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Correio da Manhã

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Nascer outra vez

Acompanhou Carlos Paredes na viola e na doença. Agora dedica uma canção ao mestre. O fado de Luísa Amaro faz renascer a alma do génio.
1 de Maio de 2005 às 00:00
Nascer outra vez
Nascer outra vez FOTO: Sérgio Lemos
Todos os dias, Luísa Amaro percorria em silêncio o extenso corredor alcatifado do primeiro piso da Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Campo de Ourique, para não despertar os hóspedes que aproveitavam as horas de almoço para fazerem a sesta. Só travava os passos à frente da última porta, o quarto onde o seu companheiro, na vida e na viola, se extinguia lentamente de uma doença neurológica que lhe afectava a espinal-medula. Entrava sem bater, apanhando-o quase sempre a dormir profundamente. Pousava a carteira no chão, sentava-se na cadeira ao pé da cama, e ali ficava a tarde toda, a olhar para a luz do sol que entrava pelo quarto adentro, colorindo as quatro paredes deslavadas. Sentia-se em paz. Sabia que, a qualquer momento, Carlos Paredes, o homem que levou a guitarra portuguesa para um campo que ninguém tinha ousado antes, ia abrir os olhos e alegrar-se com a sua presença. “Ele vivia numa tranquilidade absoluta. Isso só acontece a quem está bem consigo próprio”, desabafa Luísa, 46 anos, sentada no jardim que envolve a casa onde cresceu, num dos bairros mais elegantes de Lisboa.
Os dois estavam juntos há dez anos quando Carlos Paredes, que tinha passado a tarde em casa, com o corpo debruçado sobre cada corda da guitarra, teve de ser levado de urgência para o Hospital Santa Maria, a 11 de Dezembro de 1993. E se nos primeiros dias, Luísa, então com 35 anos, não conseguia controlar as lágrimas, incapaz de aceitar tamanho infortúnio, com o passar do tempo foi ganhando calo. “Se ele tivesse morrido mais cedo, não sei como teria sido. Ficaria muito desequilibrada, não tinha armas para combater tal sofrimento”, admite.
À custa da dor, Carlos Paredes deu-lhe onze anos para se preparar. O coração do maior guitarrista português parecia resistir a tudo - estava agarrado à vida. Luísa retribuiu-lhe o gesto, e passou a viver em função da doença dele, para que o amor da sua vida pudesse ter o conforto possível. Apesar da diferença de idades, mais de 30 anos, ela foi um exemplo de abnegação e de amor incondicional. Só teve descanso quando o conseguiu tirar da unidade hospitalar, fria e impessoal, e o transferiu para o Lar Nossa Senhora da Saúde, onde foi logo acarinhado pelas funcionárias, jovens raparigas, que o tratavam como se fosse um filho. “Sentia que era um ser humano de quem gostava muito e que precisava da minha ajuda. Só mais tarde tive a percepção da verdadeira importância do Carlos”, revela a sua última companheira.
Até à hora do jantar, Luísa entretinha-o com histórias de um passado recente, quando os dedos do mestre ainda não tremiam, tornando-se depois incapazes até de segurar uma colher. Os temas clássicos de Johannes Brahms ou de Bela Bartok preenchiam os silêncios prolongados. O artista, que modestamente viveu o seu sucesso, modestamente abandonou os palcos quando a doença o obrigou a abdicar da guitarra. Desde esse dia, a sua música, “tão original e tão reconhecível, tão portuguesa e tão universal”, nas palavras do Presidente da República, Jorge Sampaio, foi abafada. E isso, para ele, já era um prelúdio de morte. “Odiava quando lhe punha gravações suas. Reagia sempre. Uma vez, na Antena 2, começou a tocar uma interpretação sua de um tema do pai e tive de desligar imediatamente o rádio”.
Deitado numa cama anos a fio, só por uma ou duas vezes Luísa lhe viu sinais de revolta. Numa delas, as funcionárias, para puxarem por ele, disseram--lhe que se devia preparar para o momento em que voltaria a dedilhar os ‘Verdes Anos’ ou ‘Mudar de Vida’. Carlos Paredes, com os olhos fixos no tecto do quarto, responde-lhes num tom lancinante: “Sabem que não vou voltar a tocar, nunca mais vou voltar a tocar”.
As enfermeiras, sem saberem o que dizer, engoliram em seco e retiraram-se. Nunca mais se atreveram a tocar no assunto - nem mesmo quando o viam a limpar a guitarra, o instrumento com o qual elevou a sua música ao estatuto de clássico nacional, como se de um tesouro se tratasse.
