Ninguém é absolutamente feliz

Casou aos 21 anos e deixou Germânicas para trás. Anos mais tarde, mãe de quatro filhos, cursou Filosofia. Recusa escrever em computador. Em 1990 publicou o seu primeiro romance e nunca mais parou. Tem sete títulos no mercado. O último intitula-se ‘Até Um Dia’. Pelo meio foi avó e acompanhou de perto a carreira do marido, Diogo Freitas do Amaral, actual ministro dos Negócios Estrangeiros.
10.07.05
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Maria José Salgado Sarmento de Matos Freitas do Amaral - Mizé para os amigos - nasceu em casa na Rua Eduardo Coelho, no Bairro Alto, Lisboa. Está no meio de oito irmãos. Da mãe e da avó herdou o gosto pela leitura.
Casou com apenas 21 anos com Diogo Freitas do Amaral - actual ministro dos Negócios Estrangeiros - e interrompeu, no quarto ano, o curso de Germânicas: “Era muito nova e não conseguia articular a casa e a família com a faculdade”, recorda.
Teve quatro filhos: Pedro, 38 anos, a residir no estrangeiro; Domingos, 37 anos, jornalista e escritor; Filipa, 35 anos, pintora e Joana, 33 anos, farmacêutica. Tem quatro netos: Carolina, 6 anos; Zé Maria, 5 anos, Duarte, 4 anos e Teresa, 3 anos.
Após o 25 de Abril regressou à Universidade e licenciou-se em Filosofia. Nos anos 80 fez crítica literária no ‘Diário de Notícias’ e publicou artigos de opinião na ‘Máxima’. Até que, em 1990, surpreendeu a família e os amigos ao publicar o seu primeiro romance: ‘Sorri, Francisca’.
Tornou-se imparável. Escreve sempre durante o Inverno (excepto a primeira obra que imaginou em tardes quentes de Verão). Tem sete livros publicados. O último intitula-se “Até Um Dia” (Bertrand): “ Escrevo mais ou menos de dois em dois anos. Fiz um intervalo entre o quinto e o sexto livro porque começaram a nascer os meus netos e fiquei deslumbrada”, confessa.
Nunca escondeu que a Maria Roma e a Maria José Freitas do Amaral são a mesma pessoa. Quando, em 1990, lançou o seu primeiro romance teve receio da crítica?
Não sou bipolar nem tenho duas personalidades. Maria Roma é um pseudónimo em homenagem à minha bisavó, Paulina Roma. Quando assumi o meu lado de escritora não queria que dissessem que estava a ‘usar’ um apelido mais conhecido. Ao mesmo tempo, sinto que a Maria Roma foi uma espécie de afirmação pessoal.
Além disso, o seu trabalho e o do seu marido são distintos.
Pois não. É o ovo no espeto!
Já se cruzou com pessoas que não sabem quem é a Maria Roma?
Durante uns anos havia pessoas que não associavam a Maria Roma ao meu verdadeiro nome mas penso que de há uns três anos para cá toda a gente sabe que é o meu nome de guerra.
É verdade que antes de publicar o seu primeiro livro, o seu marido e filhos leram o manuscrito?
Eles estavam habituados a ver os meus artigos na imprensa e um dia, no Verão, cheguei ao pé da família e disse: “Escrevi um livro e vou publicá-lo”. Ficaram muito admirados e leram-no.
As opiniões foram convergentes?
De uma maneira geral, sim. Penso que se sobrepôs a surpresa à crítica embora eu tenha um filho que é escritor.
Está a falar do Domingos que, em 1990, era um jovem e não um escritor…
Mas já estava formado e tinha um MBA. Além disso, desde sempre que eu e o Domingos partilhávamos os mesmos livros e tínhamos os mesmos gostos literários.
Isso significa que também lê, em primeira-mão, os livros do seu filho?
Ele normalmente dá-me o manuscrito para ler, eu faço uma crítica e escrevo-lhe uma carta. Ele tem imensa humildade para reconhecer as críticas.
