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Natal traz a Música de volta aos templos

Se hoje, pelas quatro da tarde, passar pela Igreja da Madalena, em Lisboa, ali onde começa a subida para o Castelo, há-de ouvir música clássica e vozes profissionais que se elevam para o Céu. Não hesite – independentemente da sua relação, ou eventual falta dela, com Deus, entre no templo e assista, de graça, ao primeiro de um Ciclo de Concertos de Música Sacra nas igrejas da Baixa-Chiado. Não é habitual que o belo e o bom sejam abençoados pela graciosidade. Mas há raríssimas excepções. Esta é uma delas.
19 de Novembro de 2006 às 00:00
É sob o olhar das imagens em talha de Maria Madalena com crucifixo nos braços e Marta, a penitente, que hoje se apresenta, na Igreja da Madalena, o coro Lisboa Cantat, para interpretar obras sacras de Mozart, entre as quais ‘Ave Verum’ e excertos do ‘Requiem’.
O público será também brindado com a interpretação de quatro cânticos de Natal do compositor português Fernando Lopes-Graça. Segue-se uma polifonia – quando se usam várias vozes com linhas melódicas diferentes – explorando obras dos séculos XVI e XVII.
“Ouvir excertos musicais inspirados no Evangelho e/ou no âmbito da Liturgia no espaço para onde foram concebidos é realmente muito especial.” Quem assim fala é o pároco de S. Nicolau, padre Mário Rui, certo de que “a música ganha profundidade na contemplação de mistérios celebrados e acreditados na comunidade cristã.”
Mas o ciclo não é dedicado em exclusivo aos crentes. Todos os que têm gosto na execução de música sacra cristã podem tirar proveito. “Estão convidados os paroquianos com certeza. Mas também os habitantes da cidade, os que passam pela Baixa-Chiado, os visitantes e os turistas ou os que simplesmente amam a música sacra”, assinala o padre.
TODOS OS DOMINGOS
Sempre ao domingo à tarde, os concertos prolongam-se até dia 14 de Janeiro, ora na Igreja da Madalena ora na Basílica dos Mártires, no Chiado, à esquerda de quem olha para a estátua de Luís de Camões. O repertório é variado, toca muitos autores de várias épocas, até chegar à música contemporânea. “Impulsionar a música sacra, na reposição de autores consagrados ou no apoio à criação contemporânea, é um desafio irrecusável a que a Igreja deve e quer responder.”
É indiscutível a relação histórica entre a arte, nomeadamente a música, e a religião. Afinal, sustenta o pároco de S. Nicolau, “toda a forma autêntica de arte é, a seu modo, um caminho de acesso à realidade mais profunda do Homem e do Mundo.” E é por isso, continua, que “o Evangelho não podia deixar de suscitar, logo desde os primórdios, o interesse dos artistas, sensíveis por natureza à manifestação da beleza.”
Nas peças que serão apresentadas ao longo deste ciclo, a voz humana desempenha um papel fundamental. Santo Agostinho disse que “cantar é rezar duas vezes”. O padre Mário Rui explica a afirmação do doutor da Igreja: “O canto não pode considerar-se mero adorno, extrínseco à oração. Pelo contrário. Irrompe das profundezas da alma de quem reza, louva e canta ao Senhor, ao mesmo tempo que manifesta o carácter comunitário do culto.”
Tal “irrupção das profundezas da alma” explica, porventura, que uma das primeiras expressões de música sacra no Ocidente cristão – o canto gregoriano – tenha sido exclusivamente vocal. Só depois foram introduzidos o órgão e outros instrumentos.
O que este ciclo de música sacra, na sua segunda edição, realiza é o regresso a ‘casa’ da música e das palavras que para ela foram concebidas originalmente. Daí resulta um espectáculo belo, bom e... grátis.
MÚSICA SACRA
CONCERTOS
ONDE: Igreja da Madalena ou Basílica dos Mártires
QUANDO: Domingo à tarde
ATÉ QUANDO: 14 de Janeiro; não há concerto nos domingos 24 e 31 de Dezembro
MÚSICA DE MOZART PARA ‘AVE VERUM CORPUS’
Datado do século XIV, o ‘Ave Verum Corpus’, que hoje se ouvirá na Igreja da Madalena, é um pequeno hino eucarístico, atribuído ao Papa Inocêncio VI e musicado por vários compositores, entre os quais Mozart, Schubert e Gounod. Na Idade Média, cantava-se na missa, durante a elevação da hóstia e a bênção do Santíssimo Sacramento. Tem apenas cinco versos, passíveis da seguinte tradução: “Salve, ó verdadeiro corpo, nascido da Virgem Maria/ Que verdadeiramente padeceu e foi imolado na cruz pelo homem/ De seu lado trespassado fluiu água e sangue/ Sê para nós remédio na hora tremenda da morte/ Ó doce Jesus, ó bom Jesus, Ó filho da Virgem Maria.” Mozart compôs música para estas palavras a pedido de Anton Stoll, coordenador musical da paróquia de Baden. Era o ano de 1791. Mozart escreveu o ‘Ave Verum’ enquanto trabalhava na ‘Flauta Mágica’, pouco antes de morrer.
CENTENÁRIO DE LOPES-GRAÇA
FIGURA MAIOR DA CULTURA PORTUGUESA
Amadeus Wolfgang Mozart nasceu há 250 anos em Salzburgo, na Áustria. Fernando Lopes-Graça viu a luz pela primeira vez há um século na cidade de Tomar. O repertório que o coro Lisboa Cantat hoje apresenta na Igreja da Madalena reflecte as duas efemérides. De Mozart tem-se falado muito este ano. De Lopes-Graça, uma das figuras mais emblemáticas do século XX português, muito pouco.
Lopes-Graça é autor de uma obra extensíssima, que percorre todos os géneros musicais. Também trabalhou sobre temas da música tradicional portuguesa, daí resultando, nomeadamente, um Pequeno Cancioneiro do Menino Jesus (1934/1959) e quatro cânticos de Natal (1958) para vozes femininas e conjunto instrumental de câmara.
O compositor foi grande amigo de Michel Giacometti, um francês da Córsega, que, literalmente, percorreu montes e vales com um gravador na mão, recolhendo, na origem, canções que os camponeses cantavam nas aldeias e passavam, de boca a ouvido, aos filhos e estes aos seus.
Fernando Lopes-Graça fundou e dirigiu durante mais de quarenta anos o coro da Academia dos Amadores de Música, para o qual escreveu vários arranjos de canções tradicionais, salvas do esquecimento com a ajuda do etnólogo Giacometti.
Ligado ao Partido Comunista, o compositor foi perseguido durante o Estado Novo, várias vezes preso e sujeito a um exílio temporário em Paris. Em 1979 estreou, no Teatro de S. Carlos, o ‘Requiem Pelas Vítimas do Fascismo em Portugal’. Lopes-Graça, que morreu há 12 anos, dizia que a música era a sua “única religião”.
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