O MESTRE E O AMADO
Sem Carlos Paredes, a pequena casa, com duas divisões e uma kitchenette, no bairro de Benfica, onde Luísa e o compositor viveram, de um dia para o outro tornou-se espaçosa demais para uma alma só. A música tornava as noites menos frias, mas nem por isso menos sós. Depois do jantar e da cozinha arrumada, não se deitava sem trabalhar as mãos. Quando se sentia com força, sacudia o pó do estojo preto onde o músico guardava o seu bem mais precioso, a guitarra, e dava-lhe alguns minutos de atenção, impedindo assim que as madeiras começassem a dar de si. “Se não as trabalhamos, morrem”, confirma Luísa, que antes de ter começado a tocar com Carlos Paredes, tendo-o acompanhado em centenas de concertos por todo o mundo, estudou guitarra clássica no Conservatório Nacional de Lisboa e chegou a leccionar na Escola João de Deus.
Quando se conheceram, num dia chuvoso, em casa de um colega de Conservatório de Luísa, com quem Carlos Paredes ensaiava, de imediato se tornaram cúmplices na música. “Depois dessa primeira tarde fui convidada para o acompanhar em alguns espectáculos, sobretudo nos dias em que o Fernando Alvim não o podia fazer”. Apreendido o repertório, uma nova etapa da sua vida ia começar. A licenciatura em Direito, concluída mais para agradar o pai e não por paixão, foi sendo sucessivamente adiada - para angústia da família, que teria gostado de a ver abraçar uma carreira menos atribulada. Mas era nos palcos, sentada ao lado de Carlos Paredes, o homem que lhe ofereceu uma vida intensa, com todos os momentos preenchidos, que se sentia completa. Nunca gostou de ser o centro das atenções, e lidava bem com o facto de passar despercebida. “Para não dizer invisível - mas não me importava. Dessa forma, podia observar o que era ser-se grande”, diz, com naturalidade a transbordar da alma.
Com a convivência, o mestre e o amado tornou-se num só homem. Uma relação baseada no respeito mútuo, que a impedia de o tratar por ‘tu’.
Durante dez anos, de 1983 até ao fatídico 11 de Dezembro de 1993, Luísa viveu para Carlos Paredes, e para o seu primeiro grande amor, a música. E foi mais do que companheira do maior guitarrista português - foi também sua mãe. “Uma mãe especial”, acrescenta. “Todos os homens são crianças, mas depois há os que obedecem e os que não obedecem. O Carlos Paredes fazia parte do primeiro grupo”.
No palco, mandava ele, para que não houvessem falhas. E isso raramente acontecia. A música, poesia feita em som, fluía como um rio – mas o intérprete nunca estava satisfeito. “Achas que toquei bem?”, perguntava-lhe, já nos bastidores. Na sala de espectáculo ainda ecoavam as palmas.
A modéstia, sempre a velha modéstia... Nele, era um vício que se prolongou para além dos limites do razoável. Nunca enriqueceu. Até Novembro de 1986 manteve o emprego de sempre, funcionário administrativo, arquivista de radiografias do Hospital de S. José. Chegou a chefe de secção. Parece irreal, mas é verdade – nunca foi um profissional da guitarra, apesar de nenhum outro ter sido tão bom quanto ele. Quando um jornalista estrangeiro lhe perguntou o que faziam, Luísa respondeu que vivia da música – “E eu sou funcionário público”, respondeu Paredes.
COMEÇAR DO NADA
Ao vê-lo a dedilhar ‘Mudar de Vida’ ou ‘Canção para Titi’, com aquelas mãos possantes e dedos longos, Luísa começou a entusiasmar-se com a indisciplina da guitarra portuguesa. Já Carlos Paredes o confirmava: “Minha mãe e meu pai preocupavam-se muito que eu estudasse música. De tal forma que comecei a tocar guitarra aos 12 anos e era sujeito a uma disciplina de ferro. Este método estava completamente fora do que seria o ideal. A disciplina na guitarra acabaria por tornar neutro o seu som...”.
Luísa seguiu-lhe os passos. Com jeitinho, pedia-lhe várias vezes para a ensinar a tocar. O mestre, com uma infinita paciência, lá lhe revelava a magia de ‘Canto de Embalar’ ou ‘Canto Rio’, o tema com que fechava quase sempre os espectáculos. Ela, hábil com a guitarra clássica, familiarizou-se depressa com as diferenças que separavam os dois instrumentos: “Como não há um método científico para aprender, depende muito do que cada um consegue fazer”, realça. Com uma vida tão activa, sempre de malas aviadas para partir a qualquer momento, Luísa nunca teve tempo de pôr em prática os ensinamentos de Carlos Paredes – até ao dia em que o viu partir para o hospital.
