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Nem todos superavam o medo

Parti para Angola três meses depois do início da guerra. Camaradas perderam a vida e outros ficaram traumatizados
Marta Martins Silva 29 de Maio de 2016 às 12:15
Durante uma operação no mato
Durante uma operação no mato FOTO: D.R.
Depois de terminar a especialidade fui enviado para a unidade R.I. 1 na Amadora. Quando se deu o 15 de março de 1961 as campainhas soaram para todos os militares da unidade, pois adivinhava-se que ninguém escapava à mobilização.

Fui mobilizado nos princípios de junho de 1961 e no dia 28 do mesmo mês embarquei no paquete Vera Cruz com destino a Angola integrado no CC 164, Batalhão 158. O que mais me impressionou foi ver pela primeira vez o meu pai chorar, ao mesmo tempo que gritava: ‘Malandros, que estão a levar o meu filho’. Chegámos ao porto de Luanda a 7 de julho de 1961 , no dia 19 de julho fomos para o Grafanil e no dia 31 partimos para as Mabubas. Todos os dias ouvíamos relatos de confrontos entre tropas e terroristas, com baixas entre os militares. Vi um soldado morto a tiro e outro com a cabeça aberta por uma catana, uma visão assustadora para quem ainda não tinha entrado em combate. Quando partimos para Zala estávamos apreensivos porque sabíamos que íamos entrar num dos santuários do inimigo.

Quando estávamos a duas horas de Zala, na zona do Bico do Pato, o que tanto temíamos começou. O inimigo emboscado deixou passar as primeiras viaturas e logo soaram os primeiros tiros, assim como a resposta imediata dos camaradas de retaguarda da coluna. Chamei pelos outros dois rádios repetidamente, mas não obtive resposta. Tinham deixado de funcionar. Sem rádios, o comandante da companhia não tinha a noção da posição das viaturas, ficando assim impedido de coordenar a luta. Quando percebemos que o inimigo tinha retirado. Avançámos cerca de 500 metros e, em posição de defesa, esperámos pelas outras viaturas. Quando se deu a junção, o médico e dois maqueiros percorreram a coluna a pé para avaliação da situação que se traduziu num morto com um tiro na cabeça, vários feridos graves, tendo um deles levado um tiro de canhangulo nos intestinos, arma artesanal cujas munições de pregos faziam estragos irreparáveis e também alguns feridos ligeiros, atingidos por pequenos estilhaços de toda a ordem. 

TRAUMAS
Certo dia, um furriel que estava a aliviar-se na latrina coletiva teve de se atirar lá para dentro porque o inimigo atacou de um pequeno morro a cerca de 500 metros.

No início do confronto, o soldado sentia medo, com um turbilhão de pensamentos na cabeça como: ‘Será que escapo desta?’, ‘ficarei ferido ou inutilizado?’, 'será que volto a ver a família?’ ou ‘conhecer o filho que nasceu depois de embarcar para Angola’. Mas nem todos superavam o medo. O comandante da companhia teve de tirar a arma a um soldado, porque este, afetado psicologicamente, tornou-se mais perigoso para os camaradas que o inimigo. Um outro soldado, atirador da bazuca, não mais conseguiu combater depois de uma bala inimiga lhe ter levado a ponta de uma orelha. Contudo, os soldados eram valorosos e não viravam a cara à luta, eram desenrascados, imaginativos e sabiam sofrer. A amizade que unia todos os elementos da equipa era forte, cimentada na luta e na adversidade. Ao fim de 53 anos do regresso de Angola decidi-me, finalmente, a escrever as memórias de guerra (‘O Soldado 82/60’, Chiado Editora) sobre os meus 28 meses no Ultramar, um tempo que nunca esquecerei.

Depoimento de:
Etelvino Batista
Comissão
Angola, 1961-63

Força
Batalhão 158

Atualidade

Tem 77 anos, é casado, tem um filho e um neto. Reformado, vive em Gouveia, no concelho de Sintra.
15 de março de 1961 Vera Cruz Angola porto de Luanda Grafanil
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