E a Maria Roma, lida bem com a crítica?
Às vezes as pessoas têm uma certa relutância em seguir as críticas dos outros mas quando esta é bem feita e sem maldade, aprendo sempre.
Os seus livros possuem algo curioso: recorre a nomes invulgares. Em ‘Até Um Dia’, existe uma Assucena…
A Assucena é um nome mágico para mim porque é a Feiticeira do ‘Trovador’ de Verdi e eu sempre quis ter uma Assucena nos meus livros
Esta Assucena é diferente da do Verdi.
A do Verdi tem um papel dramático e tónico. A ‘minha’ é uma mulher normal, talvez a mais normal do enredo.
Mas as mulheres que cria são fortes, têm personalidades bem vincadas…
Não acho que existam mulheres fortes e mulheres fracas, penso é que de uma maneira geral as mulheres possuem sempre características especiais, a começar pelos nomes. E existe sempre a parte física e a maneira como elas se mexem, vivem, falam e vestem. A sensualidade dos gestos transforma-as um pouco em personagens muito mais fortes pela parte envolvente em que eu - como escritora - as envolvo.
Costuma estar atenta à venda dos livros?
Estou sempre atentíssima e vou às livrarias ver em que posição estão e/ou em que sítio estão colocados. Faço essa voltinha toda desde o início. Há livros que caem mais no goto das pessoas; há outros que têm épocas. Às vezes os livros têm um tempo de gestação nos olhos do público
Como é o seu ritmo de escrita?
Quando os meus filhos eram crescidos, após o 25 de Abril, cursei Filosofia e habituei-me a escrever à tarde. Era a única altura do dia em que a casa estava sossegada. Mantive o ritmo. Começo às 14h00 e interrompo pelas 17h30 durante a semana. Muitas vezes tiro uma folga e aos fins-de-semana não me dedico à literatura.
Os escritores costumam dizer que o arranque e o final de uma obra são os mais complexos…
Tenho um hábito. Sento-me, escrevo o título do livro e faço o prólogo e depois logo se vê o que vai sair dali. O final custa sempre porque acredito que subimos uma montanha e na recta final, temos que descer a colina. Espero não encontrar muitos pedregulhos…até agora não tenho encontrado.
Manteve sempre os títulos originais?
Tive que alterar duas vezes porque já existiam nomes iguais no mercado. Geralmente não perco muito tempo a escolhê-los. ‘Até Um Dia’ é um título suave, apesar do suave ser uma palavra que acho horrível. No entanto, o ‘Até Um Dia’ possui a sensibilidade para esta história empolgante e marcante.
O que é que quer dizer com “um título suave”?
Penso que “Até um dia” é um título muito bonito mas não é suave; é um título sensível que transmite afectividade, intuição, sentimentos fortes para contrapor a toda a trama do livro
Mas associa o suave à literatura ‘light’?
Não, de todo, não tenho nada contra a literatura ligeira, mas não me considero uma escritora light!
Nos últimos anos, que escritores portugueses a marcaram?
Gosto do Saramago, da Agustina Bessa-Luís e do Francisco José Viegas. Também apreciei bastante o ‘Equador’ do Miguel Sousa Tavares.
Algumas pessoas não gostam do estilo de Saramago…
Sou uma fã incondicional, li tudo e o que mais gostei foi ‘A História do Cerco de Lisboa’. Sei que imensa gente - incluindo amigos meus - não gosta, não pelas politiquices, mas pelo género. Eu sou o contrário, considero-o um escritor com muita personalidade.
Interrompeu Germânicas para casar. Como é que a sua família reagiu?
Estava no quarto ano do curso e nos anos 60 era mais normal uma rapariga casar do que estudar. A família reagiu bem, eu é que me senti desconfortável e mais tarde licenciei-me. Logo depois de casar fui mãe e com um bebé pequenino em casa era complicado. No entanto sei que hoje em dia era impensável alguma das minhas filhas não terminar o curso porque tinha tido um filho.
