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Não ter medo de envelhecer

“Os meus meses cariocas devolveram-me à pátria com a sensação de estar a ser devolvido ao inferno – mas eu já tinha envelhecido em definitivo”
António Sousa Homem 19 de Junho de 2011 às 00:00

A principal tarefa dos seres humanos com algum juízo é saber envelhecer. Infelizmente não há uma receita nem para o processo, que é longo, nem para o objectivo, que é vago. A generalidade das pessoas teme a velhice e o envelhecimento; têm razões para isso: envelhecer empresta-nos um número infindável de doenças, de problemas de memória e de desajustamentos em relação ao mundo. Mas há vantagens: um certo respeito pelos nossos achaques, pela nossa falta de paciência e, certamente, pela nossa idade, que não tem a ver com o envelhecimento propriamente dito.

De facto, são coisas diferentes, como não deixo de fazer notar diante do espanto da minha sobrinha Maria Luísa, lembrando-lhe que nasci praticamente com trinta anos ou que, pelo menos, a minha adolescência e a primeira juventude não foram modelos de rebeldia a adoptar por um jovem contestatário na flor dos seus anos. Creio hoje que o fiz conscientemente e motivado por uma certa preguiça, ao ver como os rebeldes da minha juvenília chegavam aos trinta e aos quarenta anos conformados com o peso das responsabilidades e com a ameaça do arrependimento pelos excessos cometidos.

Suponho que Dona Ester, minha mãe, via em mim os sinais dessa preguiça. Ela assistiu, de perto, ao primeiro desgosto de amor, que foi quase mortífero; o segundo, porém, contou com a sua energia e autoridade, enviando-me para os areais do Tamariz e afastando-me das rochas melancólicas de Leça e de Ofir, onde costumávamos passar umas semanas de Verão antes do período regulamentar em Ponte de Lima.

Nessa altura, cancelar um casamento era um acto indigno e o preâmbulo de uma tragédia; por isso, como se as distracções do Tamariz não bastassem, encaminhou-me para Copacabana, certamente com a intenção de rejuvenescer-me e tornar-me um ser mais etéreo e risonho. Os meus meses cariocas, felizes e tépidos, devolveram-me à pátria com a sensação de estar a ser devolvido ao inferno – mas eu já tinha envelhecido em definitivo. Não havia nada a fazer. Limitei-me a preparar, no final dos anos quarenta, o que viria a ser o meu final de século. Envelheci com conforto e sem determinação, cheguei até aqui com a inestimável ajuda do meu médico de Viana e dos meus dois bibliotecários do Minho, além da presença de Dona Elaine, a governanta de Moledo.

Na semana passada, olhando a fotografia de um antigo namorado, Maria Luísa considerou, com alguma melancolia, "que ele tinha envelhecido bem". Sorri à ideia. Ela queria dizer que alguma coisa se aproveitaria da vida.

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