Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

Nas praias por esses rios acima

Margens dos rios são cada vez mais procuradas em alternativa à costa. A melhoria da segurança e das infra-estruturas convenceu os amantes da tranquilidade e da natureza.
23 de Agosto de 2009 às 00:00
Nas praias por esses rios acima
Nas praias por esses rios acima FOTO: Nuno André Ferreira

As árvores de verde intenso dobram-se sobre a água transparente, criando um túnel tranquilo, onde peixes, pequenas folhas e reflexos de luz emolduram as crianças que brincam com os pais. Nas margens do rio, sobre a relva, os corpos bronzeiam-se, enquanto num plano secundário já se ouve o estalido das brasas nas churrasqueiras. Há um rádio a pilhas a tocar. Ao redor, no horizonte, a montanha envolve o cenário. São estas paisagens que os portugueses escolhem cada vez mais nas férias de Verão: aproveitam a grande melhoria registada na segurança e nas infra-estruturas das praias fluviais.

Em Aldeia Viçosa, na Guarda, uma das nove praias fluviais galardoadas este ano com a Bandeira Azul, Salvador Brandão, 52 anos, fotografa as duas filhas num dos planos de água do rio Mondego travados por pequenos diques. Uma das raparigas faz poses de modelo fotográfico, semicoberta pela água – a mãe observa da margem. 'É a primeira vez que estamos nesta zona, costumamos passar as férias no Minho e nas praias da Linha', diz o chefe da PSP, que vive com a família em Lisboa. 'As praias fluviais estão melhores ao nível da segurança e da qualidade ambiental', constata. Na verdade, melhoraram muito nos últimos 16 anos, passando de 18% para 92,8% em conformidade com as exigências comunitárias. E a concessão das praias, a criação de áreas de apoio e a contratação de nadadores salvadores reduziu os riscos e o número de afogamentos nos últimos dez anos.

Este Verão, Cristina Pereira, 38 anos, e João Costa, de 44, esqueceram o Algarve e partiram de Azeitão com destino às praias fluviais da região Centro, que conheceram pelo Roteiro das Aldeias Históricas de Portugal. 'É o primeiro ano que fazemos este género de férias', diz ela, visivelmente satisfeita com a escolha: 'Viemos pela tranquilidade e vale a pena. As pessoas não têm a noção do que são estas praias. São óptimas, por exemplo, para quem tem família e miúdos pequenos'. O casal está na praia fluvial da Fróia, em Proença-a-Nova, mas já passou por outras da região nos sete dias de descanso. Cristina Pereira só lamenta ter de partir, mas a tese de doutoramento que está a preparar sobre o Terramoto de 1755 não lhe deixa outra escolha: 'Tenho de ir trabalhar!' Na memória vai levar pelo menos um refrescante duche com o companheiro na cascata da ribeira da Fróia.

Em Portugal há milhares de sítios para tomar banho em rios, lagos e lagoas. Há centenas de praias fluviais e, em última análise, qualquer margem de rio é uma em potência. Mas das 97 zonas balneares interiores classificadas este ano, apenas metade (48) foi aprovada pelos ministérios da Defesa e do Ambiente como praias fluviais ou lacustres. Estas são as que respeitam as exigências comunitárias, logo as mais seguras. A legislação portuguesa não obriga à existência de vigilância nas restantes.

'Não há problemas de segurança, em que seja preciso socorro, a não ser um ou outro cortezito sem importância', explica Marta Ferreira, 38 anos, nadadora salvadora na praia fluvial de Aldeia Ana de Aviz, em Figueiró dos Vinhos, enquadrada por um milharal, pinheiros e girassóis. Aqui, a Bandeira Azul foi arreada por um dos parâmetros na água não estar conforme as regras.

