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Correio da Manhã

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NEM NA MORTE

Meia hora apenas mediou a partida de um e do outro para o lugar incerto da morte. E ainda dizem que já não se morre de amor
25 de Maio de 2003 às 00:00
Há qualquer coisa de comovente naquelas palavras, mesmo para quem não tenha passado a juventude a sonhar com caudas de tule e marchas nupciais. Aquelas palavras são a grande promessa, o selar de um juramento que se fez antes mesmo de se saber que a vida era vida e que os homens e as mulheres nasceram para procurar uns nos outros essa grande promessa da felicidade. “Até que a morte os separe”. São palavras que arrastam uma espécie de ondular doce, que repercutem o bater do coração, que acalmam a maior das dúvidas e que embalam quem até há poucos minutos padecia de insónia. “Até que a morte os separe”. Quer dizer então que mesmo que a comida tenda a plastificar-se e os dias engrenem nesse rodopiar diabólico a que chamam progresso; mesmo que as estações se encurtem e percam folhas de calendário pelo caminho; ainda que tudo se transforme e em quase nada se assemelhe àquilo que ouvimos da boca dos nossos avós, essas duas criaturas manter-se-ão unidas, até que a morte as separe.
A João Silva Campos e a Maria dos Santos nem a morte separou. O casal, ele com 89 anos, ela com 87, seguiu quase em simultâneo por esse corredor desconhecido que alguns acreditam ir dar à eternidade. Ao fim de 40 anos de vida em comum, depois dessa vida imensa de cumplicidades, esperança e algumas lágrimas – decerto – não aceitaram apartar-se de modo algum, aventurando-se ambos no caminho desconhecido da morte. Porque há uma diferença enorme entre enfrentar o desconhecido ao lado de quem se ama ou fazê-lo sozinho.
Maria dos Santos e João Campos viviam em Meimão, Penamacor. Eram casados em segundas núpcias e felizes, toda a gente diz que eram felizes.
Até àquela madrugada em que ela se sentiu mal e ele – que lhe preparava os remédios na cozinha, com a mesma dedicação de sempre – foi encontrá-la tombada no chão, com a vida a esvair-
-se, o pulso sem o bater de pássaro, o corpo sem a alma que o encantou durante 40 anos.
Ao que tudo indica, João terá saído em alvoroço para avisar alguns familiares e pedir ajuda, regressando de imediato a casa, onde a mulher o esperava afinal.
Volvido algum tempo – pouco, asseguram – os familiares a quem quisera pedir socorro foram encontrá-lo também ele tombado, junto ao telefone, com uma agenda telefónica na mão e a vida a sumir-se nas veias.
Meia hora apenas mediou a partida de um e do outro para o lugar incerto da morte. Pouco tempo para que a estrada fosse capaz de criar grande distância entre ambos. O que são 30 minutos ao pé de 40 anos?
E ainda dizem que já não se morre de amor.
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