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Navegar é preciso

São apenas adolescentes mas coragem não lhes falta. Sozinhas, assumem o comando de pequenas embarcações e partem para o mar, sem medo de ventos ou marés. A partir de amanhã, vão defender as cores de Portugal, num campeonato europeu de vela, em Peniche.
24 de Julho de 2005 às 00:00
Navegar é preciso
Navegar é preciso FOTO: Carlos Barroso
Quatro raparigas de 13 e 14 anos, amigas de escola, fazem equipa numa competição europeia de vela que arranca amanhã em Peniche. O evento irá juntar cinquenta embarcações de dois tripulantes de cinco países - Portugal, Espanha, França, Itália e Polónia. As “miúdas” de Peniche sabem que não têm grande hipótese de chegar ao primeiro lugar, mas estão determinadas. Há vários anos na aprendizagem dos segredos do mar e do vento e da relação homem-natureza, sabem que, acima de tudo, esses ensinamentos são determinantes para o seu próprio processo de crescimento.
Tal como na vida é importante a relação entre as pessoas, para uma mais fácil concretização de objectivos comuns, na modalidade de vela em embarcações de dois lugares (classe L’Équipe) é privilegiada a interacção entre os dois tripulantes, tanto nas tarefas do treino e da competição como na manutenção dos necessários equipamentos.
O L’Équipe é uma embarcação com cerca de 3.90 metros, destinada à iniciação na competição para jovens até aos 15 anos. Está equipada com vela grande, estai e balão, tal como a maioria dos veleiros de cruzeiro de grande porte. Embarcação de alguma complexidade, obriga a uma dedicação e organização invulgar em todo o processo de ensino e aprendizagem.
O grande interesse pedagógico reside no facto de ser a primeira embarcação em que o velejador tem contacto com a navegação aos pares, partilhando responsabilidades e obrigando a que haja um relacionamento organizado. A equipa de duas velejadoras tem necessariamente que se entender, colaborar, tolerar e organizar, mesmo que os incentivos mútuos passem por gritar uma com a outra, nos momentos em que é preciso um esforço adicional para ultrapassar os obstáculos, numa atitude de incentivo e não de desentendimento.
Das nove equipas nacionais que foram apuradas para participar no 12º Campeonato Europeu da classe L’Équipe, de 25 a 29 de Julho, duas são constituídas exclusivamente por raparigas e ambas são do Clube Naval de Peniche (CNP) - Rita Mamede e Filipa Costa, e Geisa Felix e Diana Costa, praticantes há cerca de quatro anos.
“Sozinhas temos que tomar as nossas decisões e a dois é complicado porque temos que nos dar bem para funcionar, mas isso também nos leva a dialogar e confiar em alguém para corrigir os nossos erros, o que se vem a reflectir na nossa vida social”, aponta Rita. A jovem considera que este é “um desporto de inteligência”, que leva a moldar comportamentos e atitudes fora de água. “Sentimo-nos mais concentradas, confiantes e com capacidade de liderança”, sublinha, reconhecendo que “ainda temos muito que aprender e que gritar uma com a outra”.
Nascida na cidade de Peniche, Rita começou a velejar no CNP aos 9 anos, quando frequentava o 4º ano do 1º ciclo. Fê-lo através do acordo de cooperação com o Desporto Escolar. Depois de ter participado em algumas regatas de iniciação, passou a integrar a equipa de competição “a sério” no Desporto Federado e pretende continuar a praticar este desporto.
AMIGOS ASSUSTAM-SE
Rita, agora com 13 anos, é a mais nova das quatro velejadoras e faz equipa com a mais velha do grupo, a Filipa Costa. Natural de Ponta Delgada, nos Açores, Filipa, de 14 anos, encontrou na vela a forma de fazer amigos. “Não conhecia ninguém quando vim viver para Peniche e decidi entrar no clube. Tinha 10 anos. Pouco depois, entrava já em competição”, recorda. Filipa quer continuar a competir após os 15 anos, na classe a seguir - 420 (4,20 metros). “É uma experiência enriquecedora”, manifesta.
ENFRENTAR AS ONDAS
Geisa tem 13 anos e é natural de Peniche. Aos 9 anos começou a velejar no CNP, no âmbito do Desporto Escolar, tendo sido campeã nacional em 2004 e 2ª classificada em 2005 na classe Optimist, resultados que a levaram a integrar recentemente a equipa federada de competição.
Diana, a parceira de Geisa, tem a mesma idade e começou no Desporto Escolar na Escola Básica 1,2,3 de Peniche, quando tinha 10 anos. Fez todas as provas da Taça do Oeste e foi 1ª na classe Laser, entrando na equipa do CNP aos 11 anos. Diana não tem receio em vir a velejar numa embarcação maior. “Já convidei vários amigos a experimentar, mas ficam assustados e surpreendidos como que é nós vamos para a água enfrentar as ondas e o frio, derivado da força do vento”, relata.
“Se chegarmos ao fim das regatas já é bom, mas vamos tentar o melhor possível”, declara Rita, ciente que vão ter de enfrentar fortes concorrentes estrangeiras, com outras condições de aprendizagem, ao nível do equipamento e da intensidade dos treinos.
O campeonato europeu realiza-se em frente à principal praia da cidade de Peniche. “É talvez o melhor local do país para a prática da vela desportiva, modalidade espectacular pelo colorido, pela movimentação e pela elegância e beleza que encerra, aliada à fantasia que o mar e a navegação à vela despertam, levando a imaginar grandes viagens, durante umas alturas em silêncio e outras num intenso diálogo, efectuadas por estes pequenos heróis do mar”, refere Manuel Chagas, director do CNP.
O clube, em colaboração com o Ministério da Educação, tem possibilitado que alunos das escolas locais, a partir do 3º ano de escolaridade, pratiquem vela através de acordos com o Desporto Escolar que vigoram desde 1991. Anualmente estão envolvidos na actividade mais de cem alunos com idades a partir dos 8 anos e de todos os estratos sociais.Os velejadores mais dedicados têm no clube a possibilidade de fazer a transição para a prática de desporto federado.
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