Sozinha em casa, só de olhar para a guitarra que o acompanhou no último concerto, em 1993, na Aula Magna, perante uma plateia de estudantes, já lhe dava vontade de chorar. Aos poucos, foi-se recompondo, e começou a limpá-la. Meses depois, já dedilhava nas 12 cordas de aço. “Era uma sensação de flashback. Via a mão dele a tocar e os meus dedos iam parar às posições correctas”, confessa.
Começava quase sempre os ensaios pelo ‘Mudar de Vida’, por ser um tema mais simples, que a ajudava a concentrar-se, passava com categoria para o ‘Canto de Embalar’, e chegava à ‘pièce de résistance’, ‘Os Verdes Anos’. Quando começou a escrever o seu próprio repertório, a partir de 1996, foi abandonando o tema que mais fundo toca na alma portuguesa. “Não quero essa responsabilidade”, explica. “Eu, mais do que ninguém, sei o que é tocar aquilo bem. Via a ligação do público, tão intensa, quase visceral, com a canção”, recorda, com um sorriso rasgado. Na memória gravou a reacção da embaixatriz da Alemanha, convidada pela congénere portuguesa a assistir a um concerto de Carlos Paredes em Pequim. Quando as luzes se acenderam, a alemã chorava copiosamente. A música, linguagem universal, tinha-lhe despertado as emoções.
Antes da morte de Carlos Paredes, a 23 de Julho de 2004, a ideia de gravar um disco com músicas dele e alguns originais, foi ganhando forma. Luísa estava determinada a começar a vida do nada – e a dedicar-se ao futuro com uma sabedoria que não tinha. “Vou nascer outra vez. Não vale a pena olhar para trás porque o passado está cumprido”, confirma. Depois de ter dado asas ao projecto ‘Movimentos Perpétuos’, com o objectivo de lutar contra o esquecimento da obra de Carlos Paredes, juntou a sua guitarra, feita pelas mãos hábeis do senhor Gilberto Grácio, à guitarra clássica de Miguel Carvalhinho, e gravou ‘Canção para Carlos Paredes’. O álbum de estreia, com quatro temas inéditos dela, reflecte a ternura e admiração profunda que o duo tem pelo maior guitarrista português. “Ainda hoje ouço as palavras dele quando estou a tocar”.
Inconscientemente, a discípula não se consegue libertar do mestre. Anseia pela emancipação, que a impede de evoluir, mas é quase inevitável puxá-lo à conversa... “Foi um privilégio ter-me cruzado com um ser destes. De repente, eu, que sou uma pessoa normal, passo a habitar no mesmo espaço de um homem genial”.
CANÇÃO PARA PAREDES
No dia da morte de Carlos Paredes, Luísa desligou o telemóvel e dormiu o sono dos justos. Durante 11 anos viveu com o aparelho ligado, dia e noite, com o receio de receber a chamada que mais temia - que acabaria por chegar na madrugada do dia 23 de Julho de 2004. “O organismo não podia dar mais”, conta. Depois de ter cumprido os pontos que tinha a cumprir nesta passagem pela terra, Carlos Paredes, pai de seis filhos, fechou os olhos.
Um ano depois, a viúva do mestre vive momentos tranquilos: “Esgotou-se o tempo dele. Não havia mais hipóteses de puxar pelo que fosse. Nos últimos anos conseguiu-se fazer uma série de coisas relacionadas com a sua obra e pôde manter a dignidade até ao fim”.
Sentada no sofá da sala de visitas da casa da sua mãe, com a guitarra portuguesa agarrada ao coração, Luísa dedilha ‘Canção para Carlos Paredes’, o primeiro tema que compôs e com o qual presta uma sentida homenagem ao homem que lhe ensinou a simplicidade da música. Nos espectáculos que dá, em ambientes tranquilos e intimistas, é a tocar com a guitarra de Paredes que se sente mais próxima do céu. “Tem um som especial, o dele”, confirma. E quem dela se aproxima, dificilmente lhe resiste. “Uma vez, estávamos no Brasil com os Madredeus e o Pedro Ayres Magalhães pediu-lhe a guitarra emprestada. Passado pouco tempo, devolveu-a porque já estava com dificuldade de largar o instrumento. É mágico”, conclui.
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