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NASA põe lusos a gravitar

Dois estudantes portugueses (e um tutor), em 150 jovens, com o corpo a gravidade zero. Estiveram na NASA a descobrir façanhas da conquista espacial.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
Foi surreal o campo restrito a que tivemos acesso, onde o núcleo de elite científica se debate com o desenvolvimento de novas tecnologias”, diz João Pedro Costa, um dos dois alunos finalistas do 12.º ano seleccionados para representar Portugal no Internacional Space Camp da NASA, Hutsville, Alabama. E explica: “Vivemos as mesmas sensações de um astronauta no processo de descolagem, na vivência no espaço e no regresso. Tomei contacto com progressos realizados nas últimas décadas e fiquei com uma ideia do esforço científico necessário para alcançar uma missão desta natureza”. Discurso ao sabor das emoções vividas, João Pedro recorda o que é ser lançado para o espaço, participar em actividades como reparar um satélite ou proteger-se de uma explosão solar sem sair de dentro da estação espacial.
A Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva, que tem o ónus de convidar as figuras que considera mais representativas na área, convocou o astrónomo amador David Nunes, do Observatório Astronómico de Mira, para ser o monitor responsável pela participação portuguesa nesta missão. Levou com ele João Pedro e Sofia Santos da Escola Secundária Dr.ª Maria Cândida, de Mira, com quem mantém parceria de trabalho. Das experiências vividas, a que mais marcou o astrónomo amador foi o teste da gravidade zero. “Não há nada igual na Terra”, enfatiza, sem palavras capazes de definir a sensação: “Como o nosso corpo está habituado a viver em gravidade, com os pés assentes na terra – mesmo que a cabeça ande no ar – de repente o nosso corpo sentir-se sem gravidade é algo de muito estranho”, conta.
“Primeiro, enquanto o avião efectua a subida, e como estamos sujeitos a uma gravidade duas vezes maior que a da Terra, temos uma sensação de peso. Depois, quando entramos na gravidade zero, é algo que lembra uma queda da cama. Sente-se um calafrio na espinha. Começamos a flutuar dentro do avião e conseguimos fazer quase tudo o que queremos. Rebolamo-nos como um caracol e não paramos mais de rebolar. Atiramo-nos para o ar e ficamos a voar. Qualquer coisa de fora de série e de muito emocionante. Algo de tão simples como despejar água num copo é, nestas circunstâncias, simplesmente impossível. Tentamos tirar a água da garrafa e ela não sai. Temos que espremer o recipiente para ela sair em bola mas não conseguimos apanhá-la com a boca. Foi certamente das experiências mais fantásticas da minha vida”, constata o único português que, através da NASA, participou na aventura.
João Pedro Costa, seleccionado por ter sido um dos dois melhores alunos da área científica da sua escola, terminou o Secundário com média de 19,5 valores e entrou na Faculdade de Medicina do Porto. Não pensa vir a trabalhar no campo da clínica porque tem como objectivo dedicar-se inteiramente à investigação. “Hoje em dia o espaço e a investigação estão bastante ligados pelo que um dos meus sonhos é exercer, durante um período, investigação na estação espacial internacional”. Meta intensificada nesta visita à NASA, porque “criou um contacto próximo com o quotidiano de um astronauta e fez crescer o sonho de passar uns dias no espaço”, explica.
Com os restantes 150 jovens de 32 nacionalidades que o acompanharam na missão, João Paulo criou relações intensificadas pelo “fascínio comum pelo espaço e pela ciência”. Participar na Parada das Nações da NASA representou uma das mais interessantes curiosidades: “Fui trajado de pescador típico da minha região e fiquei ao lado de um russo com um fato apropriado para suportar muitos graus negativos. Foi uma boa maneira de representar o povo português que ao longo dos séculos conquistou os mares”, conta, cabelos longos, alto e magro, discreto e aparentemente tímido, consciente que as relatadas vivências ficarão registadas para sempre na sua memória.
Para David Nunes, 36 anos, técnico de manutenção de aeronáutica, a experiência permitiu-lhe o acesso a todo o historial do programa espacial norte-americano. Esteve no United States Space & Rocket Center, local para onde confluíram os cientistas alemães depois da Segunda Guerra Mundial, os pais de todo o programa espacial norte-americano e da primeira viagem à Lua. Durante oito dias os três portugueses fizeram um curso de astronáutica com estudos dedicados ao Space Shut e efectuaram missões que visavam ter um contacto real com as operações que se realizam na NASA. Aprenderam a construir réplicas de foguetões com garrafas de plástico e cartões para, através de ar comprido, enviarem a uma altitude razoável.
