo as mangas, abacaxis e bananas, tão doces...

PERFIL

Nome: João Quintão

Comissão: Angola (1961-1963)

Força: Companhia 165 Batalhão 158

Actualidade: 73 anos, reformado, vive nas Mercês, Rio de Mouro, Sintra 

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