As suas amigas licenciaram-se?
As minhas irmãs são todas formadas, algumas amigas também mas a maior parte delas não. Nos anos 60, era comum construir-se uma família cedo.
Continua a recusar escrever a computador?
(risos) Ainda não me rendi às novas tecnologias. Não dispenso a caneta futura e o bloco A4. Vou, pela primeira vez, tentar escrever uns contos - em computador - para os meus netos.
Os seus netos gostam de ler?
Eles estão numa fase em que adoram ouvir histórias contadas oralmente e agora passa-se uma coisa muito engraçada. Uma das minhas netas diz-me assim: “Avó, sente-se aqui que eu vou-lhe contar uma história”. As crianças são muito imaginativas!
Gostava de ter mais crianças em casa?
Adorava, mas isso não passa por mim…
O que sentiu quando foi avó pela primeira vez?
Acho que é um sentimento inexprimível. Tem a ver com continuidade, deslumbramento, alegria e uma enorme surpresa e curiosidade de saber como é aquele ser.
Como é que os seus netos reagem quando o avô está na televisão?
Eles às vezes chegam a nossa casa e dizem: “O avô no outro dia estava na televisão”. Sabem que eu sou a Maria Roma, às vezes até brincam comigo.
São crianças pequenas, se calhar ainda não se apercebem de muitas coisas.
Nós temos muito cuidado em separar as águas, as crianças devem ter a noção que a vida familiar é uma coisa e a vida pública outra. Os pais delas também não levam as profissões para casa. Claro que de vez em quando estamos a falar de qualquer coisa e eles ouvem.
O actor Diogo Amaral dos ‘Morangos com Açúcar’ e do ‘Mundo Meu’ (TVI) é da sua família?
Não me é nada! Toda a gente me pergunta se é meu filho, dizem que é parecido comigo mas não é da minha família! Podia ser porque tenho uma sobrinha - a Mariana Amaral - que é actriz, mas não, não somos nada um ao outro, apesar de toda a gente perguntar. Nunca vi o rapaz, nem sei quem é. Ainda por cima logo Diogo (risos)!!!
Em 1990 disse que na sociedade portuguesa a mulher era muito posta de parte. Continua a pensar assim?
Há 15 anos ainda havia uma luta enorme do feminismo e a tentativa das mulheres se afirmarem. Hoje em dia estamos ombro a ombro.
Gostava de ver algum dos seus títulos adaptado ao cinema e/ou aos palcos?
Nunca tive nenhuma proposta mas se ela vier, é como em tudo na vida, equaciona-se a ideia. Tudo o que sejam sinais positivos é bom porque os sinais são as coisas boas da vida, aquelas que temos que aproveitar.
Em tempos afirmou que os pareceres de Direito que o seu marido elaborava eram chinês para si…
Penso que o Direito é uma área muito bonita mas admito que não tenho capacidade mínima para emitir um juízo de valor sobre os pareceres.
Os termos jurídicos são muito específicos, é preciso estar-se dentro da área.
Às vezes nem todas as pessoas que os analisam têm capacidade de o fazer…
Qual é o seu conceito de felicidade?
É um conceito muito complexo, fugidio, passageiro, que tem a ver com estados de alma. Ninguém é absolutamente feliz. É um erro pensar que há pessoas felizes. Mais interessante do que ter a preocupação da palavra felicidade é aquilo a que os americanos chamam “the persuite of hapiness”. Essa procura é que é enriquecedora.
Quem é a Maria Roma/ Maria José Freitas do Amaral?
É uma mulher normalíssima, portuguesa, muito latina, que diz o que lhe vai na alma, que mostra quando está triste, quando está alegre, que dá gargalhadas, que parte a loiça - mesmo em frente a pessoas perante as quais não devia partir - e que não tem nem medo da morte.

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