'Esta praia tem muita frequência. Vem muita gente, sobretudo ao fim-de-semana. Muitas pessoas de fora do concelho, emigrantes e até estrangeiros', conta Marta Ferreira, nadadora salvadora há dez anos. O seu colega de Aldeia Viçosa, Vítor Plácido, refere o mesmo tipo de incidentes de segurança e destaca a afluência: 'Vem muita malta nova durante a semana. Há pessoas que ficam o dia todo, famílias e turistas. Há cada vez mais gente: chegam a estar aqui 400/500 pessoas, a praia já parece pequena'. Neste caso, o nadador salvador, de 37 anos, tem ainda o encargo de vigiar o escorrega do miniparque aquático que faz as delícias dos garotos e alguns mais crescidos.

E, se esta infra-estrutura pode considerar-se um ‘luxo’ inesperado à beira de um rio, outras criadas ao longo dos últimos 16 anos fizeram aumentar a oferta e a qualidade. No âmbito do Programa Nacional de Valorização das Praias Fluviais, entretanto extinto, foram investidos três milhões de euros na implementação de espaços associados a actividades recreativas e lúdicas; o que significa a construção de bares, sanitários, campos de jogos, parques de estacionamento e, por exemplo, zonas para piqueniques. É o que acontece em Valhelhas, na Guarda, onde a praia, que também ostenta a Bandeira Azul, tem ainda um parque de campismo nas proximidades.

E há praias onde os responsáveis foram mais longe, como na Louçaínha, na Serra do Espinhal, em Penela. Aqui até há uma Fluvioteca, uma biblioteca com jornais, revistas e livros, muito procurada pelos veraneantes. E nem falta um jornal inglês, por uma razão simples, como explica Carlos Zuzarte, 36 anos, proprietário do restaurante-esplanada à beira do rio: 'Aqui vêm muitas pessoas, sobretudo de fora do concelho e muitos turistas ingleses, franceses e holandeses'. Beneficia do facto de integrar as 21 zonas balneares da Rede de Praias Fluviais das Aldeias de Xisto e ter hasteada a Bandeira Azul.

'Há cada vez mais procura destas praias como alternativa à costa marítima. As pessoas vêm para o meio do verde', diz o empresário, estabelecido ali há dois anos e ligado à restauração desde os sete anos. A natureza é, aliás, uma das principais motivações dos muitos milhares de amantes das praias fluviais, que a partir daqui fazem percursos por aldeias típicas, florestas, serranias e vales com recantos quase intocados pelo Homem. Um deles encontra-se no Penedo Furado, em Vila de Rei. Além do plano de água para banhos, os veraneantes podem seguir por um trilho, numa encosta do rio, até chegar às fragas. Ao fim de 15 minutos de caminhada encontram-se umas cascatas naturais, que formam pequenas lagoas, onde é inevitável um banho sob a protecção do arvoredo e das rochas que se levantam abruptamente em redor. José Clemente, 23 anos, e quatro amigos – dois rapazes e duas raparigas – escolheram esta zona para passar um fim-de-semana de descanso. 'Estamos alojados no Carvalhal e é a primeira vez que vimos a esta praia', diz o repositor, que – apesar da trovoada e da chuvada momentâneas – não hesita em atirar-se ao rio com os restantes companheiros, refrescando-se do calor sufocante e mostrando o gosto do grupo pelas águas interiores.

Mas, apesar da beleza natural, da vigilância e da melhoria de condições, à mínima distracção – aliás, como nas praias costeiras – pode acontecer um acidente. No caso das fluviais, os veraneantes, além de outros cuidados, devem lembrar-se de que nos rios há uma maior dificuldade na flutuação e o cansaço é superior – devido à altitude e às correntes –, e um maior risco de hipotermia por causa das temperaturas mais baixas. As zonas balneares interiores aprovadas pelos ministérios da Defesa e do Ambiente são mais seguras, até porque têm nadadores salvadores. As outras não estão interditas aos banhistas, mas o seu uso é desaconselhado. Nos primeiros dois meses da presente época balnear, todos os afogamentos aconteceram em praias sem vigilância.

