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“Não tive uma comissão normal”

Reconheço que tive uma vida boa. Fui um daqueles que não foram para o mato .
José Carlos Marques 2 de Março de 2015 às 12:23
Henrique Corrrêa da Silva (ao centro em baixo) com o pessoal do Pelotão de Abastecimento na Beira
Henrique Corrrêa da Silva (ao centro em baixo) com o pessoal do Pelotão de Abastecimento na Beira FOTO: D. R.

Em 1966 fiz o curso de oficiais milicianos (COM) em Mafra, de outubro a dezembro, com um frio de rachar… Por mero sorteio, fui parar com mais 49 mancebos à Base Aérea 2, na Ota, onde escolhi a especialidade de Abastecimento de Material de aviação. Após um ano na Ota parti, já como alferes miliciano, para o Batalhão de Caçadores Paraquedistas nº 31, sediado na cidade da Beira, em Moçambique.

Tendo saído de Lisboa em pleno inverno, num Boeing 707 fretado pela Força Aérea, o choque térmico à chegada à Beira foi uma coisa que nunca mais esqueci. Quando a porta do avião se abriu parecia que tinham aberto a porta de um forno, tal o contraste entre a temperatura climatizada dentro do aparelho e os 37 graus que faziam nesse dia de verão do Hemisfério Sul.

A messe dos oficiais, no Edifício Empório, em pleno centro da cidade, era confortável e com  ar condicionado. Já o mesmo não se podia dizer das instalações do batalhão, nuns barracões anexos à Base Aérea nº 10, onde os paraquedistas tinham ficado provisoriamente ao serem deslocados de Lourenço Marques (no mês anterior à minha chegada), para estarem mais próximos das zonas de intervenção, em Cabo Delgado e Tete.

 

A BEIRA

 

Nesses barracões tinham amontoado todo o material que ficaria à minha responsabilidade, em prateleiras a perder de vista. Fiquei apavorado, não estava nada preparado para aquilo, tudo parecia bem mais simples nas aulas teóricas da Ota… Mas em breve percebi que os meus quatro sargentos (a quem envio um abraço), auxiliados pelo fiel de armazém Brum (açoriano de gema), mais os 24 soldados e cabos especialistas do Pelotão de Abastecimentos, percebiam muito mais do que eu do assunto.

Descansado, pude desfrutar durante dois anos e três meses das praias da Beira, cidadezinha arejada com gente de ideias também arejadas, que se dava bem com a população indígena. A Beira tinha três cinemas, dois jornais, uma catedral, três cabarés e montes de cafés, onde a tropa passava o tempo enquanto aguardava a hora de ir para o ‘mato’. Felizmente, como oficial de Abastecimentos, limitei-me a sobrevoar o dito ‘mato’ quando tive de ir nos Nordatlas entregar material nas cidades do Norte, Nampula e Tete.

Ao fim de três meses, aluguei com outro oficial uma vivenda no Macuti, bairro chique  em frente ao mar, pois a messe ficava mais longe da Base Aérea. Conseguia sair pelas 15h30 e ir a casa pôr o fato de banho e mergulhar nas águas mornas do Índico no Clube Náutico, a 500 metros de casa. Mandei vir o meu carro de Lisboa, no navio ‘Niassa’. Fez-me confusão a condução pela esquerda, mas ao fim de uma semana já me safava. Nele fui várias vezes a Salisbury, a capital da Rodésia, a 600 km da Beira.

Em março de 1969 regressei a Lisboa num avião militar, com escala em Luanda e Bissau. E assim passei a minha comissão em África, foram dois anos e tal bem passados, que ainda hoje recordo com saudade. Reconheço que não foi uma comissão normal, como as que o ‘CM’ vem publicando aos domingos e que relatam episódios com mortos e feridos, mas achei que devia dar um testemunho de um dos muitos que não foram para o mato e ficaram pelas cidades.

Depoimento de Henrique Corrêa da Silva

COMISSÃO: Moçambique, 1967-1969

FORÇA: Batalhão de Caçadores Paraquedistas nº 31

ATUALIDADE: Aos 72 anos, está reformado. Casado, tem uma filha e dois netos. Vive em Lisboa

A minha guerra moçambique Henrique Corrêa da Silva Cidade da Beira
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