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“No dia 25 de abril pendurei um lençol branco nos obuses”

Estava na Guiné quando, em Portugal, foi a revolução dos cravos. No Ultramar escapei da morte por pouco.
Marta Martins Silva 17 de Março de 2019 às 10:00

Cheguei à Guiné em setembro de 1972. Fui em rendição individual render um furriel que não sei se tinha morrido se tinha sido trocado. Estive uma semana em Bissau e depois fui colocado no mato para comandar o pelotão de artilharia. Tinha 21 homens à minha conta, fui para uma companhia africana em que só os graduados (furriéis, alferes e cabos) é que eram brancos, os soldados eram todos africanos. Estive aí bastante tempo e só quase no fim da comissão, em março, antes do 25 de Abril, é que fui colocado junto à fronteira do Senegal, em São Domingos. Estive sempre a comandar o posto de artilharia, tínhamos dois obuses no quartel. A zona onde estive mais tempo foi Bachile, perto de Teixeira Pinto. Essa zona não era muito complicada, mas ali a poucos quilómetros tínhamos a Coboiana, que era a zona onde eles viviam e, essa sim, era complicada. Eu fazia fogo todos os dias para bombardear aquela zona, havia horas certas para o fazer.

Era para ser eu

No dia 22 de abril, três dias antes do 25 de Abril de 1974, havia uma coluna militar e eu tinha de ser transferido para São Domingos, onde já estavam à minha espera. Era para ir segunda-feira mas pediram-me "eh pá, fica mais um dia" e então eu não fui, fui na coluna seguinte. Nessa manhã em que supostamente eu era para ir morreram 22 soldados, amigos meus. Estavam emboscados de véspera, foi um massacre. Depois eu era para chegar ao outro lado e os outros pensavam que eu tinha morrido, porque era para ter chegado e não cheguei… Depois lá apareci na quarta-feira e contei a história. Isto marcou-me muito, porque eles ficaram lá todos, mesmo à saída do quartel havia uma curva e não houve hipótese de escapar.

E tenho outro episódio parecido. Eu estava sempre no mato, mas quando tinha férias ia a Bissau e quando lá chegava tinha sempre a mania de ir comer marisco com os camaradas. Numa dessas vezes disse: "Vamos comer umas gambas", isto depois do jantar. Ninguém queria, queriam ficar no café central, que era o Café Bento, a beber um whisky. Mas eu insisti com eles: "Eu quero comer gambas, venham ali mais à frente" - era uma cervejariazita - "e depois vocês bebem whisky". Eles foram todos contrariados, o grupo era uns cinco ou seis e, para nosso espanto, houve um rebentamento de uma bomba no café onde eles queriam ficar. Houve uma quantidade de mortos, isto foi terrorismo urbano antes do 25 de Abril. Foi arrepiante escapar mais uma vez.

Foram muitos os episódios que me marcaram. Como aquele que aconteceu com o furriel Diogo, que também morreu, uma pessoa que não tinha medo de nada, era um herói. E já depois do 25 de Abril pediram que levantasse as minas. Ele pressentiu na véspera que ia morrer, começou-me: "Eh pá, desta vez tenho medo", e no dia seguinte rebentou-lhe uma mina, também me marcou bastante.

Nós vivemos ali, todos juntos, dois anos. No dia 25 de abril ia uma avioneta levar o correio e o aviador deixou o saco do correio na pista. "Olha" - disse ele – "houve um golpe de Estado na metrópole". Começou tudo a dizer que ele era maluco. De repente, começaram a atirar terra ao avião e o que é que ele faz? Fecha aquilo e levanta voo. Ficámos todos a olhar para o céu e a comentar: "Olha este, veio gozar com a gente." "O Marcelo Caetano preso?" "Está tudo maluco!" Mas entretanto sintonizámos a BBC e começámos a festa quando nos apercebemos que o aviador tinha dito a verdade. Nos dois obuses que tinha, um a norte e outro a sul, pus um cabo de vassoura e rasguei um lençol branco que pendurei. Nunca mais fiz fogo.

Na guerra, a minha frase sempre foi: "Não há heróis vivos." Regressei em setembro de 1974 a um Portugal diferente. A guerra? Via--se que era inútil já quando lá estávamos. E eu dizia-lhes isso muitas vezes: "Isto é vosso, nós é que temos de sair daqui." E assim foi.

FICHA TÉCNICA:

nome Luís Simões de Abreu e Lima

comissão Guiné (1972-74)

força 21º Pelotão de artilharia da Guiné

* Info 68 anos, Casado, três filhas e dois netos

A Minha Guerra Ultramar Guiné
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