Tomadas as devidas precauções, Carlos Zuzarte não se cansa de elogiar as praias dos rios, onde, até por força da sua actividade, passa as férias: 'Faço ao contrário dos outros, vou de vez em quando à costa!' 'Aqui vêm muitos jovens escuteiros, que depois voltam com as famílias, criando-lhes o hábito. Outras vezes vêem-se grupos de 10/12 jovens. E há muitas pessoas que trabalham e ao fim do dia aproveitam para vir dar um mergulho', diz sobre a Louçaínha, uma das praias interiores mais antigas do País, alvo de obras de melhoramento em 2006.

Até para conhecer a diversidade da cultura, do património e da gastronomia das terras e das gentes aquém mar, tem vantagens uma fuga do Atlântico para o interior. Há inúmeras propostas de passeios pedestres e roteiros que facilitam a vida aos banhistas. Um dos melhores exemplos na região Centro são as Aldeias do Xisto. E, se é verdade que o Sol quando nasce é para todos, também o bronzeado à beira-rio é igual ao trabalhado no areal do mar. No primeiro caso, com a vantagem de as sombras serem gratuitas quando o calor aperta em demasia.

RECUPERADA APÓS AS CHEIAS

Baltazar Lopes, presidente da Junta de Freguesia de Aldeia Viçosa, autarca há 20 anos, é um homem orgulhoso da ‘sua’ praia fluvial. Recuperada há três anos, após as cheias, ostenta desde então a Bandeira Azul. Para conseguir a distinção foi preciso investir cem mil euros em infra-estruturas que garantam a qualidade da água e da zona envolvente. Após a construção do miniparque aquático, Baltazar Lopes pensa chegar mais longe: 'Quero pôr ondas no rio, através de um sistema artificial', diz, embora sem saber muito bem como concretizar esta ideia.

COMPANHIA PARA A SESTA

Armindo Mário, 60 anos, costuma ir à praia fluvial com o neto e as vizinhas. São do Rabaçal, preparam o farnel e, à hora certa, arranjam a melhor vista para as águas da Louçaínha. 'Gostamos muito, é muito bom. Só me falta uma companhia para dormir a sesta!', diz com ironia.

O ALGARVE DOS CARDOSO

na praia fluvial da Senhora da Ribeira, em Santa Comba Dão, a família Cardoso (uns de Lisboa e outros de Viseu) aproveita o fim-de-semana. É hábito irem à albufeira da Barragem da Aguieira, onde, devido à sua extensão, há muitos barcos e motas de água. Além de inúmeros carros, que – ao contrário do desejável – estacionam quase à beira da água. O grupo, sobretudo as jovens, está bem-humorado e, enquanto se faz à fotografia, anuncia: 'Conheça o Algarve da família Cardoso'.

TODA A GENTE MANDA NOS NOSSOS RIOS

As praias fluviais são da responsabilidade de várias entidades, o que nem sempre facilita a gestão dos recursos. O Instituto de Socorros a Náufragos, que está sob alçada da Marinha, é responsável pelas zonas costeiras e as praias dos principais rios: Minho, Douro, Tejo (até Vila Franca de Xira) e Guadiana. As restantes são tuteladas pelas cinco administrações regionais hidrográficas, pelo Serviço de Protecção do Ambiente da GNR e ainda pelas câmaras municipais. Mesmo assim, nem todas são vigiadas, porque a legislação não o obriga.

'AQUI NADA-SE. O MAR NÃO PUXA' 

As vantagens das praias fluviais são óbvias para Diana Fernandes, 19 anos: 'Aqui nada-se, o ‘mar’ não puxa. Há mais descanso, é tudo mais tranquilo. O único senão é a água ser um pouco mais fria'. A jovem está na Aldeia Ana de Avis, com o namorado, André Gorgulho, 20 anos. São de Almada e costumavam ir às praias da Costa de Caparica. Têm família em Arganil e decidiram passar este ano as férias na região Centro, encontrando-se alojados num parque de campismo. 'É a primeira vez que vimos a uma praia fluvial e estamos a gostar muito. É um espectáculo!', diz Diana Fernandes. O casal está numa praia com acessos privilegiados, muito próximo do IC8, que liga Figueira da Foz à Sertã.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)