Pequenos ‘workshops’ para aplicar nas escolas primárias portuguesas, onde serão convidados a fazer demonstrações. Tais ensinamentos não fazem, todavia, tanto furor como o telescópio que David Nunes tem instalado na Praia de Mira. “É um dos maiores a nível amador em Portugal – tem dois metros de altura e um espelho de 16 polegadas”, diz, envaidecido. “Num local escuro, permite observar coisas extraordinárias que existem no nosso universo. Vemos desde galáxias a enxames solares e planetas, o que, para a maioria das pessoas, é algo de insólito”, enfatiza. Nas sessões públicas que realiza aparecem pessoas curiosas: incrédulos, teimosos e ignorantes. Conta David Nunes: “A história mais caricata que me aconteceu foi com um senhor que jurava a pés juntos que é o Sol que gira à volta da Terra, pois a Terra está fixa no centro do universo.
Convicto, afiançava que o homem nunca foi à Lua e que, inclusivamente, tinha em casa livros muito antigos que provavam as suas teorias”. Nunes limitou-se a responder-lhe: “O melhor que o senhor tem a fazer é comprar livros novos”. Ao redor do telescópio também encontra os “que dizem que somos visitados por extraterrestres e os que não aceitam que podemos observar Júpiter”. E, contra si próprio recorda, certa vez que fixava a Lua; ao tirar-lhe uma fotografia, constata que nela estavam inseridas muitas luzes intermitentes e brilhantes. “Eram as janelas de um avião que passava em frente”, diz, encolhendo os ombros.
Mais insólito: outra vez, Nunes dirigia o telescópio para o céu quando, de repente, salta à sua frente uma brigada da GNR, de G3 em punho. O astrónomo amador foi obrigado pelos agentes a observar uma luz intensa, ao longe no mar. Supostamente, estariam perante uma embarcação a descarregar droga. Puro engano. Afinal, o flagrante delito era uma pescaria.
DESCOBERTO E A DESCOBRIR
AS ORIGENS ASTRONÓMICAS
A Astronomia Contemporânea é a ciência que estuda, com recurso a observações e à Física, o cosmos e os eventos que ocorrem fora da Terra e da sua atmosfera. No espaço, sucedem-se as descobertas. Mas só é possível observar, a nível das galáxias e planetas, 10% da poeira cósmica. Agora descobriu-se a Bolha Local: ficou a saber-se que o Sistema Solar se insere numa cavidade, causada há 13 milhões de anos pela explosão de 19 estrelas que passaram junto do Sol, onde há gás e temperaturas de um milhão de graus. Para o astrofísico Miguel Avillez, presidente da Sociedade Portuguesa de Astronomia, importa “explicar a metalicidade das nuvens de alta velocidade que são observadas no halo da nossa galáxia”. Um avanço na origem da vida.
MAIOR TEMPESTADE DE METEOROS
ESPETÁCULO EM 2007
Dois astrónomos que têm utilizado computadores superpotentes para prever chuvas de meteoros, acreditam que, no dia 1 de Setembro de 2007, da zona ocidental dos Estados Unidos, do Canadá, do Alasca e do Havai se poderá assistir àquela que será a maior chuva de meteoros de sempre.
Os investigadores Esko Lyytinen e Peter Jenniskens, que em 2001 e 2002 maravilharam o Mundo e muitos observadores pela precisão das suas previsões, garantem que no próximo ano a Terra estará muito próxima do centro da poeira da cauda do meteoro Aurigids – o que “provocará uma chuva incrivelmente brilhante”. Para já, mesmo não sendo possível antever a real intensidade do fenómeno, os astrónomos apostam que se pode estar muito próximo de assistir “a uma verdadeira tempestade de meteoros”.
O astrónomo amador David Nunes afirma que, “durante o ano, existem cerca de 12 chuvas de estrelas cadentes, originadas pela passagem da Terra por ondas de poeiras largadas pelos cometas que andam à volta do nosso Sistema Solar”. Sobre a tempestade de meteoros que se adivinha acontecer em 2007, Nunes previne, “que é falível”. “Como as chuvas têm uma periodicidade regular é fácil adivinhar quando é que são mais intensas, mas não sabemos é exactamente a densidade com que isso vai acontecer.”
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